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A Boa Matemática

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R. B. Santos / Março; 2017.

                    Para "Os Professores". 
                    Para Aurita N. de Brito e, Luzia B. dos Santos.


A BOA MATEMÁTICA

Será que existe?
Matemática boa, ou, matemática ruim?

A matemática é sem dúvida nenhuma, fonte de sentimentos diversos entre os alunos.

Tem aqueles que amam, que se divertem brincando com os números fazendo cálculos.
Há outros, porém, que simplesmente detestam. Não se pode nem ouvir falar o nome.
Se houver prova, então, começam os tremores nas pernas. Sofrem, de uma hora para outra, um ataque de pânico.

Se não me falha a memória, eu pertencia ao segundo grupo. Como não bastasse, tinha ainda o problema da timidez.
Atrapalhava a entender e aprender as lições. Isso era acentuado, porque tinha muita vergonha de perguntar, de levantar a mão e tirar alguma dúvida.

O que me trouxe a contar essa pequena história, foi a passagem que de fato aconteceu, de um professor específico pelo colégio nesses tempos difíceis.

Existem professores que marcam nossas vidas para sempre.
A maior parte da população, sabe da importância da profissão. E também sabe, das dificuldades que estes profissionais enfrentam no dia a dia, para cumprir e desempenhar seu papel da melhor forma possível.
Sabe das péssimas condições de trabalho, dos baixos salários e, da desvalorização da classe por parte dos políticos ao usar má política.
Ainda assim, com tudo isso que é contra, alguns conseguem fazer diferença e marcar para o bem, mesmo sendo difícil.

Chegou um jovem senhor na minha escola, e assumiu o cargo como novo professor de Matemática.
Era comum aos alunos fazer uma ligação imediata e severa entre o professor e a matéria dada. Se fosse professor de uma disciplina que não gostassem, esse professor também automaticamente não seria bem quisto. Essas eram as regras criados por nós, nossa cartilha seguida à risca.

Com esse professor, especificamente, aconteceu algo que surpreendeu a todos.
No dia da sua primeira aula, ao invés de abordar os assuntos corriqueiros - equações, MMC e MDC -, o professor fez uma reunião na classe e combinou com todos (segundo ele, fez isso em todas as salas e com todas as turmas para as quais deveria ensinar).
Criou um novo jeito de dar suas aulas, um jeito seu e particular de ensinar a matemática. Torná-la menos desinteressante para quem não gostava, amenizar a dor de estudar dos alunos.

Funcionava assim: Todos os dias, assim que o professor entrava na sala aula, e apenas na primeira entrada naquela turma específica no dia – isso, só para o professor de matemática vamos deixar bem claro -, todos os alunos batiam com as palmas das mãos no tampo de cima de suas carteiras. Intercalado e no ritmo, uma mão hora outra, como se fosse um tambor.
Nossa! Imagine!
Era um barulho tão alto e tremendo - mesmo durando poucos segundos -, ouvia-se da primeira, à última sala do corredor. Na parte de baixo e de cima do prédio.
Para nós os alunos, era totalmente inovador. Algo moderno, uma nova tecnologia, um jeito novo de aprender.
Todos nós, sem exceção, passamos a adorar o novo professor de matemática e suas aulas. Se tornou a fofoca, e o assunto do dia! “O Professor de Matemática Excêntrico”!

Mas veja; nem tudo são flores.

O combinado era que, ele permitia e até incentivava que fizéssemos barulho nas carteiras. Pedia usando as mãos, como um maestro regendo uma orquestra, que aumentássemos o ritmo e a intensidade. Porém, de uma hora para outra e de surpresa, fazia um movimento com uma das mãos, parecia que estava pegando um mosquito no ar. Era o sinal para o fim. Imediatamente tínhamos que parar.
Quando se voltava de frente, encarava a turma com esse gesto, se um, ou dois alunos distraídos, continuassem a batucar, ou a fazer o mínimo ruído sequer, recebia um castigo. “Um Ponto Negativo”.

Segundo o professor, era uma forma de estimular e, deixar os alunos extravasarem um pouco da energia que quase toda criança tem sobrando.
E acreditem em mim! Funcionava.
Depois desses poucos segundos de explosão e de estímulos, todos riam e se acalmavam. Mesmo aquele um, ou aquele outro, que de quando em quando, levava um pontinho negativo.
A aula corria mais tranquila, e com todos prestando mais atenção.

Para complementar seu método peculiar, inovador e eficiente, ele também incentivava a participação nas aulas.
Tudo o que você acertasse quando fosse interrogado no decorrer da aula, valia um “Ponto Positivo”, que era adicionado na caderneta. Onde cada um tinha seu nome, e no final do ano, somado ou diminuído da média principal.
Isso mudou o desempenho dos alunos de forma drástica e visível. As notas melhoraram, e a relação dos alunos com a “Temida Matemática” passou a ser “Querida Matemática”. Não demorou para o professor se tornar um ícone, uma referência em nosso colégio.

Até alguns tímidos, feito eu, começamos a participar mais das aulas, e vejam vocês, a angariar alguns pontinhos positivos.
Talvez, incentivado inconscientemente pelo exercício de bater nas carteiras no início de cada aula, isso estivesse colaborando de alguma forma, para a minha ou a nossa desinibição.
Não estou defendendo e nem condenando os métodos usados pelo professor. Estou tentando com essa pequena história, jogar um pouco de luz nos resultados que ao meu ver, deveria sempre ser o mais importante, ser o foco principal.

Como tudo que é novo, e é diferente, e por mais incrível e estranho que possa parecer, assim que é aqui no nosso país. “Aquilo Que Funciona”, desperta a ira e a inveja do time do contra.
Ou porque não tiveram uma ideia parecida e, o sucesso do colega incomoda. Ou porque não está bem em casa com a mulher ou marido. Ou talvez, porque o gato do vizinho “cagou” na areia da construção.
Um grupo de professores que não tinha tanta afinidade assim com o novo mestre e, contrários aos seus métodos e práticas, começou um processo de perseguição.

O novo professor, se manteve firme o máximo que pode. Ele contou para todos, para nós os alunos, o que estava acontecendo. Quebrando mais uma vez as regras de etiqueta administrativa.
Foi uma verdadeira comoção na escola.
Mesmo com todos os alunos da escola a seu favor, como a maioria sempre vence – “a maioria”, que tem o poder nas mãos -, conseguiram depois de algum tempo, que o professor finalmente fosse afastado.
Todos nós alunos ficamos tristes e inconformados, meio que sem entender direito o que havia acontecido.
Como um furacão que passa por uma pequena cidade, revirando e removendo a paisagem e deixando tudo para trás de pernas para o ar. Foi mais ou menos assim, que vi a escola depois da passagem do Querido Professor.
Depois, com o tempo e, como o tempo sempre cura e bota tudo no seu lugar novamente. Tudo voltou a ser como antes.

Bem... nem tudo.

Para finalizar nossa história que já está muito longa.
Nunca mais ouvi falar no nosso querido Professor de Matemática.
E, se existe “Matemática Boa”, ou “Matemática Ruim”, eu até hoje não vou me atrever a dizer.

Mas vou sim me atrever a dizer que:

Existem formas bem diferentes que podem e devem ser usadas para ensinar. Algumas vezes, até com um certo atrevimento, quebrando algumas "regras". Que podem facilitar para ambos os lados. Principalmente, quando existe aumento nos estímulos para a participação dos alunos em sala de aula.
A despeito de todas essas discussões e debates, saindo do campo da política que sempre acaba se tornando algo muito complicado, de difícil solução para nós. Que quase nunca traz bons resultados ou implanta mudanças que façam diferenças efetivas.

Parabéns Querido Professor.
Pego esse gancho, e aproveito para parabenizar a todos. Todos que enfrentam, todos os dias, essa difícil, árdua e dura batalha.

Meus Sinceros Parabéns.
“MEUS SINCEROS PARABÉNS, A TODOS OS PROFESSORES DO BRASIL”.

Antes de finalizar quero que todos saibam que, o professor de matemática da nossa história, continua fazendo parte da escola e fazendo muito, mas muito barulho mesmo.
Foi promovido e está num lugar que ninguém, nenhum grupo de professores revoltados, ou diretor de escola nenhuma, vai conseguir tirá-lo dessa vez.
Continua firme e dando suas aulas. Continua fazendo, e deixando que façam aquela “pequena bagunça gostosa”.
Continua dando pontos positivos e negativos, dentro da sala de aula que existe no coração de cada um dos alunos que o conheceram. Que tiveram o privilégio de participar de suas aulas e, ter aprendido um pouco da "boa matemática" com ele.




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Atualizado em: Qua 29 Mar 2017
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