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O INFERNO É AQUI MESMO?

Preso no trânsito, ele perdeu a paciência e pôs-se a gritar, esmurrando o volante:
– Diabo! Diabo!
Ouviu-se um estrondo, uma nuvem de fumaça invadiu o interior do carro e, quando ela se dispersou, lá estava, sentada no carro, a figura inconfundível: os pequenos chifres, os olhinhos malignos, o rabo. O Diabo, em pessoa, sorridente:
– Chamaste-me? Aqui estou.
Apavorado, o motorista não sabia o que dizer. Queria voltar atrás, foi engano, Senhor Diabo, eu não chamei ninguém, eu estava apenas protestando contra o trânsito; mas, como se tivesse adivinhado o seu pensamento, o demônio apressou-se a acrescentar:
– E vim para ficar. Você sabe, ninguém invoca impunemente o nome do Demônio. De modo que você pode me considerar seu eterno passageiro. Relaxe, fique tranquilo. Temos muito tempo para conversar.
O pobre homem não dizia nada. Olhava o tridente que o Diabo tinha ao lado e se perguntava em que momento começaria a ser espetado com aquela coisa. Isso sem falar no fogo do inferno que decerto em pouco tempo estaria aceso ali. Tentou disfarçadamente abrir a porta; como suspeitava, estava trancada. Demônios sabem como usar a tecnologia moderna contra suas vítimas. Suspirou, pois, e preparou-se para o sofrimento.
Lotado de crendices, o homem, o Dudu, deu-se conta de que aquilo era mais uma faceta da praga jogada pela Vandilma. Entendam. Dudu era chefe do setor jurídico do Grêmio Recreativo Brasil (Gereba), cuja presidenta era a Sra. Vandilma. Ocorre que a Vandilma estava sendo denunciada por improbidade administrativa. E, como mandachuva do jurídico, a decisão de acatar ou arquivar a denúncia era do Dudu. Logo ele, com tremendo processo nas costas, infiel depositário da boa-fé administrativa que era.
Então, ambos com o rabo preso, dependendo um do outro e correligionários, tudo levava a um deixa quieto, pois razoável seria a tese de eu te ajudo cá, tu me ajudas lá.
Mas não deixaram quietos. Soltaram os cachorros e terminaram brigando. Certo é que o Dudu fez a denúncia andar, o que fez a Vandilma dançar, e a Vandilma fez o restinho do prestígio valer, o que fez o Dudu perder. Resumo da ópera: presidenta e chefão afastados de suas funções. Morreram abraçados, como se diz na gíria do futebol.
Pior para o Dudu. Terminou na pindaíba e preso, ainda que no semiaberto. Agora gerenciava um lava a jato. Ficava no emprego até as cinco horas da tarde, quando se dirigia à penitenciária a fim de pernoitar. E era o maldito pernoite a causa da impaciência do Dudu. Temia chegar atrasado e receber a reprimenda da carceragem.
 Dudu ajeitou a gravata (não perdera o costume de vestir-se socialmente), localizou atrás uma viatura e olhou de través para o diabo. Sem dúvida, coisa da Vandilma. Ela me ligou dizendo que o remorso me faria enlouquecer, que a humilhação não haveria de largar o meu pé e que eu ainda faria o país se mijar de tanto rir. Tenho fé em Deus que essas coisas vão acontecer, Dudu, praguejou ela, encerrando a ligação.
O trânsito continuava parado, as horas passavam, e o Diabo, que de início falara loquazmente sobre as delícias do castigo eterno, agora mostrava-se silencioso. Mais, mexia-se inquieto no banco de trás. E de repente não se conteve:
– Mas será que essa coisa não anda, meu Deus do céu?
Novo estrondo, e nova nuvem, dessa vez luminosa; o demônio tinha sumido e, em seu lugar, estava um ancião de esplêndidas barbas brancas.
– O Diabo já deveria ter aprendido que não se invoca o meu santo nome em vão – disse.
– Mas você é Deus! – exclamou o motorista, maravilhado.
– Pode me chamar assim – disse Deus.
– Ah, e pode fazer um pedido, também. Você merece.
O homem não hesitou:
– Quero que você me tire agora deste congestionamento.
Ao que Deus abriu a porta e saltou. Antes de ascender aos céus, esclareceu:
– Desse trânsito, meu filho, nem Deus te tira. Acho melhor você chamar o Demônio de novo.
            Dudu ficou matutando: era para pedir que Deus desse um jeito na praga da Vandilma. Que burrice. Caralho, porra!
            Um perfume de quinta classe invadiu o carro, espadaúdo negrão ajeitou o boné e o bafo de aguardente saiu de mãos dadas com a voz de trovão:
            - Seu dia sorte. Ricardão às suas ordens. Tenho os dois produtos.
            A reação de Dudu foi cair na risada. Não. Aquilo não estava acontecendo. Já era demais. Aí trincou e dentes e soltou:
            Puta que pariu!
            O perfume barato foi rapidamente substituído pelo Chanel número 5, e sexy voz apresentou a dona:
            - Oi, gostosão. Sou a Messalina. Estou adorando essa cara de espanto, sabia?
            Dudu deixou cair o queixo. Jamais vira mulher tão linda. Abriu a boca a fim de elogiá-la, mas fechou-a imediatamente, pois receava pronunciar alguma palavra que fizesse a lindona escafeder-se. Não, não falaria nada.
            Messalina beijou-o primeiro na testa; depois, no tronco; em seguida, no... Bom, Dudu tratou de declinar o mais possível o banco do carona. Nisso se descuidou:
            - Rebola, rebola. Vai! VAI!!!!
            Não foi um rebolo. Mas algo espatifou o vidro traseiro do carro. Acontece que a fila de carros andara uns cinquenta metros, mas o carro do Dudu não tinha saído do canto. A polícia teria que ir lá, não? Como ninguém atendia aos chamados, ela teve que agir. Vai que alguém estivesse se enfartando?
            Em minutos, a internet mostrava a foto do engravatado Dudu dentro do carro, semblante um êxtase só. Abaixo a manchete:
            Ex-chefão da Gereba para carro para se masturbar e provoca congestionamento gigante.
 
Atenção:
Esse conto não é de minha autoria. Foi escrito pelo escritor gaúcho Moacyr Scliar em 1997.  Parte foi escrito por mim, na verdade. Vejam. Do título ao sétimo parágrafo é do saudoso Moacyr. Do oitavo (lotado de crendices) ao décimo segundo (Dudu ajeitou a gravata) as palavras são minhas. Moacyr retoma no parágrafo 13 (o trânsito continuava) e vai até o 23 (desse trânsito, meu filho). Daí em diante (Dudu ficou matutando) eu assumo as loucuras.
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Atualizado em: Dom 25 Set 2016
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