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O Menino Abandonado



menino abandonado 

 
 
Para C. A.,
e seu osso formado por três ou quatro vértebras situado na extremidade inferior da coluna vertebral.
(Aguardando você "Querida Amiga". Que sua recuperação seja rápida e plena!).



Eu o deixei. Deixei sozinho e sem ninguém, abandonado, esquecido. Deixei sem prestar atenção no onde, não olhei para trás. Talvez uma vala, um buraco qualquer. Na verdade, quando o deixei, não sabia o mal que estava fazendo, que estava cometendo um crime.
Segui assim, culpado e condenado por mim mesmo. Réu e ao mesmo tempo meu próprio juiz, sem advogado de defesa. A cada lembrança do que havia feito, arrancava um pedaço de mim, como se me mordesse. Um vampiro faminto que suga o próprio sangue.

Conforme caminhava pela vida, tentando fazer dela algo normal, cada vez mais me convencia de que sem ele seria impossível. Até que, em certo ponto, caí na real.

E se já estivesse morto? Tanto tempo passou! Como voltar para buscá-lo? Onde estaria agora?
No lugar que era dele dentro de mim, pelo vazio deixado, alguém entrou, se instalou, se apossou. Entrou sem perguntar, uma invasão. Não foi alguém, mas, algo. Algo escuro e sem corpo, algo frio e sem vida. Assim, pude ver com maior clareza a falta que faz um pedaço de nós, uma parte importante de si, quando deixada esquecida, abandonada.
Primeiro perdi as forças, a vontade, o ímpeto. Perdi as pernas, as mãos, os braços. Perdi as mãos que não eram minhas, perdi os amigos. Perdi o juízo, perdi a cabeça.

Só me restou a esperança de quem sabe um dia, reencontrá-lo e me refazer.
Na minha busca, perambulei pelos lugares menos habitados, passei por vales, subi montanhas, caí, despenquei. Levantei, continuei caminhando. Quando senti que estava no fim, no limite das minhas forças que já não tinha. Quando estava desistindo, quando já tinha desistido e decidido me entregar, procurando um lugar, onde encostar e morrer. 
Numa noite escura e chuvosa, me arrastando pelo chão em lama e lodo, meus últimos metros de vida na direção de um poço, eis que vi! Lá no fundo, num cantinho, enrolado em si mesmo, encolhido, cabeça entre as pernas, joelhos dobrados, costas na parede úmida e gelada do poço. Com algumas folhas no cabelo e nos ombros, com frio, com sede, com fome, não me viu.

Meu pedaço.

Estiquei o braço, o corpo inteiro o mais que pude. Minhas costelas, meus ossos todos estalaram, peguei-o. Trouxe de volta pra mim. Envolvi seu corpo pequeno maltratado, por mim e pelo tempo, pelo clima. Um aperto forte, sincero e verdadeiro.
Enquanto chorava em soluços, suas lágrimas barrentas misturavam-se com a água da chuva que escorria dos seus cabelos pretos face abaixo. Prometi nunca mais abandoná-lo. Voltamos pra casa. Voltei pra casa completo. Voltei, com a minha parte que faltava.

Voltar nem sempre é fácil. Enfrentar todo o caminho de volta, o caminho que foi feito na busca até ali. Mesmo sabendo por onde vim, por onde passei, não é fácil. Não existem atalhos.
No caminho de volta, dei-lhe afeto, dei carinho, atenção. Todo amor que havia e que cabia em meu coração, eu dei.
Ele sorriu, me perdoou e acendeu meu céu.

Hoje, com minhas pernas, braços e mãos de volta, tento e luto para trilhar um caminho melhor, para nunca mais esquecer. Mas sei que não é fácil pra ninguém. Hoje sei mais do que nunca, da importância de todos em nossas vidas. Sei da importância dos amigos, dos parentes e familiares. Do parceiro, da parceira.

Mas sem dúvida nenhuma, a pessoa mais importante na minha vida, é aquele garotinho. Aquele garotinho que um dia abandonei e deixei sozinho à própria sorte. Aquele menino pequenino e frágil, que nada mais é, que meu amor-próprio. Minha garra, minha coragem, o mais de mim. Minha força, minha fé, minha autoestima.
Eu sou ele; ele, eu. 






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Atualizado em: Sáb 12 Ago 2017
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