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Abortando sonhos

"Meu pai está demorando muito", pensei. Estava na sala, deitado no sofá tentando resolver questões fracionárias de matemática. Meu irmão disse que me ensinaria, mas até agora não chegou com meu pai. A televisão estava ligada, em um programa que ensinava mágica. Começou a chover, e mesmo às onze horas da noite, senti vontade de encarar a chuva com a audácia de um garoto de dez anos. Pela janela coberta pela cortina, eu via os relâmpagos repentinos iluminar abafadamente a sala. Com os dedos dos pés, eu roçava a superfície áspera do sofá. Não me dei conta de quando percebi. Quando uma coisa é harmônica, dificilmente é percebida. Às vezes estamos dançando, e percebemos depois. Mesmo com chuva e ruídos da tv, eu ouvia uma doce melodia ser tocada. Tão linda que eu poderia vê-la, e tão elegante que eu poderia incorpora-la. Minha visão lentamente girava, eu sentia meus músculos tensos. Tudo se movia, e eu permanecia parado. Minha mão empurrou a porta, e quando ela foi aberta, o quarto foi em direção ao meu corpo. Minha mãe estava sentada na cama de casal, de costas para mim tocando um teclado eletrônico que ela mesma ajustou à sua frente encima da cama. Não pareceu ouvir a porta ser aberta ou eu me aproximar. O mundo nesse momento não a interessava. Ela buscava harmonia, e desmanchava sua solidão em poesia, como uma talentosa alquimista. Eu nesse tempo estava focado demais na matemática, ainda na ponta do iceberg da razão, conhecendo agora os profundos vales da emoção, navegando por vias que eu não queria deixar, conhecendo universos que eu não conseguia compreender. Reflexos de minhas inquietações e angustias, dúvidas e medos. Me olhava num espelho embaçado, e via apenas minhas costas. De repente tudo se dissipou quando ela parou de tocar. 
"Nem vi quando você chegou", disse ela, me encarando, depois me deu um apertando abraço, me dando incontáveis beijos na bochecha, "pedi emprestado isso a um amigo meu. Nossa, há muito tempo que não toco. É tão nostálgico..." 
"Nostálgico?" 
"Deixa eu te contar", disse ela, enquanto fazia tranças em meu cabelo. Ela tinha essa mania estranha. "Quando eu era mais nova, eu passava a maior parte do tempo na casa de minha madrinha. Ela morava sozinha e gostava de minha companhia, e além do mais minha mãe passava o dia inteiro no mercado, ai você já pode imaginar a razão de eu passar a maior parte lá. E o que deixou minha infância especial foi conhecer os discos de vinis que ela tinha, e, obviamente, poder praticar piano". 
"Ela tinha piano? Que legal! A gente podia ter um também." 
Ela riu. Um riso enfadonho. 
"E imaginar que um dia meu sonho era ser tão divina como Mozart, Chopin, Beethoven... me via em conferências, encantando plateias com minhas melodias." 
Agora você encanta minha alma. 
"... bom", continuou ela, "não é bom perder tempo lamentando o tempo perdido. Melhor eu esquentar logo o jantar no micro-ondas. Eles já devem estar chegando".
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Atualizado em: Dom 18 Jun 2017
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