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O jovem destemido

Com pouco mais de mil habitantes, a cidade de Vila Velha era um refúgio dos grandes centros urbanos, e os únicos acontecimentos que agitavam a população do local eram nascimentos, casamentos e mortes, está última, sobretudo, quando se tratavam da Casa Mal-Assombrada que situava-se na cidade. Em mais de 150 anos de existência, a casa de dois andares, feita de madeira e com uma pintura há tempos desgastada fazia o mais corajoso dos homens suar frio ao se aproximar dela. E não é para menos: em todos esses anos, três famílias viveram no lugar e, segundo relatos, não sobreviveram para contar história.
A primeira família, que construiu a casa, não vivera lá por mais de uma quinzena. Conta-se que, no meio da noite, gritos vindos da casa podiam ser ouvidos em todos os cantos de Vila Velha, e quando um grupo de pessoas decidiu entrar e ver o que estava acontecendo, os barulhos pararam de súbito e nada nem ninguém foi visto no local, incluindo a mobília. Não demorou muito para que o terreno fosse vendido, e uma nova família lá se instalasse. Naquele tempo a casa já tinha virado motivo de pânico para os mais supersticiosos, o que não afastou algumas pessoas nela interessadas. A segunda família, de sobrenome Turner, viveu lá por mais tempo. Foram aproximadamente cinco anos de uma estabilidade financeira razoável, porém um desequilíbrio emocional gigantesco por parte de marido e mulher. Brigas constantes um dia desencadearam algo muito maior: após vários dias sem nenhum movimento na casa e de um cheiro horrível exalar de lá, uma equipe policial acompanhada de alguns moradores entrou no local e presenciou uma cena um tanto quanto repulsiva: um corpo caído no chão com uma faca cravada no peito e outro corpo pendurado apenas pelo pescoço em uma corda presa ao lustre. Sem um exame preciso, era difícil discriminar homem de mulher.
Depois desses dois acontecimentos, a casa caiu definitivamente no imaginário popular. Pessoa alguma chegava perto dela, que agora recebia o nome de Casa Mal-Assombrada de Vila Velha. Ninguém precisou ratificar nada, o nome simplesmente pegou. Por muito tempo, nenhum comprador interessado no imóvel apareceu, visto que ele teria supostamente matado seus dois últimos proprietários.
Pois eis que surge então uma pessoa interessada na casa dita mal-assombrada, após exatos 50 anos. William Rayn era um jovem de apenas 20 aniversários, de baixa estatura, com os cabelos morenos até os ombros que deixava fluir toda sua juventude através de seu sorriso. Chegou à pequena cidade ainda de manhã, e pela primeira vez Vila Velha inteira parava para presenciar algo que não era um nascimento, um casamento ou uma morte. Dirigiu-se até a casa a pé, com uma multidão atrás dele. O padeiro parou de fazer pão; o barbeiro deixou um cliente à espera; os farmacêuticos e demais comerciantes fecharam seus estabelecimentos; todos largaram seus afazeres e foram imediatamente ver o novo dono da residência mais conhecida da região abraçar sua morte.
William achou tudo aquilo engraçado, pois como uma simples casa poderia causar tanto medo nas mentes supersticiosas do povo do campo? O soar das suas botas ao andar davam a ele ainda mais confiança, e simplesmente deixou aquilo fruir: seu momento de fama estava lhe fazendo muito bem. Ao chegar em frente a casa e começar a subir os degraus da varanda, a multidão parou. Em sintonia, todo o barulho que os passos de meia cidade atrás dele faziam parou. William então virou-se para a multidão como se fosse uma celebridade e disse, tão alto para todo mundo ouvir:
- Meu nome é William Rayn, e estou aqui para descriminar este lugar. Não haverá mais mortes, e vocês verão que não passou de pura coincidência. – Deu meia volta, tirou a chave da pesada porta de carvalho do bolso, a pôs na fechadura, girou e entrou.
O odor do lugar não era o melhor que William já sentira. Além disso, o pó tomou conta da mobília que ali estava e a iluminação era muito precária. Ao subir as escadas, pegou um passarinho em flagrante entrando num buraco no teto, e pensou no mesmo instante que precisaria retificar aquilo o mais rápido possível. Largou sua única mala no maior quarto que achou e deitou-se na cama. Ficou ali por um tempo, pensando nas coisas que havia deixado para trás e como deveria ser dali para frente. William percebeu que a janela do seu quarto dava para um grande quintal atrás da casa, com uma grama incrivelmente verde e viva. Desceu as escadas e se certificou de que teria que fazer compras na vila, comida, aparelhos, roupas, tudo.
O jovem rapaz saiu de sua nova casa e a multidão já estava dispersa. Tudo tinha voltado ao normal na cidadela. William então pôs-se a caminhar, lenta e tranquilamente, visitando mercados, farmácias, lojas de utensílios e de vestuário. Voltou para casa quando o sol já havia se posto, fazendo o mesmo trajeto de horas atrás. Subiu os degraus, parou na varanda em frente a porta, virou-se para a rua e, desta vez, com seu sorriso no rosto, deu um profundo suspiro de alegria. Observou as estrelas e as luzes das casas a sua frente e ouviu o cantar de alguns pássaros, provavelmente aqueles que estavam fazendo do sótão da casa seu lar. Virou-se para a porta e fez os mesmos movimentos, tirou a chave do bolso, a pôs na fechadura, girou e entrou.
Willian ficou a maior parte da noite na cozinha, já que aquela noite faria uma macarronada ao molho branco com os mantimentos que comprou. Faria, se alguns acontecimentos estranhos não tivessem o deixado um pouco assustado. Ao primeiro sinal de fogo no antigo fogão à lenha da casa, uma rajada de vento fez com que a janela se abrisse e a brasa apagasse, além de um grande barulho de madeira contra madeira que a janela fez ao se chocar com a parede. Willian tentou algumas vezes mais acender o fogo, sem sucesso, pois todos os fósforos de dentro da caixa estavam literal e assustadoramente quebrados ao meio, o que dificultava seu manuseio. Por fim, desistiu e se convenceu a comer alguns produtos já prontos que comprou. Sua janta se limitou a bolachas de milho, frutas da venda da esquina de sua rua e alguns pedaços de pão dormido do mercado mais frequentado da cidade.
            Não passava das dez horas da noite quando Willian subiu ao seu quarto, com sua vela na mão, disposto a ler antes de dormir. Uma variedade imensa de livros existia no quarto principal, em uma estante dos antigos donos, e pensara que em até uma semana compraria uma estante nova para colocar todos eles. Curiosamente, estava apenas começando um livro que reunia os clássicos contos de Edgar Allan Poe, um dos mais incríveis escritores de terror de todos os tempos. Bem apropriado, Willian logo pensou.
            O primeiro conto era nada mais nada menos do que “O Corvo”, clássico absoluto do escritor. Não leu mais do que duas estrofes e, de repente, uma nova rajada de vento fez com que a chama da sua vela dançasse e quase se extinguisse e com que a janela batesse com um grande estrondo. Deu um pulo da cama, e com um ar sério e angustiado dirigiu-se até a janela, olhando para a noite. A lua era cheia e não havia nuvem no céu, e a Vila toda parecia ter morrido, pois luz alguma emanava de lugar algum. Isso deixou Willian ainda mais aterrorizado. Fechou a janela com rapidez e retomou seu lugar a cama, agora puxando o fino lençol para perto do peito.
            Retomou a leitura após alguns instantes de reflexão, dizendo a si mesmo que eram apenas coincidências e que nada teria de temer. Mas, logo que leu a primeira palavra, a rajada de vento se repete e a janela bate com ainda mais força. Dessa vez a chama não resiste, e a vela deixa Willian na completa escuridão, apenas com a luz da lua para iluminar seu quarto. De repente, ele percebe que um vulto negro entra pela janela recém aberta e pousa em cima do pé de sua cama. Willian não pensou duas vezes: atirou o livro ao chão e colocou-se por inteiro embaixo do lençol, deixando apenas a cabeça para fora.
            A figura negra ficou lá, imóvel, com os olhos brilhando em direção a Willian, que, nervoso, tremia incontrolavelmente. No momento de desespero, começou a pensar em todas as mortes que ocorreram na casa ao longo dos anos, na ave que estava parada dentro do seu quarto e no livro de contos de Edgar Allan Poe, tudo ao mesmo tempo em que tremia e guinchava de angústia. Foi no momento em que Willian controlou sua respiração e decidiu levantar e espantar a ave que, num rangido de madeira longo e contínuo a porta do seu quarto se abriu.
            A sombra de um homem alto apareceu diante da porta, e Willian corou de imediato. Nisso o corvo que continuava imóvel soltou o primeiro grunhido, e o homem avançou. Um, dois, três, quatro, cinco passos até chegar ao pé da cama e parar do lado da ave. Willian, aquela altura, já tinha encolhido o máximo que conseguia junto à cabeceira da cama e lágrimas já escorriam de seu rosto. Estava com medo, com muito medo. Ele sabia que             o homem o observava, junto com o corvo, mesmo não enxergando nada mais do que borrões brancos no meio da escuridão.
            Foi então que o homem levantou sua mão direita e, com uma incrível delicadeza, acariciou o animal que estava ao seu lado. Nesse momento seu olhar se desviou de Willian e focou no animal. O jovem não sabia o que fazer, nem o que pensar. Nada. Só conseguia ficar ali, paralisado pelo medo, com os olhos fixos na figura que estava parada a sua frente. Em um súbito momento de coragem, tentou exprimir alguma palavra, mas o que saiu de sua boca foi apenas um gemido, o suficiente para o homem a sua frente virar a cabeça em sua direção e afastar a mão do animal. Willian sabia que ele o observava. O mais novo dono da Casa Mal-Assombrada de Vila Velha estava tomado pelo medo, que se intensificou ainda mais quando o homem começou a andar em sua direção. Bastaram três passos para que ele ficasse perto suficiente de Willian e escutar o palpitar do seu coração que, naquele momento, quase saia pela boca.
            O homem pôs sua mão gelada como a neve no queixo do pobre rapaz e o levantou, fazendo-o ir de encontro com o dele, que ficava cada vez mais próximo, mais próximo, mais próximo até que, para seu alívio, Willian acordou. Acordou suado, com o livro de Allan Poe aberto em seu peito e com a janela e a porta devidamente fechados. Mesmo sendo um sonho, Willian não perdeu tempo: pegou suas roupas, livros e alguns de seus objetos, pôs tudo dentro da mala e saiu o mais rápido que pode de dentro da casa. Correu ainda de pijama até o fim da rua, onde havia a venda em que comprara comida no dia anterior, e pediu por um telefone ao comerciante que já estava encerrando mais um dia de trabalho. Willian chamou um táxi da cidade grande mais próxima, que chegaria em torno de vinte minutos. Vila Velha não tinha pontos de táxi, era pequena demais para isso, disse-lhe o comerciante. Durante todo o tempo de espera, não disse uma palavra, mas ficou em frente da venda, pois queria alguém por perto.  O táxi demorou um pouco menos do que o planejado, e Willian entrou tão rápido que nem se despediu do comerciante que o ajudara pouco tempo antes. Falou ao motorista que queria ir à rodoviária mais próxima. O mesmo consentiu com um aceno e acelerou. Não demorou muito para que o carro saísse da pequena cidade de Vila Velha e entrasse numa estrada de chão em péssimo estado. Mesmo assim, Willian não reparou nos solavancos que o carro dava e muito menos nas perguntas que o motorista fazia para tentar puxar assunto. Ele estava com a cabeça no sonho da noite anterior, querendo saber o que aquilo significava, o que havia acontecido e quem era aquele homem. Willian ainda sentia medo e sabia que o homem, de qualquer maneira, ainda o observava.
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Atualizado em: Qui 20 Jul 2017
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