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O barqueiro

Em meio ao extenso renque de árvores cujas copas se entrelaçavam formando um formidável túnel verde e sombrio Sonder Le caminhava rápido deixando rastros de suas rotas botas Hiking pela estrada lamacenta e pedregosa. Seu peito arfava estufando a jaqueta jeans sobre a camiseta branca manchada de sangue seco –“ I want a better world” – estampava a frente em um repugnante sarcasmo sinalado no pano. Como aquela mensagem –“peace”– onde crianças aterrorizadas vestindo camisetas doadas fugiam do front de guerra em meio as bombas imaginando que “Peace” marcada no peito neutralizasse o dedo no gatilho.
O caminho íngreme desembocava nas margens de um caudaloso rio , uma pequena doca para duas ou três embarcações brotava da areia suja junto a restos de galhos e ramagem secas em direção ao rio, o madeirame da estrutura esverdeado pelos urupês indicava que a umidade estava comprometendo a itaúba cerrada em vigas, sinais da implacável ação do tempo: espíritos da floresta reivindicando a árvore cortada e compondo a manta morta do ecossistema .
Sonder Le mantinha o semblante sério embora o cansaço o obrigasse a abrir a boca com um sorriso forçado buscando oxigênio, olhou as horas –15h00– no seu Garmin-GPS e ao longe avistou o barqueiro e seu barco - estavam no horário.
O barco azul naval era vistoso: de madeira de lei, oito metros de comprimento por três de largura com uma suíte modesta mas o ar condicionado e a geladeira compensavam as longas e quentes viagens pela floresta tropical.
-- Tudo ok? Estendeu a mão e cumprimentou o homem ­­-- Eu sou Sonder, contatei o senhor na semana .
-- Sim, meu nome é Akeni, como já sabe. --Bem vindo a bordo. O barqueiro aparentava ser bem velho por suas mãos rugosas , trajava uma capa escura impermeável com um capuz que cobria parcialmente seu rosto. As lentes dos óculos escuros se projetavam pela fresta do pano e refletiam o cenário a sua volta. O Mercury 60hp rangeu, turbilhonou as águas escuras e iniciou a jornada- próxima parada trezentos quilómetros rio abaixo.- pensou
Sonder estranhou estar só na embarcação, mas não perguntou o motivo pois achou que mais à frente os ribeirinhos embarcariam e isso fez com que ele relaxasse.
--Você quer se encontrar? Resmungou Akeni
Sonder estranhou a pergunta feita de surpresa. –Foi para mim? Pensou.
--O pessoal que vai para a aldeia indígena busca o reencontro da própria alma, continuou o barqueiro-- A vida é como dois bosques floridos , um que imaginamos e outro que vivenciamos, a condição essencial para ambos consiste na beleza de seus ramos, podar os ramos daninhos é primordial para ajustarmos satisfatoriamente as duas possibilidades .
Sonder enxugou o suor da careca lustrosa e continuou boquiaberto, não acreditava no que estava ouvindo e –vindo de um barqueiro- pensou com arrogância.
Akeni continuou o monólogo, já que o passageiro apenas ouvia -- As pessoas que fazem este percurso buscam uma mudança no propósito pessoal por isso lhe perguntei se você quer se reencontrar.
Sonder com uma cerveja que pegara do freezer da suíte se encaminhou para a proa, apoiando-se nas cordas sentou na rede protetora de modo que via as aguas turvas passarem rápidas sob seu corpo suspenso.
-- Acho que quero fazer a experiência da Ayahuasca , o cipó do morto, procurar novas paisagens novos cenários que me remetam a lugares onde o espirito me conte histórias escondidas na minha imaginação, respondeu pensativo bebericando a gelada.
-- Todos nós temos um sol interno que ilumina a alma e aquece os sonhos, você tem que acreditar apenas em você, meu jovem - reflexionou Akeni girando bruscamente o timão, fazendo o leme se direcionar para a direita desviando o barco de um grande tronco que descia lentamente a correnteza .
A embarcação estava rápida e a força do impulso fez Sonder Le largar as malhas da rede rolando sobre ela para a esquerda e se chocando violentamente com um gradil de madeira que estava ao redor. Com esse novo direcionamento o impacto fez sua cabeça arrebentar a grade de segurança e cair nas aguas cinzentas.
Nenhum grito se ouviu, nenhuma gota de sangue marcou a madeira da grade ou os fios de algodão da rede.
Akeni imediatamente desligou o motor jogou os ferros e fundeou o barco, a correnteza ainda o arrastou por alguns metros até parar por completo, na sequencia retirou a pesada capa e mergulhou. Com braçadas rápidas chegou aproximadamente onde Sonder caíra, respirou fundo prendendo todo o oxigênio possível e imergiu na escuridão das águas. O barqueiro era acostumado em mergulhos de apnéia.
Sonder Le afundou rápido o ardor insuportável da agua entrando em turbilhão pelas narinas foi passando ele estendeu os braços para tocar em uma espécie de parede translucida , girou o corpo e verificou que essa estrutura o rodeava em todos os lados, era redonda como uma bolha e a todo momento pulsava cores lisérgicas.
“Pelos padrões conhecidos existe o quente e o frio, o doce e o amargo, pela verdade existe apenas o indivisível e o vazio” Demócrito
Sonder estava dentro do indivisível, do átomo de seu espírito. Aos poucos as cores foram se matizando para a branca solar, em tudo havia luz e seus olhos estavam em trevas sob o efeito da Luz Solar incidindo diretamente em suas pupilas. A cada piscadela da escuridão surgiam vultos presos a parede da bolha. Do lado de fora, o vazio.
Aproximou-se desses espectros, pareciam ser pratos de porcelana decorados pendurados na parede de um hall de estar, uma sala que ele reconheceu como a da casa onde morou até pouco tempo. E os pratos, lembranças de tempos antigos vieram pela sua madrasta que herdara da mãe.
As pinturas na porcelana foram se tornando mais visíveis e as cenas retratadas passaram a ter movimentos como num filme antigo. Sonder não conseguia se expressar, sua boca instintivamente permanecia cerrada , os dentes rangiam e nesse momento ele ouviu o silencio que o envolvia permitindo que o mais profundo alerta de seu espírito chegasse a seus ouvidos. Ele estava só e iniciando uma jornada, a derradeira onde os velhos axiomas do óbvio original de nascer e morrer que a dialética insiste em preposterar com novos epistemes. É como o Ouroboros teorizasse hipóteses sobre o moto-perpétuo.
A bolha aos poucos estava se rompendo, o vazio estava preenchendo o indivisível e as visões dos pratos passavam rapidamente pelos seus olhos- as cenas movimentadas retratavam aspectos aleatórios porém marcantes de sua vida: seu nascimento, as brincadeiras da infância, a morte de sua mãe, a cobiça que o consumia, a ganância incontrolável, o roubo , a morte e por fim a última figura em movimento, a de sua fuga, ferido no ombro pelo homem que ele assassinara.
E tudo se tornou vazio, sem vida, seu espírito migrou formando um novo átomo, ainda sem mensagens delineadoras e efêmero na formatação.
Akeni num pulo surgiu das águas barrentas, arfou forte procurando ar puro e mergulhou mais uma vez e não encontrou o rapaz. Subiu em seu barco, vestiu a capa e cobriu o rosto com o capuz, acionou o Mercury e seguiu rio abaixo. O barco azul naval já rumava longe mas ainda se percebia o nome gravado em negro na sua popa “CARONTE”
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Atualizado em: Ter 10 Jan 2017
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