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Sonhos Destruídos

máquina de escrever antiga




SONHOS DESTRUÍDOS
R. B. Santos / Dezembro, 2016




Como podemos manter acesa a chama e o desejo de buscar nossos sonhos?
 
A luta é árdua, diária e constante.
Não podemos nos descuidar um segundo sequer. Quando eu falo de descuido, não me refiro apenas ao esquecimento habitual, do qual nós somos acometidos todos os dias.
Quando esquecemos de fazer “isso”, ou então deixamos de fazer “aquilo”. Quando “isso” ou “aquilo”, se trata especificamente de um pequeno passo na direção da realização do seu objetivo.

Existe um tipo de descuido que pode acontecer, e de forma tão sorrateira, que você talvez nem possa identificá-lo.
A falta da identificação rápida e eficiente, torna esse descuido ainda mais perigoso.
Vou ilustrar claramente nas linhas abaixo, e tenho certeza que irá me entender.

Comprei uma máquina de escrever.
Acredite se quiser, comprei uma máquina de escrever.
Isso foi há vinte anos atrás. Na época eu não tinha ainda nem noção, que minha busca pela escrita se intensificaria, tornando-se um hábito saudável, prazeroso e rotineiro.
Mesmo ouvindo sussurros, que às vezes teimavam em me soprar os ouvidos, eu não sabia.
Comprei para datilografar as letras das músicas que naquela época, me atrevia a tentar escrever. Tentar escrever não! Escrevia. Escrevia, colocava melodia, harmonia e registrava em cartório.
Fazia isso para proteção, do que julgava ser minha “grande obra-prima”.

Passado um tempo, com a máquina de escrever em casa, um dia me peguei com uma vontade inexplicável de escrever um livro. Assim. “Puft”. Do nada.
Apesar da resistência que todos nós temos, daquela vozinha de incredulidade, que tenta nos agarrar pelo pescoço e sacudir com força enquanto diz:
“Não faça isso! Você não vê, que você é um imbecil. Escrever um livro?! Por Deus... deve estar mesmo é ficando maluco”.
Apesar dessa voz, que sempre aparece e nos joga no limbo, eu persisti.

O que aconteceu depois, foi que no meu descuido e na minha total falta de atenção; a voz que falava dentro de mim, tomou corpo forma e rosto de gente.
Chegou um parente meu, que era muito querido por toda a família. Que era muito querido, e muito próximo de todos nós. Fazia parte inclusive, da banda para qual eu escrevia as músicas.
Sem pedir licença, sem pestanejar, ele foi até a máquina onde eu mal havia começado a datilografar. Abaixou os olhos, e leu o que eu estava “começando” a escrever.
Levantou devagar... estufou o peito, sem ter a mínima noção do que estava fazendo, disse na sequência:

- Mas que “escritor” bunda mole é você hein rapaz! – Sorriu enquanto saboreava o sarcasmo e não parou – Você não sabe que “epílogo”, é usado no final... e não no começo de um livro?

Eis a minha confissão.
Na época, eu realmente não sabia que “epílogo”, significa a conclusão de uma narrativa literária.
Como ele também não sabia, que dizer isso para mim do jeito e da forma que disse. Estaria dando um “epilogo”, na minha primeira tentativa de caminhar na direção da escrita.

O fato é que isso me marcou profundamente. Fiquei envergonhado, frustrado me senti incapaz.
Vendi a máquina, decidido a esquecer completamente essa ideia absurda que seria escrever.
Demorou! Demorou... muito... para que aos poucos, me sentisse seguro, e conseguisse por fim, colocar algumas palavras no papel novamente.
Só voltei a tentar escrever no ano passado. Depois de ter se passado, mais de vinte anos.
Geralmente encontramos nas primeiras páginas que antecedem à narrativa principal, palavras como: “prólogo” ou “prefácio”.

No meu primeiro livro, que não tem data certa mas pretendo publicar em breve.
Na página do meu primeiro livro, onde deveria estar escrito “prólogo” ou “prefácio”.
Vai estar escrito em fontes exageradas e em negrito:

“EPÍLOGO”

Na sequência ou no “prólogo”, abro com essa pequena história.
Ah... E claro, não poso esquecer. De enviar uma das primeiras cópias para o meu querido parente. Que só tomará conhecimento dessa estória quando eu contar minha história.




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Atualizado em: Sáb 11 Fev 2017
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