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OBVIEDADES, OBVIEDADES, OBVIEDADES...

Escrever é vício de descabeçado. Vejam-me como exemplo. Escrevo, crio um blogue para divulgar os desmiolos, não ganho grana alguma, mas continuo expondo os descabeços. Literatura é arte, precisa ser mostrada. O aplauso é o pagamento do artista, dirá alguém. Sei não, alguém. Sei não, mas sei. Sei, ao menos em relação a mim. Direi no fim da prosa. Falar em prosa, alguém, estou sentindo falta de seus comentários no rodapé das postagens. Apenas a enigmática Silvana tem me falado alguma coisa, mesmo assim por imeio. E sempre me alfinetando. Depois de confessar-se carente, AQUI, enviou-me esta provocação:
“Oi, TC. Fizeste uma ruma de postagens de natureza política. Compreensível, dada a surumbamba brasileira. Agora, não enxerguei em qual lado te situas. Esquerda ou direita? Ou o capcioso centro? Afinal, és coxinha ou petralha? Posicione-se, boy. Ah, boy, és melhor rabiscando sexo, sabias? Tuas prosas políticas têm criatividade zero, puros molambos literários. A propósito de criatividade, cadê tu, boy? Estás a me dever aquela criatividade, aquelazinha...  Lembra? Deixaste-me subindo pelas paredes da curiosidade, mas até agora nadica de nada. Estava certa ao duvidar de ti, não? Beijos da petralha Silvana”.
 Não conheço a Silvana pessoalmente. Seus comentários, contudo, chegam sempre nas carícias da intimidade. Ela diz ter 22 anos e, há cerca de sete meses, enviou-me duas fotos, cujos contornos atestam o viço da idade. Linda e provocante, tive de brincar:
Nossa! Lindíssima. É você mesma, Silvana? É porra, respondeu ela, cheio de rs, na frente.
Fiquei cabreiro. 22 anos e já escreve na esquecida segunda pessoa? Bom, para manter coerência com as molhadinhas insinuações dela, respondi-lhe com palmadinhas de erotismo:
Beijocas na bochecha, Silvana. Veja só. Este é um blogue ficcional, brincalhão. Se não estou satisfazendo você, acesse sites opinativos, trombudos. Mas você merece conhecer a minha posição, sim. Esquerda, direita, centro. Não tenho preferência por nenhuma, embora toque nas três e sinta certa excitação pelo centro. Se sou apolítico? Detesto essa palavra, Silvana. Sou um carneiro conscientemente político. A razão de não ter preferência? Explicarei adiante. Por hora, extasie-se com a introdução.
Obviedades, obviedades, obviedades. Vou escrever obviedades, Silvana. Então, se despreza o óbvio, a exemplo dos sabe-tudo, pode largar a leitura. Larga não? Pois! Dado o conselho, apresento-lhe duas palavrinhas comigo amancebadas: interesse e reestruturação. Sirvo-me delas a fim de preambular a prometida explicação. Não se amedronte com o volume do texto. Segure-se só um pouquinho, tá? Fui impreciso, Silvana. Interesse e reestruturação não são palavrinhas. São alavancas mentais e materializam-se na execução das coisas.
Interesse é o cara, Silvana. Nada acontece na ausência dele. Extrema obviedade? Sim. Não falei? Texto grande, por isso o abandonei. Mentira. Abandonou-o por não gostar do estilo do autor, do tema ou por preguiça. Desinteresse, sim. O desinteresse até pensa em convidar a desculpa e o esquecimento para os domingueiros churrascos. Pensa, mas deixa pra lá. E faz bem. A dupla não compareceria mesmo! Já o interesse vive nas festas da atitude e da ação.
Pode me dizer, charmosa Silvana, qual é o seu interesse ao se dirigir a mim com palavras apetitosas? Estou certo quando penso em alimentá-la e lhe respondo com picardia?
Reestruturação é ato de reestruturar, correto, Silvana? Agora permita-me usá-la numa ilustração. Você está numa esquina, assiste a uma batida de carros e descreve o acidente para um policial. Terá ele a garantia da exata descrição dos fatos? Não terá, minha nobre. Outro assistente pode contradizê-la. Setas, freagem, velocidade. Vocês podem discordar em qualquer desses pontos, não é verdade? A “verdade”, a de vocês e a de qualquer pessoa, vai depender das estruturas conceituais, do mapa mental do momento, da percepção, da experiência de cada um. Copule esses conceitos, Silvana, e verá nascer o popular ponto de vista.
Ah, meu pai, o TC pirou. Quanta besteira para conceituar ponto de vista. Coxinha, petralha, esquerda, direita ou centro? Perguntei apenas isso, boy. Devias ter dispensado a filosofia de botequim. Certamente está pensando assim, não é, Silvana? Não é besteira, amiga. É charme pra cima de você. Vai ler o resto? Pois?
De forma simples, Silvana, reestruturar é transformar alguma coisa negativa em positiva. É espatifar uma estrutura mental, mudando assim o ponto vista dela decorrente. Juntos, interesse e reestruturação pintam e bordam. Está me chamando de pedante, pois isso é argumento e contra-argumento, a narração da obviedade, o dia a dia de todo o mundo, não é, Silvana? Não é, criatura. Argumentar é combater. Reestruturar é persuadir. Argumentar é obra de qualquer pessoa. Reestruturar é atributo de especialista. Indivíduos grosseiros só argumentam. Seres delicados argumentam reestruturando.
Profissionais de propaganda mandam no assunto. Profissionais da política não ficam atrás. Profissionais, gente social, entendeu? Não resisto ao pitaco, Silvana. Imagina você a Dilma reestruturando com parlamentares? Sobretudo com o Eduardo Cunha? Teria sido aceito o pedido do impeachment? Pois! E o Lula Lá da vitória do Lula? Quebra de estruturas mentais, leituras do mundo, mudanças de pontos de vista. Interesse e reestruturação de mãos dadas arrumaram uma montanha de votos, compreendeu?
Clássico exemplo de reestruturação aconteceu nos Estados Unidos. Conhece não, né, Silvana? Então. Reagan, coroa, e Mondale, jovem. Debate decisivo, eleição no pau, Mondale soltou uma indireta (estrutura pecaminosa) sobre a idade do Reagan. Comunicador de mão cheia, Reagan mostrou-se impaciente, como se a indireta fosse irrelevante, e reestruturou mais ou menos assim: “Olha, Mondale, idade não vem ao caso, não deve ser problema. Não tenho a menor intenção de transformar em problema a sua inexperiência”. Resultado. Reagan na cabeça.
Estuprei as obviedades, hein, Silvana?
Bom, a questão da preferência. Esquerda, direita, centro. Nenhuma, já disse. Como preferir, se estão prenhes de reestruturação? Reestruturar não implica bondade ou maldade. É tão somente a busca de partidários para específicos interesses, Silvana. Visualize um eixo vertical, o da autenticidade, e as reestruturações ao redor. Você fica aérea, porquanto não enxergar a reestruturação do bem comum. Fosse apenas reestruturações, tudo bem, visto poder filtrá-las. Pior são os sofismas nelas ancorados. Golpe? Delações tendenciosas? Instituições realmente confiáveis? Tome reestruturação e sofisma. Quem briga nas redes sociais, discute em barzinhos, atrita-se no trabalho, por certo ignora a obviedade de interesses não republicanos mancomunados com reestruturações tendenciosas presentes na política brasileira. Daí a minha preferência pelo camarote. Expliquei-me, amiga?
Entenda, Silvana. Justiça social, distribuição de renda, igualdade tantas. Sou fã do trio. Mas como agarrá-lo? Covarde por não lutar? Não me julgo covarde. Mas se esse é o seu ponto de vista, tente me reestruturar. Entenda de novo, Silvana. Em relação ao social, esquerda e direita (ainda existem mesmo, Silvana?) não são incompatíveis, como apregoam alguns teóricos. Para o aplauso coletivo, falta apenas um bom reestruturador de interesses.
Presidente, você, Silvana, lutará pelos meus ídolos. Tenho certeza disso. Mas pode ficar pelo caminho, haja vista o apodrecido sistema político brasileiro. Quer saber, Silvana? Abomino a ideia de vê-la presidente. Quero-a mesmo como leitora. Adoro o nosso agarra-agarra literário. Até o imagino... As reticências são de uma obviedade sussurrante, não é, minha nobre?
É isso, gente. Mas lhes devo duas informações.
A primeira é sobre o meu vício de escrever, o sei não lá de cima. Qual é o interesse? Mostrar-me, exibir-me. Coisa de abestalhado. Pronto, falei!
A segunda é acerca da cobrança da Silvana, lembram-se? Ela subia nas paredes da curiosidade, supondo-me incapaz de cumprir uma promessinha a respeito de criatividade. Pois acabo de pagar a promessa. Prometi-lhe um texto sem a palavrinha “que”. Interessei-me pela causa e pimba:
Não há sequer um “que” nesta prosa, viu, Silvana?
 
Abraços desinteressados e reestruturados,
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Atualizado em: Dom 26 Jun 2016
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