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Broto de Bambu

velha na janela 1



R. B. Santos / Dezembro,2016.

Revisão: Luísa Aranha
Agradecimentos Especiais: “SSEV” – Sociedade Secreta dos Escritores Vivos (Obrigado Camila Deus Dará).



 
Para ela: “Que dividiu um pão em cinco, fazendo parecer, que eram dez. Por mais de uma vez. Obrigado Mãe”!




BROTO DE BAMBU

 
 
O bairro era bem simples, desses de periferia em cidade grande. Onde gente conversa tão alto, que até parece briga. Cachorro late de noite e de dia. Neste, até galo tinha. A rua onde se passa a história não era nada comum, em formação de “S”, com calçadas estreitas, um lugar pobre. No final, logo depois da segunda curva, não bastasse o que faltava de bom, havia ainda uma “boca de fumo”. O vai e vem era constante.

Num sobrado, mais ou menos no meio da rua, morava Dona Raimunda. Havia duas janelas que davam para a parte da frente. Com isso conseguia uma visão privilegiada de boa parte do local, e também, dos vizinhos e transeuntes.  Era uma senhora já de idade, devia ter mais ou menos uns sessenta para setenta anos, ninguém sabia ao certo. Adorava ficar espiando e conferindo a rotina das pessoas. Gostava tanto, que ás vezes passava da hora de almoçar. Sua filha reclamava, mas ela não ligava. Acordava bem cedo, passava o café, em coador de pano para dar mais sabor, comia dois pedaços graúdos de mandioca cozida, que a manteiga derretia, e se debruçava no seu local predileto. Sua boa e velha janela, “melhor que televisão”, pensava ela.

“Lá vem ele! É o Sr. José! E pelo jeito, bêbado de novo, logo cedo. Trançando as pernas, mas não cai o desgraçado. Podia cair! Dizem que sorrir faz bem para as rugas, e eu bem que estou precisando. Velho sem vergonha. Nessa idade. Também, a de se entender, não é. Com tanta galha que a mulher colocou na cabeça do homem, não se admira que ele beba. Talvez para esquecer, ou para enlouquecer mesmo”.  Não poupava críticas, ela era assim sem piedade. E continuava enquanto um rapaz caminhava descendo a rua.
“Agora é o outro. O maloqueiro do Luis Castân. Nem morar aqui mora. Pensa que eu não sei. Vai buscar maconha o safado. E deve até cobrar por isso. Não é possível alguém fumar tanto assim e não morrer. Pela quantidade de vezes que ele sobe e desce, quem sabe não abriu uma concorrência e cobra mais caro. Só pode ser isso. Não vejo outra explicação! É traficante, é sim”.

 O jovem passou em frente da casa, fez menção com a cabeça em cumprimento e seguiu rua abaixo. Dona Raimunda limpou os óculos no vestido, para melhorar a visão, e olhava agora para a parte de cima da rua.

“A Sofia nunca mais vai arrumar marido. Depois que inventou de trabalhar fora e fazer faculdade, as brigas com o cônjuge só aumentaram. Brigaram, brigaram tanto, que ele não aguentou e foi embora. Não demorou um mês e a franga já está com outro. Veja que falta de vergonha, os dois num agarro só em frente ao portão. Aposto que já eram amantes”.
Do outro lado da rua, numa casa térrea e com uma grande área murada na frente, Ivete abria o portão para o amigo Carlos que acabara de chegar. Como o muro era baixo, ficaram ali, apoiados. Papeando e vendo o movimento. Podiam ver a Dona Raimunda dali, mas com certeza, ela não conseguiria ouvi-los. Havia certa distância entre as casas, e a anciã já não escutava muito bem. Ivete, em voz baixa, foi a primeira falar.

- Veja só, Carlos. Mal amanhece o dia, e lá está ela. A velha coroca. Cuidando da vida de todos. É assim durante o dia todo, não sai da janela por nada.

- É mesmo Ivete, eu já tinha prestado atenção. Tem gente que não tem o que fazer. Acho que deve ter a vida vazia. – Fez uma breve pausa. - Sabe se a filha ainda mora com ela?

- Sei lá! Acho que sim. Eu não gosto de ficar reparando na vida de ninguém, tenho mais o que fazer, sabe. A minha já é bastante interessante para mim.  – E com o olhar cerrado na direção da janela, disparou. -Velha rabugenta!

- Quando essa daí morrer a alma dela vai voltar e ficar nesta janela. Deus me livre! – Observou Carlos.

Duas semanas depois, coincidência ou não, Dona Raimunda faleceu. Os dois amigos se reencontraram e conversavam no local de sempre, sobre o ocorrido.

- Ivete! Sabe dizer o que aconteceu com a velha? Do que foi mesmo que ela morreu? – Perguntou enquanto olhava para a janela, agora vazia.

- Bem, ouvi dizer que foi derrame. Eu não fui ao velório e nem ao enterro. Nunca tive intimidade com a família. E também, não gostava nem um pouco da bruxa. Mas pelos comentários, acho que foi isso sim.

- Bom... que Deus a tenha. Pelo menos agora a rua ficará mais tranquila. Que coisa! Fazer o que, não é? É o destino de todos nós. – Colocou uma das mãos na cabeça e arrematou. - Ah!... E antes que eu morra também, vou indo... lembrei que tenho que resolver uma coisa.

Quando Carlos saiu e já ia longe, Ivete ficou por ali, observava do muro.

“Esse Carlos... sei não, hein. Não trabalha, não estuda e nem namora o infeliz! Resolver uma coisa uma ova! Pensa que eu não sei, vai é dar o rabo para o Ricardo. Tenho quase certeza de que esses dois são dois maricas. ” – Esticou o pescoço para ver melhor.
“Ei! Espera um pouco aí! Quem é aquele?!... É o Senhor José?!... Nossa! E bêbado...  De novo...”






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Atualizado em: Qui 16 Mar 2017
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