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literatura urbana

  • 10 coisas que você precisa saber sobre a Marcie [conto]

    1 - A Marcie é a mulher da minha vida.
    Desde a primeira vez que a vi soube disso. Nosso olhar se cruzou num dia mágico na praia e foi como ter uma visão da revelação. Seus cabelos morenos e longos brilhavam com o sol e ela vinha caminhando com leveza. Todo mundo olhava para ela passando, mas foi em mim que ela fixou o olhar e sorriu. Parecia que a gente se conhecia há anos. Ela tinha um sorriso apaixonante que dizia fomos feitos um para o outro. E a Marcie sempre soube disso.
    2 - A Marcie é bonita.
    Não é uma beleza vulgar, dessas carregadas de pó de arroz e batom vermelho bem ajustadas num vestido caro. Ela não precisa ser sexy. É uma beleza pura que vem de dentro. A Marcie é bela de um jeito diferente. Não tem nada haver com a simetria perfeita do seu rosto e do seu corpo macio e cheiroso. Ela emerge do fundo de sua alma e brilha nos seus olhos, se espalha com suas palavras.
    3 - A Marcie é elegante.
    Seu comportamento reflete todo os atributos de uma dama. Seu jeito simples de andar é encantador. A Marcie não precisa de jóias caras e chamativas para atrair toda atenção para si. Sua elegância está justamente em ser notada pela beleza natural. Está no vestido sempre abaixo do joelho ou na calça jeans alta. No seu cabelo liso sem penteados extravagantes.
    4 - A Marcie é inteligente.
    É incrível como ela sabe um pouco sobre quase tudo, e é sempre o pouco mais importante. Ela cursou arquitetura na faculdade. Todas as vezes que conversamos aprendo uma alguma coisa que não sabia, as vezes nem imaginava. Ela é bem informada, leu todos os clássicos da literatura e os melhores romances já escritos, e ainda assim sempre está lendo um livro novo. A Marcie não é desse tipo de sentar na sala e ficar vendo novelas.
    5 - A Marcie não reclama.
    Ela não é daquele tipo que sempre diz que poderia ser melhor ou que só vê as coisas do pior ângulo. Quando fala alguma coisa é sempre positiva. Ela sempre está disposta a ajudar com um bom conselho ou colocando a mão na massa mesmo. Não fica pensando em como poderia ser melhor ou no que está ruim. A Marcie não fica pedindo as coisas, ela vai lá e faz. Ela não é petulante, sabe escutar.
    6 - A Marcie é feliz.
    Seu semblante de paz espelha com exatidão o que é a felicidade. Ela está sempre tranquila e disposta. Não é aquela felicidade boba de quem ri de qualquer besteirinha. É uma coisa genuína de uma pessoa que está de bem com a vida, que sabe como ver o lado bom das coisas. A alegria parece uma coisa natural para Marcie. Ela nunca acorda de mau humor e esta sempre num astral contagiante.
    7 - A Marcie é boa cozinheira.
    Os antigos até poderiam dizer que ela me pegou pelo estômago. Antes de eu levantar ela já fez café e preparou o pão. Pão caseiro, ela diz que na padaria eles não peneiram a farinha, por isso nunca está macio. A Marcie nunca repete o prato no almoço e na janta, e é sempre um mais gostoso que o outro. Os doces são sensacionais, e sua especialidade é o bolo de chocolate. Ela diz que aprendeu suas receitas com a sua avó, e o principal ingrediente é o amor.
    8 -  A Marcie sabe como apoiar um homem.
    Ela tem o time perfeito do que falar, quando falar e como falar. Sabe exatamente a hora certa de fazer as coisas. Está sempre pronta para ajudar e, mesmo nos piores momentos, tem sempre uma palavra consoladora e um gesto tenro para amenizar qualquer tipo de sofrimento. Ela entende a importância do futebol, não me obriga a abrir mão de nada para estar sempre ao meu lado. A Marcie estava sempre preocupada em ter certeza que eu estava bem.
    9 - A Marcie é do bem.
    Nunca vi ela fazer mal nem a uma barata. Quando as via ela, cuidadosamente, as varria para fora de casa. Com a Marcie parecia que tudo sempre ia ficar bem. Ela era voluntária na igreja, na escola, no hospital ou em qualquer lugar onde alguém necessitasse de ajuda. Com ela não havia surpresas, a Marcie sempre ia fazer a coisa certa. A Marcie sempre ouve o que as pessoas têm a dizer com atenção, como se fosse o assunto mais interessante do mundo.
    10 - A Marcie não existe.
    Sou feio, pobre e gordo. Nenhuma mulher nunca me quis. Eu entendo elas. Também nunca ia querer uma mulher feia, pobre e gorda. Por isso criei a Marcie na minha cabeça, para ter uma companhia e poder sofrer de amor como todo mundo. Funcionou.
  • A conta

    Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

    Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

    O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

    Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.
  • A esquina e o fim

    [blitz]
    - Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.
    - Sim Senhor, aqui estão.
    - Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?
    - Estou voltando do trabalho para casa.
    - O Senhor pode descer do veículo, por favor.
    - Claro, algum problema policial?
    - Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?
    - Não Senhor.
    - Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.
    - O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?
    - Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?
    - Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.
    - Atitude suspeita, Senhor.
    - E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?
    - Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?
    - Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.
    - O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?
    - Posso, o que o Senhor está procurando?
    - Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.
    - Somente alguns papéis.
    - O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?
    - Claro. Está vendo, papéis.
    - Sobre o que são esses papéis?
    - Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.
    - Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?
    - Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.
    - Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.
    - Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?
    - Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.
    - Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?
    - Abra o veículo, por favor?
    - Estes CDs no porta trecos são do Senhor?
    - É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.
    - Acalme-se Senhor.
    - As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.
    - Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.
    - (click)
    - O que são esses papéis?
    - A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.
    - Posso ver essa nota fiscal?
    - Por que? Eu posso perguntar por que?
    - A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.
    - Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.
    - Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.
    - Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.
    - Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.
    - Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.
    - A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?
    - Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.
    [delegacia]
    - Eu só falo quando o meu advogado chegar.
    - O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.
    - Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!
    - Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.
    - Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.
    - Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.
    - Prova do que?
    - De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.
    - Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?
    - Quanto tempo?
    - Desde os 12 anos.
    - Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.
    - Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?
    - O Senhor tem filhos?
    - Tenho, três.
    - Eles estudam em escolas particulares?
    - Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.
    - O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.
    [conversa com o advogado]
    - Como assim eles podem me manter preso por até três meses?
    - Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.
    - Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.
  • A Moda Como Linguagem

    A moda é uma linguagem. É a porta voz da alma de uma nação. Não dá para pensar que a moda é só atributo das passarelas de Milão ou de Paris. Diante as Olimpíadas do Brasil percebemos o quão essa linguagem pode dizer da característica de um nação de forma tão contundente. Vimos o mundo inteiro maravilhado com a beleza de nosso povo. E essa linguagem que maravilhou o mundo, com o sincretismo do povo brasileiro, da diversidade de cores e de beleza que além de contagiar o Brasil, contagiou os estrangeiros e mostrou a riqueza de uma nação bela que foi construída pela interação de diversos povos como os japoneses, africanos, italianos. E Mesmo com os apelos políticos do qual assola a agora ‘instável’ nação, o festival de cores, as roupas, as fantasias que cativaram até os ‘gringos’ mostraram: O Brasil é um país de beleza, exótica... Mais beleza. E o que falar de Gisele Bündchen na passarela? . Ela mostrou o que faz do país além de uma referência de cores e diversidade um país cuja moda e elegância são também coisa de Gente Grande. Vale Ressaltar que apesar de certo muro de separação entre Moda e Política: pode-se dizer que o conceito de moda está findado tanto em política quanto na filosofia e todos intrinsecamente representam conceitos de racionalidade. A política é um ato de escolha, de fazer, agir, e a filosofia é utilizar a razão e a complexidade do mundo para inferir verdades e silogismos que levem a tentar compreender a verdade da sua maneira. A moda também é assim. É tanto um ato de escolha, de ordem e poder quanto de racionalidade, uma atividade de entendimento e complexidade do saber de uma cultura, de um povo, de uma pratica social. Você veste aquilo que você é, de acordo como você se sente , sua personalidade , seu estilo de ver e viver a vida. Ademais, a compreensão e a vivência a uma determinada cultura é pressuposto para adentrar ao contesto cultural da manifestação a qual se participa. Esse conceito cultural pode ser exemplificado por dois extremos, pôr exemplo, o Brasil e a Arábia Saudita. O nosso país é um país diversificado e cuja pluralidade de povos, etnias ,religiões e orientações sexual amplia a definição de moda e tradição dependendo do povo ou grupo social e nos fazem únicos. Temos povoados de origem alemã no norte do Rio Grande do Sul, comunidades chinesas em São Paulo, libaneses e sírios em fortaleza e povos nativos e indígenas no norte , nordeste , sudeste , centro–oeste e cada qual representam uma moda típica com vestimentas e características de trajes típicas. Na Arábia Saudita também existe uma moda, mas em contraposição, as vitrines são cheias de saiotes até os pés, véus que cobrem o rosto e burcas que são espécie de ‘biquínis vestidos’ que comportam visualmente a cultura e a moda local. Se vestir de biquíni, maiô ou um tomara-que-caia, por exemplo, é um afronto para a população e tradição local. Na Arábia Saudita sabemos que o conceito de moda é muito mais homogêneo e diverge muito das liberdades encontrada no ocidente . Porém, foi visto também que o orgulho ao véu é também uma convenção honrosa, tanto pela defesa as raízes do país quanto ao respeito e moral das mulheres árabes as suas tradições. A moda muda convenções e democratiza a história, pois é o ponto condutor para mudanças sociais e o termômetro entre liberdade de expressão, conservadorismo, ideologia e novas mudanças de concepções. Conquistas como a liberdade sexual , igualdade entre os gêneros, igualdades entre os homossexuais foram conquistados queimando sutiãs, ousando utilizar roupas que eram consideradas masculinizadas ou fora do padrão, etc. Por parte, não existe o enquadramento de dentro ou fora de moda, uma vez que a moda acaba sendo relativo de lugar a lugar, é temporal (depende do tempo em que se vive), depende também das inovações e complexidade da mesma além de ser variável também por quebra de padrões, globalização , mudanças social e um universo de outros fatores que acaba tornando ela ao mesmo tempo - atemporal – pois é possível um resgate de uma dita ‘moda velha’. Ao resgatar o antigo, o arcaico, o ‘ Retrô’, ou até antecipar “o que não veio ainda” à exemplo de moda do tipo ‘ futurista’, há uma semiótica de peças antes ‘ bregas’ , ‘ horrendas’ , ‘ feias’ que se transformam em irresistíveis peças ‘cult’, ‘modernas’, ‘estilosas’, tudo por fruto de convenções da sociedade e existência das inovações da moda.
  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • A vida no inferno

    O trabalho nunca assustou Natália. Muito ao contrário. Desde os 15 anos ela já acordava antes do sol nascer para poder estudar e ser secretária do seu tio dentista. Podia até ser uma forma de ele ajudar a família do irmão, que não tinha paradeiro conhecido, mas as seguidas investidas com a mão embaixo da saia de Natália, e seu olhar psicótico, diziam outra coisa sobre as intenções do homem por detrás da máscara. Qualquer coisa seria melhor que ter que conviver diariamente com um boçal. Por isso, quando fez 18 anos e acabou a escola, saiu da clínica para trabalhar numa empresa de telemarketing. Sua missão agora era convencer pessoas que não podem pagar um plano de saúde a pagar por um que não funciona. “O Senhor esta ciente de que, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem um dos piores serviço público de saúde do mundo? Pior que o da Argélia, Senegal e Cabo Verde, por exemplo.” Ao lado do seu teclado havia uma folha sulfite plastificada com algumas frases que ela poderia recorrer. Tudo sempre começava com um “bom dia, meu nome é Natália e estou contactando o Senhor, em nome da ExploraMed, para oferecer uma oferta especial válida só por hoje.”
    Assim que ela desligava o telefone vinham as metas absurdas e os prazos corrosivos. “Pessoal, aqui nós trabalhamos com números.” Eram uma ligação a cada três minutos e no mínimo 20 contratos assinados por dia. “Parece muito, mas se vocês seguirem as técnicas que nós ensinamos é possível.” Informações como a superlotação, “segundo o Tribunal de Contas da União 64% dos hospitais estão sempre com lotação superior a sua capacidade”, ou “consultando os dados do Conselho Federal de Medicina o Senhor vai ver que, entre 2005 e 2012, o Sistema Único de Saúde eliminou 41.713 leitos.” Teoricamente, de posse destes dados, qualquer um deveria se desesperar e pagar até o que não podia para dormir com a consciência tranquila de que se acordasse no meio da noite, tendo um ataque cardíaco, não morreria num chão qualquer esperando a boa vontade de um bom samaritano que se importasse. Mas não era o suficiente. As pessoas precisavam de muito mais que um plano de saúde, assim como Natália, que precisava de muito mais que um salário mínimo para ter alguma perspectiva de não chegar aos 40 anos sem ter atravessado as fronteiras do ritmo casa-trabalho / trabalho-casa.
    Foi pensando num futuro melhor que ela começou a ver as etiquetas coladas nos orelhões do centro da cidade com outros olhos. “Oi garanhão, procurando prazer e diversão?” A voz meio masculifeminilazida do outro lado da linha fez ela reparar na palavra Travesti depois do nome Sheila no adesivo. Por um momento ela se sentiu envergonhada, mas não foi o suficiente para parar. “Oi, eu queria saber quanto você cobra.” “Ai gatinha, é só você que quer brincar ou seu namorado também quer participar da festa?” “Que?” “Hum, é só você que quer saborear novas aventuras, não é? São R$250 para fazer essa carinha doce suspirar amor por uma hora, e eu atendo no meu apartamento aqui no centro.” Natália respirou fundo com o valor e desligou o telefone. Em uma hora ela podia ganhar mais que em uma semana sentada numa cadeira incomodando alguém pelo sistema de discagem randômico. Olhando por esse ponto de vista parecia até mais decente. Trabalhando umas duas vezes por dia ela podia até pensar em fazer uma faculdade e ajudar a sua mãe, que sofria limpando banheiro de crianças irritantes filhas de adultos imbecis. Quanto mais pensava mais tinha certeza de que valia a pena correr os riscos, que na verdade não eram consideravelmente maiores que ser menina num ônibus lotado, chegar em casa depois de ter escurecido ou trabalhar como secretária do seu tio.
    Enquanto tirava fotos dos anúncios colados pelos orelhões e postes da cidade pensava nos detalhes. Primeiro: ia ter que ter um número de celular secreto, só para aquilo. Ninguém poderia ficar sabendo. Atenderia seus clientes em algum dos hotéis que alugam quartos por hora no centro, e como o cliente que ia pagar ele poderia até escolher qual. Depois, cobraria o dobro para dar a bunda e exigiria que o cliente sempre usasse camisinha. Acreditava que assim estaria evitando os maiores problemas que a profissão oferecia. Agora era a hora de elaborar o anúncio. Com um caderno na mão sentou na cama e começou a ver as fotos que tinha tirado no celular. “Paula Ninfeta. Insaciável. Depiladinha. Anal total. 93327-9869.” Parecia muito vulgar. “Brenda Casada. Para fetiches e fantasias. Homens, mulheres e casais. 93267-9765.” Esse não era chamativo. Depois de olhar dezenas de imagens, e escrever outra dezena de rascunhos, Natália chegou ao anúncio perfeito: “Paola (sempre achou esse nome chic) Amor (ora, do que aquilo se tratava?). Carinho e sexo para homens (não saberia o que fazer com mulheres e se sentiria estranha em 3). 24h (era importante estar sempre a disposição). NOVO NÚMERO DE CELULAR.”
    Cheia de confiança e expectativa Natália acordou mais cedo que o habitual. Vestiu sua melhor roupa e se maquiou como quem vai para uma festa de gala. Na entrada da estação de trem comprou um chip novo para o celular e começou a olhar para todos os homens como potenciais clientes. Pensou que eles estariam bem vestidos, afinal, quem pode pagar R$250 por hora tem que ganhar muito bem, e quem trabalha bem vestido geralmente ganha muito bem. Passou na Tele CO. e se demitiu resumindo os motivos em “arrumei um emprego melhor”. Eles insistiram em saber aonde a ponto de Natália se sentir acuada, mas ela se manteve firme. Assinou o que tinha que assinar e dali foi para uma lan house. As risadinhas que o moço dava enquanto ela ditava o que queria escrever na etiqueta a deixaram um pouco envergonhada. Com os adesivos em mãos começou a divulgar seu novo emprego. Deu preferência para os orelhões perto de prédios de vidro ou postes perto de lojas caras. Quando acabou com tudo Natália se sentou num banco na praça e, meio nervosa e meio ansiosa, ficou esperando o telefone tocar.
  • Almoço fast-food

    Seu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.
    Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.
    Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “........” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”
    Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.
  • Amor em brechas

    Vivemos das brechas que a rotina de se viver em cidade grande nos dá, vivendo a espera de uma fenda de algumas horas para podermos nos encontrar, mas quando nos amamos, fazemos em expansão, somos assim, um cômodo ou um lugar não parecem tão suficientes pra nós. Topa irmos pra sala? Cozinha? Banheiro? Um banho não parece má ideia. É nesse amor em ampla construção e vontade louca de destruição de móveis que a gente vai vivendo.
    Me diz em que momento foi que você cravou teus dentes no meu peito? Essas marcas estão com cara de que vão me acompanhar por uns bons dias. Tudo bem. Melhor do que apenas a lembrança ou o cheiro do teu perfume impregnado nas minhas roupas é ver que as marcas que você deixou em mim não são só metáforas, são reais, estão na minha pele, na tua pele. Nos mostram que de um lado houve a passagem de uma boca empenhada e entregue ao prazer e do outro um trabalho bem feito em causar arrepios na nuca, braços, coxas... onde houver pêlos.
    Quando nos vemos de novo? Essa marca já está sumindo, tua boca precisa dar uma retocada aqui e a minha cama esses dias anda muito arrumada, não lembra em nada os dias que você a revira, tira o meu lençol, minha camisa, meu juízo, meu sono, minha solidão. Você deixou só os teus cabelos aqui e não a tua cabeça encostada no meu travesseiro. Como eu faço pra ter você aqui de novo? Só a próxima semana? Quando você sai mais cedo? Essa cidade grande! Precisamos de rotina, mas quem foi que disse que seus beijos também não podem ser diários?
    Vamos pro interior, parece que lá a gente pode parar de viver de brechas e começa a viver de amor.
  • Apresentação

    Frequentemente me pego relembrando o passado, como se tivesse algo nele que eu vivi e esqueci de aprender, algo que passou batido e que não notei.
    Os assuntos são variados, desde pessoas que nunca mais soube noticias, até momentos e  os sentimentos que senti neles.
    Acredito que peguei este hábito nas aulas de história do ensino médio, a professora Aninha sempre me instigava a saber toda a história para entender como chegamos no hoje, do porque daquilo tudo, por mais que a história fosse complicada.
    Minha história de vida não é daquelas chamativas, esta mais para uma história parada e monótona, porem quando se afasta um pouco para se observar de longe tem tantos capítulos que você leva um susto e se pergunta em como virou tudo aquilo, pois nem pareceu tantas histórias dentro de um livro só.
    Tenho atualmente 23 anos, paulistana, moro com os pais, trabalho a quase 7 meses em um petshop... um resumo da vida financeira, porem não de mim, não da minha história, daquilo que me define...
    O que me define é um conjunto das minhas ações, das pessoas que estão em meu cotidiano ou já estriveram, e todos meus pensamentos.
    Sei que esse texto ficou muito desconexo mas só precisava escrever sobre eu, sobre me afirmar no meio de tudo o que tenho passado, espero ser mais clara...
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Broto de Bambu

    velha na janela 1



    R. B. Santos / Dezembro,2016.

    Revisão: Luísa Aranha
    Agradecimentos Especiais: “SSEV” – Sociedade Secreta dos Escritores Vivos (Obrigado Camila Deus Dará).



     
    Para ela: “Que dividiu um pão em cinco, fazendo parecer, que eram dez. Por mais de uma vez. Obrigado Mãe”!




    BROTO DE BAMBU

     
     
    O bairro era bem simples, desses de periferia em cidade grande. Onde gente conversa tão alto, que até parece briga. Cachorro late de noite e de dia. Neste, até galo tinha. A rua onde se passa a história não era nada comum, em formação de “S”, com calçadas estreitas, um lugar pobre. No final, logo depois da segunda curva, não bastasse o que faltava de bom, havia ainda uma “boca de fumo”. O vai e vem era constante.

    Num sobrado, mais ou menos no meio da rua, morava Dona Raimunda. Havia duas janelas que davam para a parte da frente. Com isso conseguia uma visão privilegiada de boa parte do local, e também, dos vizinhos e transeuntes.  Era uma senhora já de idade, devia ter mais ou menos uns sessenta para setenta anos, ninguém sabia ao certo. Adorava ficar espiando e conferindo a rotina das pessoas. Gostava tanto, que ás vezes passava da hora de almoçar. Sua filha reclamava, mas ela não ligava. Acordava bem cedo, passava o café, em coador de pano para dar mais sabor, comia dois pedaços graúdos de mandioca cozida, que a manteiga derretia, e se debruçava no seu local predileto. Sua boa e velha janela, “melhor que televisão”, pensava ela.

    “Lá vem ele! É o Sr. José! E pelo jeito, bêbado de novo, logo cedo. Trançando as pernas, mas não cai o desgraçado. Podia cair! Dizem que sorrir faz bem para as rugas, e eu bem que estou precisando. Velho sem vergonha. Nessa idade. Também, a de se entender, não é. Com tanta galha que a mulher colocou na cabeça do homem, não se admira que ele beba. Talvez para esquecer, ou para enlouquecer mesmo”.  Não poupava críticas, ela era assim sem piedade. E continuava enquanto um rapaz caminhava descendo a rua.
    “Agora é o outro. O maloqueiro do Luis Castân. Nem morar aqui mora. Pensa que eu não sei. Vai buscar maconha o safado. E deve até cobrar por isso. Não é possível alguém fumar tanto assim e não morrer. Pela quantidade de vezes que ele sobe e desce, quem sabe não abriu uma concorrência e cobra mais caro. Só pode ser isso. Não vejo outra explicação! É traficante, é sim”.

     O jovem passou em frente da casa, fez menção com a cabeça em cumprimento e seguiu rua abaixo. Dona Raimunda limpou os óculos no vestido, para melhorar a visão, e olhava agora para a parte de cima da rua.

    “A Sofia nunca mais vai arrumar marido. Depois que inventou de trabalhar fora e fazer faculdade, as brigas com o cônjuge só aumentaram. Brigaram, brigaram tanto, que ele não aguentou e foi embora. Não demorou um mês e a franga já está com outro. Veja que falta de vergonha, os dois num agarro só em frente ao portão. Aposto que já eram amantes”.
    Do outro lado da rua, numa casa térrea e com uma grande área murada na frente, Ivete abria o portão para o amigo Carlos que acabara de chegar. Como o muro era baixo, ficaram ali, apoiados. Papeando e vendo o movimento. Podiam ver a Dona Raimunda dali, mas com certeza, ela não conseguiria ouvi-los. Havia certa distância entre as casas, e a anciã já não escutava muito bem. Ivete, em voz baixa, foi a primeira falar.

    - Veja só, Carlos. Mal amanhece o dia, e lá está ela. A velha coroca. Cuidando da vida de todos. É assim durante o dia todo, não sai da janela por nada.

    - É mesmo Ivete, eu já tinha prestado atenção. Tem gente que não tem o que fazer. Acho que deve ter a vida vazia. – Fez uma breve pausa. - Sabe se a filha ainda mora com ela?

    - Sei lá! Acho que sim. Eu não gosto de ficar reparando na vida de ninguém, tenho mais o que fazer, sabe. A minha já é bastante interessante para mim.  – E com o olhar cerrado na direção da janela, disparou. -Velha rabugenta!

    - Quando essa daí morrer a alma dela vai voltar e ficar nesta janela. Deus me livre! – Observou Carlos.

    Duas semanas depois, coincidência ou não, Dona Raimunda faleceu. Os dois amigos se reencontraram e conversavam no local de sempre, sobre o ocorrido.

    - Ivete! Sabe dizer o que aconteceu com a velha? Do que foi mesmo que ela morreu? – Perguntou enquanto olhava para a janela, agora vazia.

    - Bem, ouvi dizer que foi derrame. Eu não fui ao velório e nem ao enterro. Nunca tive intimidade com a família. E também, não gostava nem um pouco da bruxa. Mas pelos comentários, acho que foi isso sim.

    - Bom... que Deus a tenha. Pelo menos agora a rua ficará mais tranquila. Que coisa! Fazer o que, não é? É o destino de todos nós. – Colocou uma das mãos na cabeça e arrematou. - Ah!... E antes que eu morra também, vou indo... lembrei que tenho que resolver uma coisa.

    Quando Carlos saiu e já ia longe, Ivete ficou por ali, observava do muro.

    “Esse Carlos... sei não, hein. Não trabalha, não estuda e nem namora o infeliz! Resolver uma coisa uma ova! Pensa que eu não sei, vai é dar o rabo para o Ricardo. Tenho quase certeza de que esses dois são dois maricas. ” – Esticou o pescoço para ver melhor.
    “Ei! Espera um pouco aí! Quem é aquele?!... É o Senhor José?!... Nossa! E bêbado...  De novo...”






    --xx--

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  • Chorar nem sempre é tristeza

    Hoje eu choro. Não de tristeza, com nó na garganta ou coração apertado, não pense que seja esse o motivo, não é esse sentimento que aparece de repente quando estamos juntos e você carinhosamente enxuga meu rosto ligeiramente umedecido. Choro pois no meu peito já não cabe tamanha felicidade. As lágrimas são apenas o modo que meu coração encontrou de conseguir se expressar com o mundo, com você. Não o intenda mal, não procure explicações quando estiver comigo e meus olhos começarem a encher d'água, parecendo que o simples fato de você contar sobre sua vida tenha acabado virando um filme dos mais tristes, assim como foi quando achei que o Nemo tinha morrido. Não é isso. É o fato de você dividir comigo tuas historias, tuas bizarrices, tuas dúvidas, medos, me fazendo entrar no seu mundo. Pra isso, se faz necessário entrar de corpo e alma lavados. Eu choro. Não se assuste quando estiver rindo, compulsivamente de algo, com aquela tua risada capaz de alegrar qualquer dia ruim e eu apenas estiver com sorriso de canto e os olhos marejados. Não é mal humor, ou por ser ranzinza, apesar de ser frequentemente assim. Mas toda vez que você ri me da vontade de chorar, não de tristeza, mas pelo fato do seu sorriso me inundar por inteiro em algo que realmente não tenho como explicar. Eu choro. E choro, sem vergonha de despir sentimentos pra você, não tenho problemas em deixar teu travesseiro encharcado. O deixo assim para que no momento que deitar para dormir se sinta imersa no mar que me encontro, navegando assim meio sem rumo, mas sendo guiado pelos teus olhos.
  • Ciclo e reciclo

    Fica! Larga esse telefone na mesa e me dá essa certeza de que você é real e verdadeira. Quero te ganhar devagarinho, trás sua mão com carinho antes que o celular te distraía. Deixa eu descobrir o seu mistério, sim, é isso que eu quero, pra poder te decifrar e te fazer feliz.
    Vai! Me dá um pouco de saudade que já nessa idade também me faz bem. Fica longe por um tempo, pra eu aprender como o vento, pode me fazer lembrar da tua essência. Conhece outro cara, mas por favor não se amarra, tenta lembrar que eu também sou seu.
    Volta! Pega o telefone e me deixa ouvir a tua voz, me diz que ainda existe nós, pra que meu coração acalme essa ansiedade. A gente marca num bar ou em qualquer outro lugar, só não me deixe aqui sem saber de você. Trás com você essa alegria me conta como foi o seu dia, pra gente fazer isso tudo outra vez.
  • De Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira) — Crônicas do Parque

    Acordou exausto às quatro horas da manhã com o toque de uma suave música de flauta chinesa, em que configurara no aplicativo despertador do seu smartphone. Levantou-se de súbito sentando na cama com os olhos pesados de sono, em que o seu corpo estava a lhe implorar por mais algumas horas de descanso. Aquele momento era-lhe torturante, pronunciou mentalmente algumas palavras de conforto “Seja forte, vamos! Levante-se com o pé direito imediatamente’’. Assim, levantou-se indo caminhando a passos tontos em direção ao banheiro. Fora com a mão ao interruptor, ligou a luz, e seus olhos recebeu um choque luminoso profundo. Deu alguns passos curtos até o lavatório, ligou a torneira ajustando a água para que ficasse morna, juntou as mãos em forma de cuia e banhou o seu rosto, confortando sua alma. Olhou para o espelho, e olho a olho se confrontaram numa vermelhidão sangrenta, ‘’Mas um dia!’’, exclamou para si mesmo. Rapidamente fora até a cozinha, agora com mais energia, e colocará a água do café na chaleira para esquentar, ligou a máquina de moer grãos e foi à sala vestir-se com as roupas do trabalho. Despiu-se das roupas de dormir jogando-as de qualquer forma no sofá, restando no corpo apenas a cueca. Vestiu a calça, apertou o sinto, colocou a camisa, e por último uma toca para cobrir sua longa cabeleira de tranças naturais. Ao término dessa empreitada, a chaleira começou a apitar. Regressara a cozinha, pegara uma xícara e uma colherzinha, e fora a máquina de moer grãos. Colocou duas colheres de café colombiano que comprara na feira de Ramilah, em uma loja de tempero dos árabes, e pegando a chaleira que se encontrava apitando no fogão, despejou lentamente a água fervendo sobre o café moído que se encontrava deitado na xicara, em que prazerosamente inalava o vapor do café que subia envolvendo o seu rosto. Somente naquele momento de pura nostalgia, em que se entregava aquela sensação prazerosamente odorífica, que a angustia da sua correria matinal terminava. Após aqueles segundos de êxtase profundo, voltava a realidade, jogando três folhas secas de sálvia na xícara, misturando com a colherzinha o seu café. Assim, colocou o seu relógio digital waterproof no pulso, e lhe restava apenas trinta minutos para que a vã buzinasse a porta de sua casa para o levar ao seu ofício. Foi ao seu quarto, retirou o seu smartphone do carregador vistoriando para desligar o WI-FI, o Bluetooth e GPS. Fez um Task Killer em um aplicativo de segurança, para maximizar o rendimento da bateria, e o colocou no bolso. Retirou também rapidamente o carregador, enrolando o cabo no adaptador da tomada, e o colocou em um dos bolsos laterais de sua calça de trabalho. Deu um beijo rápido em sua amada esposa que se encontrava dormindo na cama, onde ela sussurrou sonolenta desejando-lhe um bom dia, e dizendo que o amava muito, e que também havia um delicioso bolo no forninho. Fora também a barriga dela e deu outro beijo, pois, esta, se encontrava gravida de cinco meses. Saiu rapidamente onde pegou o seu sapato de trabalho com suas meias no corredor, indo de imediato ao quarto das crianças. Foi a cama de sua filhinha de três anos e meio, deu-lhe um beijo desejando um bom dia, e depois a cama do seu filho de seis anos, que ao lhe dar um beijo, acordou de súbito, dizendo: “Papai eu te amo, fica aqui comigo”. Então, ele lhe disse em resposta: “Tenho que ir trabalhar meu príncipe, mas quando chegar o Papai brinca com você de pirata, Ok! Tenha um bom dia na escolinha”. Rapidamente saíra do quarto das crianças, e foi até a cozinha com uma das mãos segurando os seus sapatos e meias. Com a outra mão pegou a sua xícara de café, e foi até o lado de fora na varanda da sua casa, em que jogou os sapatos e meias no chão, e assentou a xícara numa pequena mesa. Regressa para dentro da casa, olha para o relógio em seu pulso, e apenas lhe restava mais quinze minutos. Fora até o forno e retirou apressado a forma com o bolo de Pereg e chocolate amargo, com cobertura de calda de chocolate branco, que sua esposa lhe fizera na noite anterior. Pegou a faca cortou duas fartas medias fatias, colocou em um pires, pôs uma colherzinha, devolveu a forma com o bolo para o forno, e correu para a varanda. Assentou o pires na mesinha, e apressadamente como de costume colocou suas meias e sapatos, em quanto dava goladas e colheradas no seu café e bolo. Depois de se calçar, enquanto ainda engolia e mastigava, lembrou-se que se esquecerá de molhar as plantas a noite. E olhando para o relógio, viu que apenas lhe restava dois minutos, até o pontual motorista chegar a Rua Rashi 8, no bairro de Oshiot, na cidade de Rehovot. Levantou-se sem pestanejar, pegou o regador, e enchendo de água às pressas molhava as suas plantinhas rezando para que Ohad se atrasasse pelo menos cinco minutos. E assim se deu, quando recebeu uma mensagem de Ohad pelo WhatsApp que iria se atrasar uns dez minutos, devido o caminhão do lixo estar retirando algumas podas de árvore no Tzomet (giratória), que ligava a rua Ya’akobi a Avenida Hertzl. Aliviado, molhara suas plantinhas, terminara seu café, e fizera sua oração meditativa para boa conduta do seu dia de Yom Sheni (segunda-feira) e jornada de trabalho no Parque de Kfar Saba. E este ciclo de bem e mal se repetia de Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira).
  • Deixem-no gritar

                E tiraram o Pequeno Jornaleiro lá da Sete de Setembro. Soube por causa da coluna do Ancelmo Gois, mas, ocupado com outras coisas, acabei só passando por lá um punhado de semanas depois. Precisava ver de perto a situação. É minha escultura favorita do centro do Rio, afinal.
                  De fato, foi retirada. Onde antes assentava-se a escultura do meninote de chapéu de abas largas agora ergue-se uma estação para o VLT- o “Veículo Lerdo sobre Trilhos” do qual o nosso burgo-mestre tanto conta vantagem.
                 Recalcitrante que sou, admito que até agora não fui convencido de qualquer legado trazido por aquela lesma high-tech além do fato de suas estações deixarem o centro da cidade um pouco mais feio.
               Indagado sobre o porvir do Pequeno Jornaleiro, nosso alcaide, ao contrário de quando está apregoando os supostos feitos e méritos de sua administração, foi bastante sucinto. “Depois da Obra voltamos com ela”. Já era de se esperar.
                Tenho minhas dúvidas. Não me surpreenderia se o Pequeno Jornaleiro terminasse fazendo companhia à escultura do Ives Machado, aquela mesma que ficava na esquina da rua Uruguaiana com a Carioca, largados ambos em algum canto da Gerência de Conservação, lá na Praça XI.
              Quando foi inaugurada, lá pelos idos da década de 30, conta-se que Orestes Barbosa, compositor, cronista & mais um pouco, comparou o menino à rua, ao seu aplauso sincero e sua vaia justa. Nos tempos que vem se desenhando, onde só é visto como justo o comentário que vem tingido de conservadorismo, o grito silencioso do menino pobre vendedor de jornais fará falta.
                Torço para que a campanha que quer trazer a escultura do Pequeno Jornaleiro a seu lugar de origem, no cruzamento da Avenida Rio Branco com à rua do Ouvidor, tenha sucesso. Não retornou o busto do Barão da Taquara a seu devido lugar na Praça Seca? Quem sabe, então? E torço também que, desta vez, o menino fique por lá definitivamente. Deixem-no gritar, mesmo que poucos o escutem.
     
  • Depois da merda no ventilador [conto]

    [Dona Gertrudes - 53 anos - Dona de Casa]
    Quando eu virei para a segunda rampa eu vi os dois lá em cima, se esfregando encostados no canto da grade. Mas ainda não sabia o que eles estavam fazendo. Foi quando fui chegando perto e escutando o barulho que percebi o que estava acontecendo. Foi horrível. Eu não sabia o que fazer e comecei a gritar. Aí todo mundo começou a chegar e um Senhor muito simpático e elegante veio me confortar com uma água e perguntando se estava tudo bem, o que tinha acontecido, essas coisas. Ele foi muito reconfortante.
    [Bernardo Pereira - 36 anos - Pedreiro]
    Lá de baixo eu já tinha ganhado o que estava rolando com os dois lá em cima. Os dois tavam se pegando forte. A tia lá começou a gritar não sei muito bem porque e um pessoal começou a correr do ponto para cima da passarela. Eu fiquei na minha. Tava na rampa do outro lado e voltei lá para baixo para esperar a coisa esfriar. Lá em cima começou o empurra empurra e a gritaria. A galera tava com sangue nos olhos. Aí começou o falatório, a polícia chegou e aí que não cheguei perto mesmo. Tava na cara que ia terminar em confusão.
    [Renato Seixas - 23 anos - Auxiliar de produção]
    Eu não estava entendendo o que estava acontecendo, pra falar a verdade eu nem queria me meter em nada. A confusão estava rolando lá em cima na passarela e eu fiquei aqui no ponto de ônibus só olhando. Então um cara saiu correndo do meio da confusão e veio na direção do ponto. Os dois policiais saíram na caça. O povo veio atrás deles gritando “estuprador, estuprador”. Aí quando ele passou na minha frente eu enfiei o pé nele e ele caiu. Sei lá, achei que era o certo a fazer. Ele estava correndo da polícia com todo mundo gritando estuprador. Daí todo mundo caiu em cima dele e eu me afastei.
    [Fátima Abrilina - 39 anos - Professora]
    Acho que ninguém sabia o que estava acontecendo. Eu fiquei aqui em baixo no ponto o tempo todo. Primeiro começou uma agitação lá em cima na passarela. Dois policiais que estavam com mais um numa viatura aqui em baixo foram para lá ver. Alguém passou por aqui e disse alguma coisa sobre estupro. Aí um homem desceu a passarela correndo e caiu quase na minha frente. Aí eu saí de perto. Olha, nesse mundo de hoje o melhor que a gente pode fazer é não entrar em confusão. Sempre falo isso pros meus alunos: trabalhem e não se metam com confusão.
    [Léo Kleim - 25 anos - Estudante]
    Acho que fui um dos primeiros a chegar lá. Eu tava no meio da passarela e nem tinha percebido o que estava acontecendo. Escutei um grito e quando vi o cara fechando a braguilha todo desajeitado entendi tudo e não tive dúvida, parti para cima dele. Se a grade não fosse tão alta tinha jogado ele lá para baixo. Daí começou a chegar gente e soltei o infeliz porque tavam batendo em mim sem querer tentando acertar ele. O cretino aproveitou para correr, mas a gente pegou ele no ponto. Aí veio um monte de viatura e levaram o marginal.
    [Seu Agenor - 60 anos - Aposentado]
    Para falar a verdade não vi nada. Eu vinha subindo a primeira rampa da passarela tão pensando na vida que nem percebi o tumulto. Quando virei para segunda rampa vi uma Senhora chorando perto de toda confusão e fui tirar ela de lá. Ela estava chocada e tremia. Falava umas coisas sem sentido, não dava para entender nada. Até agora não sei direito o que aconteceu. Acalmei um pouco ela e trouxe ela aqui para baixo, longe da confusão. A gente ficou conversando e nem vimos como tudo acabou. O nome dela era Gertrudes, se não me engano. Peguei o telefone dela também.
    [Mariana Carla - 29 anos - Publicitária]
    Minha nossa, foi uma selvageria. Eu já tinha passado pelos dois se pegando lá, mas nem tinha ligado, me pareceu normal. Então uma mulher começou a gritar e um monte de gente correu na direção deles. Um cara passou por mim como se fosse um animal. Antes que começassem a bater na menina também eu tirei ela do meio da confusão. Coitada. Ela gritava desesperada para pararem com aquilo, mas ninguém escutava. Então o menino saiu correndo do meio da briga e ela foi correndo atrás. Tentei segurar ela, mas não consegui. Achei que já tinha feito tudo que podia e me afastei.
    [Marília Estorme - 19 anos - Estudante]
    O que aconteceu aqui foi um absurdo. Eu vi tudo. Os dois só estavam dando uns pegas na passarela quando um cara partiu para cima deles do nada. Aí começou uma gritaria e toda confusão. Não sei da onde tiraram essa história de estupro. Eu já vi os dois na faculdade, eles estudam lá também. É revoltante.
    [Carlos Betolho - 41 anos - Policial]
    Nós estávamos realizando a vigia da passarela quando observamos uma aglomeração se formar no topo da segunda rampa. Eu e o cabo Martins subimos para averiguar o que estava provocando a desinteligência. Cinco cidadãos estavam contendo o elemento, que quando percebeu nossa aproximação se desvencilhou dos homens e tentou se evadir do local correndo. Iniciamos uma perseguição e capturamos o elemento no ponto de ônibus do outro lado da Avenida com a ajuda dos cidadãos que estavam no ponto. Ele reagiu se debatendo no momento de ser algemado, e tivemos de usar de força física para imobilizá-lo e colocá-lo na viatura.
    [Marcela Camorga - 21 anos - Secretária]
    Não vi nada, eu estava sentada no ponto ouvindo música no fone de ouvido e mexendo no celular. De repente uma mulher caiu em cima de mim e quebrou meu telefone. Quem vai pagar isso? O ônibus passou e não parou por causa da confusão. A gente não pode mais nem esperar o ônibus em paz. É sempre o povo que paga pelos problemas dos outros. O que eu tenho haver com isso? Tem que colocar esse monte de animais na cadeia e esquecer lá.
  • Desabafos de uma Ana

    Tem um momento da vida que você tem que parar para refleti sobre tudo o que você fez,que quer fazer é que está fazendo. Esse momento tem que acontecer não apenas uma vez,mas várias. Até hoje tento realizar as coisas com racionalidade, mas será que é o suficiente? Mágoas do passado não são simplesmente apagadas de uma hora para outra,ou até mesmo perdoadas,ainda mais quando são pessoas que você menos quer se magoa. Pedir perdão de um dia para o outro não resolve nada, inventar mentiras também não, e aquele tempo todo que passou sem falar um palavra se quer comigo? E aqueles momentos que mais precisei ou mais felizes da minha vida que foi perdido por um mero orgulho? Hoje percebo que toda mágoa que quardava não valia a pena, não existe volta para o que não quer ser concertado,não existe perdão para quem não admite o erro,não existe aproximação para quem não tenta. E pensando nesse momento,todo o tempo perdido valeu a pena?Sim,porque pude percebe a cada segundo quem realmente quis estar comigo resolvia o problema na hora,não deixava o orgulho vencer e reconhecia que estava errado. E se era eu a errada,me mostrava isso,não apenas sumia. Então reveja o seu julgamento de quem está certo ou errado,pois se despender de mim,vai continuar sendo apenas mais uma pessoa que passou pela minha vida.
  • Devaneios em Balistraat

    Talvez ela seja como aquela rua
    Para muitos só uma rua
    Mas quando me peguei olhando
    Já estava me encantando com cada detalhe
    A folha caindo
    A bicicleta passando
    O poste com sua luz iluminando
    A ponte com o rio cruzando
    Meu hotel se aproximando
    O velho pub com o dono reclamando
    Tantos e tantos "ando"s
    E eu me apaixonando
    Por aquela rua ali
    Pra muitos, uma rua qualquer por aqui
    Para mim, uma rua que sempre me volto
    Cada novo dia um novo detalhe
    Talvez nunca pare
    De enamorar aquela rua ali.
  • Ditos antigos... para porta

    Quando eu era pequeno fui dormir certa vez e minha mãe ralhou comigo.
    -Menino coloca estes pés pra outro canto!
    Perguntei-me porque, olhei que estava com os pés virados para porta.
    -Porque devo mudar minha posição, mãe? Quê que tem de mais?
    -Faça o que estou mandando!
    Eu mudei de posição, virei-me com os pés desta vez sem apontar para porta.
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    No dia seguinte quis saber, mas minha mãe não diria estava brigona hoje e perguntei para minha vó.
    -Vó porque não se pode dormir com os pés virados pra porta?
    -Isto é dos meus tempos mesmo, é que defuntos quem são colocados nesta posição.
    Assustei-me e a ouvi concluir:
    -Trás agouro!

    Dês de então eu sigo esta lenda e não durmo com os pés virados para porta de jeito algum.
    Não tem quem me faça mais fazer isto.
    Não quero trazer vaticínio.
  • Ditos antigos... Sal

    vitao alimentos integrais alimentacao saudavel sal marinho sal refinado diferencas
    Estava eu e mãe num dia a jogar sal ao redor da casa, mas não para espantar demônios e sim por causas de caramujos, em época de chuva como agora eles aparecem de montão.
    Lá estava eu jogando sal e joguei para trás por sobre o ombro e minha mãe gritou comigo:
    -Não faça isto! Um caramujo espinoteou assustado e eu perguntei:
    Por que não devo jogar sal por sobre os ombros?
    -Faz mal a família! Mãe respondeu sem dar detalhes.
    -Esta certa, não jogo mais.
    Só numa conversa com minha vó é que eu realmente entendi:
    -Vó porque não se deve jogar sal para trás por sobre os ombros?
    -Íh, isto é do meu tempo mesmo. Iniciou e eu ouvia atento ela continuar: - É que se se joga sal como você disse esta se desejando mal sem querer a um ente querido!
    -Já não faço mais! Eu disse e a ouvir encerrar sobre risos:
    -É de muito tempo, tempos antigos, ditos antigos, bons tempos. Onde ainda se tinha medo de lobisomens.5709b4a2d12191.73997234werewolfeye
    Meu pai tinha medo de lobisomens e me contou que uma vez para andar na rua se enrolou numa linha com varias latas pendurada nela, para fazer barulho, com isto espantar lobisomens e saiu correndo ao anoitecer para casa de um amigo e voltou de lá da mesma forma. No dia seguinte os boatos eram que o lobisomem tinha agitado garrafas pela rua para assustar a população.
    Eu não acredito em lobisomens, mas não mais jogo sal por sobre o ombro, minha mãe aprendeu com minha vó e sabe das coisas.
  • E se…..?

    Maria poderia ter saído de casa com 18 anos para fazer faculdade de direito no interior. Lá conheceria José, João e Gabriela. Juntos passariam por emoções e decepções que iriam marcar suas vidas. Descobririam tudo que se poderia saber sobre sexo, drogas e Rock’n Roll. Graças a uma empatia explicável apenas pelos fatos de estarem na mesma classe, no mesmo ano e com a mesma idade, montariam uma República, onde todos aprenderiam como conviver com as diferenças alheias, além de aprimorarem suas habilidades em lavar louça, cozinhar, limpar banheiro. Ela se apaixonaria por João, com quem namoraria por algum tempo antes de descobrir que, na verdade, João vinha de uma família tradicional que o havia convencido que lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. Depois de muito chorar pela descoberta de um cretino João se aventuraria com Gabriela na busca de novos sabores.
    Ainda no primeiro ano Maria entraria para o grupo de estudos aristotélicos e o Coletivo de Advogados Culturais. Descobriria anos mais tarde que o professor que orientava as discussões no grupo poderia ser seu orientador no mestrado. Também entenderia que as leis não são feitas para proteger as pessoas, e sim para proteger o sistema delas. Através do Coletivo teve contato com Mateus, um escritor de contos que estaria processando uma emissora de televisão que tinha usado um texto seu como argumento para uma novela. Mais uma vez se veria enterrada no poço sem fundo do amor. Seu novo namorado faria Maria conhecer os prazeres de Ovídio, passaria horas ouvindo o Bolero de Ravel com ele e finalmente entenderia que o sentido da arte abstrata é uma emoção que esta além dos signos. Frequentaria restaurantes e conheceria artistas que jamais imaginou ter algum contato. Se sentiria tão vislumbrada pela arte, e o estilo de vida que ela proporciona, que até pensaria em largar a faculdade de direito. Primeiro para ser artista plástica, depois apostaria na carreira de atriz, e no fim optaria pela independência que havia conquistado através da bolsa na faculdade às incertezas da vida de artista. Foi mais ou menos na mesma época que percebeu que o mundo em que Mateus vivia jamais seria o dela, e novamente se sentiria sozinha na busca de um sentido para a vida.
    No fim do terceiro ano decidiria que iria ser juíza no Superior Tribunal de Justiça. Deixaria de morar em Repúblicas para ter seu próprio espaço, onde organizaria melhor as coisas e poderia aproveitar mais o tempo para estudar. Por obrigatoriedade acadêmica começaria a fazer estágio numa delegacia de polícia. Lá lutaria, bravo e inutilmente, contra um sistema que marginaliza cidadãos segundo sua origem, profissão, entre outros absurdos. Maria defenderia vagabundos, traficantes e pais de família contra as injustiças promovidas pela justiça. Seria quando se veria pela segunda vez em crise com a profissão de advogada. Cancelaria o projeto de ser juíza e o mestrado para, após o fim da faculdade, ter um ano sabático mochilando pela América do Sul. Faria o caminho da morte pelas estradas e trens da Bolívia até Machu Picchu, procuraria as tartarugas gigantes de Galápagos, veria a Cordilheira dos Andes como uma paisagem que jamais imaginou fora do cinema, chegaria a Patagônia com um fascinante brilho no olhar e cheia de confiança para recomeçar tudo como psicóloga. Ia querer entender as pessoas e realmente fazer a diferença em suas vidas. Continuaria a viver de bolsa e faria outra faculdade. Tomaria mais cuidados com as amizades e iria morar sozinha. Teria um caso com Ederson, do mestrado de letras, e sofreria de paixão por Valéria, uma garota mais nova de sua classe que ainda acreditava no poliamor.
    Focada como nunca em atuar como psicóloga em zonas de guerra aprenderia inglês e francês para poder fazer parte da Cruz Vermelha. Mudaria de ideia antes do fim do segundo ano ao embarcar para um longínquo e quase perdido vilarejo no meio da Amazônia com o Projeto Rondom. Pensaria que primeiro era preciso mudar ela mesma para depois mudar o mundo. Para isso Maria precisaria se conhecer melhor. Entraria num grupo de estudos foucaultiano e começaria a fazer Yoga. O resultado natural seria uma aproximação com Ederson, que era praticante de técnicas de meditação, e o controle do sofrimento com Valéria. Cansada de viver de bolsa se lembraria do seu diploma, tiraria a carteirinha da Ordem dos Advogados do Brasil e começaria a advogar. No começo seriam apenas os casos designados pela Ordem como defensora pública, mas seu amplo conhecimento das leis, e seu profundo saber aristotélico da retórica, fariam ela se destacar entre seus pares facilmente. Antes do fim da segunda faculdade já estaria envolta em diversas propostas para se juntar aos mais prestigiados escritórios da cidade.
    Por fim, o curso de psicologia lhe daria o equilíbrio necessário para lidar com as piores situações possíveis. Ficaria famosa por defender um pai e uma mãe do assassinato dos filhos por afogamento. Conseguiria uma pena branda num hospital psiquiátrico para os dois, alegando que a crescente pressão exercida pela sociedade para que eles fossem uma família de comercial de margarina havia os levados a um estado de surto incontrolável. Quando Ederson terminasse o doutorado os dois decidiriam morar juntos. No começo ele iria morar na casa dela, que teria muito mais estrutura. Mas isso seria por pouco tempo. Os dois se dariam tão bem que rapidamente comprariam um apartamento no centro da cidade, para ela ficar mais perto do escritório e do fórum. Planejariam o primeiro filho, que se chamaria Arnaldo, mas a segunda, Camila, viria por um descuido do amor. Se mudariam para uma casa com mais espaço e um pouco de grama para as crianças. Viveriam bem até a primeira crise financeira da família, que seria quando o escritório onde ela era sócia perderia uma série de causas trabalhistas e quase iria a falência, ao mesmo tempo que ele seria demitido da faculdade onde dava aulas por discordar abertamente do governo. Ele arrumaria aulas em outro lugar, e ela passaria num concurso público de promotora, e depois de uns dois anos patinando a vida seguiria no rumo do e eles foram felizes para sempre…….ou não. Mas Maria se casou com Manuel, para não sair da casa dos pais brigada, e foi trabalhar como caixa de supermercado.
  • Elucidações elucidativas sobre os elucidados [conto]

    A menor possibilidade das coisas darem certo ainda não é o suficiente para deslindar a necessidade de as coisas darem certo. Se as coisas não derem certo para Renata isso poderia significar que não vão dar certo para ninguém. Não porque as coisas dela sintetizam todo os sentimento do universo ou sua solução culminaria na confirmação ou negação da hipótese de Riemann. Ninguém nunca conseguiu solucionar esta fabulosa combinação de números e letras romanas e gregas, cheio de linhas e sinais gráficos, muito bem matutada por Bernhard Riemann, um alemão que morreu na Itália e viveu no período da nababesca era Vitoriana. Renata certamente não seria quem desvendaria este pomposo enigma, visto que ela era uma notória lunática, e não dominava as artes numeroletradas. Ela nunca poupou nenhum tipo de tempo, passado, presente ou futuro, para fazer as coisas darem certo, mas isso não garante nada, se é que alguma coisa pode ser garantida nesta época de carros que não voam e exceções generalizadas. Falo isso por causa das coisas que Renata falava para a lua antes de dormir. Não que ela falava com a lua como um galo que fala para o mundo que o sol chegou ao mesmo tempo que avisa as estrelas para se esconderem, era mais parecido com um canário que canta todo dia de manhã na esperança de encontrar outros canários que também queiram cantar.
    Para as coisas darem certo para Renata ela precisava que uma série de acontecimentos aleatórios se alinhassem numa sequência imponderável. É uma coisa parecida com o efeito borboleta, mas sem tantas cores e com um degradê mais opaco. É esta variação de cor limitada pelo espectro retro dimensional que determinará a completa ocasionalidade dos eventos. Sendo assim, o fundamentalismo paraláxico da situação determina que as coisas darem certo para Renata é elemento decretório para que as coisas também deem certo para todos os seres vivos, pensantes e não pensantes, ou mortos (aí tanto faz como e porque). Se Deus existe, só ele sabe se as coisas vão dar certo para Renata, mas se ele não existir, aí ninguém sabe. Neste caso, de ninguém saber, quem descobrir pode estar em grande risco de ser considerado sabedor demais. Assim como Galileu ou Tesla. Para eles as coisas não deram certo, o que impactou o mundo inteiro, que teve que viver mais tempo que o necessário achando que a terra era quadrada e sem iluminação para cidadãos noctâmbulos. Não se pode dizer aqui que Renata não era cumpridora de seus deveres e merecedora de todas as graças de Nossa Senhora da Bicicletinha (o que não significa que eram de graça, Renata deprecava fervorosamente na igreja ou fora dela, além de sempre contribuir na cestinha), porque ela era.
    Traçando um paralelo entre a curva ascendente da transversalidade do cosmo, e os instintos reprimidos de um boi que pasta durante semanas antes de virar hambúrguer, um alucinado poderia concluir que os coisas dariam certo para Renata se ela fosse para a Conchinchina. Supondo, para todos os efeitos laterais e colaterais, que a Conchinchina fizesse fronteira com o Amapá, e alguns metros separassem a prosperidade da completa precariedade do ser (alguma coisa, humano ou animal), e que as coisas dessem certo com Renata lá, o sistema de irrigação dos circuitos que ligam os fatos entrariam em processo de estiagem aqui. Em todo caso, parece lógico afirmar que as inexoráveis relações de espaço-tempo seriam afetadas de formas reparáveis somente com a invenção de novas máquinas ou uso de tecnologia cinematográfica. Ambas as soluções estão além dos pressupostos básicos democráticos estabelecidos pelo senso comum.
    É de suma importância lembrar dos estudos conduzidos pela própria Renata sobre a influência da lua nos sorteios dos números do bingo na igreja. Como lunática formada e diplomada numa das grandes universidades da vida, Renata tem todos as credenciais necessárias para dizer o que quiser ou entrar em qualquer lugar, desde que a vontade e os lugares existam. Dito isso, suas pesquisas provam categoricamente que pedras lunares que cantam aqui não cantam lá, e vice-versa. Então não adianta teimar que água mole não fura pedra dura. No sapato ou no caminho, no bingo ou na lua, a pedra é sempre algo que vai bater. Que seja pós-verdade, pós-mentira ou pós-feijoada, as coisas tem que dar certo para Renata nem que seja por sorteio, fórmula mais conhecida por selecionar a meritocracia.
    No fim os macacos nunca morderam o Robin, e o Batman jamais conseguiria morder uma bala como John Wayne. Quando uma borboleta bate as asas ela espalha por toda atmosfera uma grande quantidade de pó de pirlimpimpim, e este pode ser o segredo do milagre. Tudo corrobora para que não acontecimentos continuem a não acontecer. Existem mais de 80 grupos étnicos no Sudão do Sul, e todas essas formidáveis culturas fazem um esforço descomunal, há séculos, para se manterem culturando, independente da vontade do sapo de se alimentar unicamente de mosquitos. O que se pode dizer, ainda que se incorra no terrível erro de se estar errado, considerando aqui que a dicotomia certo e errado corresponde às duas únicas possibilidades irracionalmente viáveis de definição a cerca da moral, é que não se pode fazer uma omelete sem se quebrar os ovos. Não sendo a omelete uma substância essencial para a preservação da espécie, fauna e flora, ao contrário do ovo, ao qual a vida está uniformemente envolta, se conclui que para as coisas darem certo para Renata basta não fazer omelete.
  • Experiência Divina (Meu filho Lavi)

    Chamo minha experiência de pai, a experiência de Deus. Pude perceber muitas coisas da vida e de mim mesmo, vendo o crescimento e desenvolvimento do meu filhinho Lavi. No início logo quando ele nasceu, parecia para mim que ele ainda não estava aqui, quando digo ‘aqui’ falo desce mundo, acho que estava em parte… Não existia muita expressão da parte dele, além de muito sofrimento, pois pude ver que nesses primeiros dias de vida tudo é dor. E como dói! O maior problema era a coisa com gases, a experiência de ingerir algo pela primeira vez, o leite materno causava uma revolução interna muito grande, às vezes ele chorava estridentemente por horas, e as noites eram mais dolorosas para todos. Alguns diziam que para melhorar dos problemas de gases a mãe não deve comer isso ou aquilo, eu particularmente não acreditava em nada disso, acho que era o processo da vida acontecendo, até o pequenino se acostumar em ingerir alimentos e aprender a eliminar os gases. Pronto! Daí passou esse processo, e pude vê-lo descobrindo as suas mãozinhas, era mágico para ele abrir e fechar as mãos, acho que nesse momento o seu espírito estava aprendendo a se comunicar com o seu corpo, assim, pude perceber que tudo que somos no início de nossas vidas são os nossos olhos e nossas bocas, acho que é o primeiro contato com a vida material. Ele olhava suas mãos constantemente e se maravilhava, virava de um lado a outro, mas não tinha coordenação e nem conseguia segurar um objeto sequer. Quando ele aprendeu a utilizar essas duas ferramentas poderosas tudo se transformou, daí pegava tudo e levava para boca. Queria sentir tudo, e a maneira de sentir verdadeiramente é provar com o paladar, como se tudo fosse um alimento, e verdadeiramente percebi que de certa forma tudo é alimento. Incrível Isso! Como podia aprender da vida, apenas observando o desenvolvimento da própria vida… As vezes ele sorria, mais seu sorriso era meio que inconsciente, pois sorria quando começava a ter sono e dormia a maior parte do tempo, acho que era muito cansativo aqui, preferia estar no mundo imaterial… Quando queria alguma coisa chorava, nisso aprendi que o desejo é uma forma de sofrimento… Mas realmente os problemas começaram quando ele aprendeu a engatinhar, daí pude ver o quanto o desejo pelo que é perigoso e arriscado é o natural do ser humano, pois o menino só se interessava em ir de encontro ao que colocasse sua vida em risco, como: Colocar o dedo nos buracos da eletricidade… Engatinhar em direção as escadas e precipícios (no caso os da cama) e mexer em coisas perigosas. Vi que quando crescemos não nos tornamos muito diferentes, o perigo nos atrai de uma forma que nem percebemos, em nossas escolhas e em nosso querer… Daí pude entender que o nosso Pai-Mãe Amado muitas vezes utiliza da ignorância de muitas coisas, para proteger os seus filhos amados das paixões que possam empregar as suas almas. E via como Lavi ficava irritado, esperneava e chorava, quando eu o tirava de uma situação perigosa, como: tirar uma faca ou uma moeda de sua mão, e coisas desses tipos que causam riscos de vida aos bebês. Daí também eu compreendi quando eu ficava triste e me irritava quando eu perdia algo que achava ser bom na minha vida, e vi que o meu Pai-Mãe Amado estava me protegendo de algum dano qualquer e agradeci a Ele de coração por isso, e, ao meu filho Lavi também por me revelar esse segredo… Quando Deus tira algo de seu alcance, Ele não está punindo-o, mas apenas abrindo suas mãos para receber algo melhor… Uma coisa muito interessante que eu aprendi com Lavi, foi o verdadeiro significado da palavra paciência, e vi que paciência é o mesmo que proteção… Pois todas as vezes que eu fazia comida para ele, colocava-o na cadeirinha de comer, e ele no início odiava e gritava, e chorava… Ele não entendia o porquê de ficar preso nessa cadeira com cintos de segurança e tudo. E num desses momentos que eu preparava a comida e ele chorava, me veio um insight desses que eu sempre tive com Lavi, ele não sabia que eu estava fazendo aquilo para o bem dele, ele só podia compreender o momento daquela prisão entediante, mas depois que eu chegava com a deliciosa comida, ele se alegrava. E vi claramente que todas as vezes que me sentia preso a uma situação desconfortável, e que eu gritava e esperneava… Era que o meu Pai-Mãe Amado estava preparando algo de especial para mim, e que me colocou nessa situação desconfortante para eu estar protegido de todo mal, pois enquanto ele preparava esse algo em especial, ele não podia cuidar de mim, por isso ele me colocava numa “prisão”, daí eis que compreendi a paciência de todas as coisas. Atualmente eu educo o meu filho com muitos NÃO! Lavieeeeeeê NÃOOOOOOO! (לביא לא). E agora estou refletindo nisso seriamente. Depois que ele começou a andar com quase 10 meses, tudo ficou mais arriscado… As ferramentas corporais que ele descobriu só o levam para sua morte… Daí eu pude perceber que nós seres-humanos criamos muitas ferramentas, e que atualmente muitas delas nos levam à morte, e vi o porquê que depois de milhares de anos, só agora (2012) depois de uns 60 anos muitas ferramentas foram nos dadas, e, as coisas que antigamente eram consideradas como proibidas, agora nos são lícitas. Deus parou de nos dizer NÃO! Assim como no momento certo vou para de dizer NÃO, ao meu filhinho… Saber usar as pernas e as mãos é bom, mas quando elas nos levam a perdição e a morte é mal… Com muito cuidado deixo o meu filho experimentar as coisas, só nos momentos drásticos, tiro de suas mãos ou tiro ele da direção errada em que seus pés o levam, e ele chora e esperneia… E pude compreender que a vontade de nosso Pai-Mãe Amado nunca irá nos levar aonde a sua Graça não irá nos proteger… Em algum momento eu pensei que Deus nos abandonou, mas acho que nesses tempos atuais em que profetas e enviados se ocultam, o nosso Pai-Mãe Amado está nos deixando experimentar por nós mesmos os efeitos de nossas escolhas, pois tudo já foi dito e revelado… Nós já crescemos! Agora como parte de nosso aprendizado só nos resta escolher o que fazer com todas essas ferramentas. Eis aí o nosso livre arbítrio. Deixo no final uma pequena reflexão (ciranda) que tive, e compus, antes de ser pai… Mas que julgo ser verdadeira e de grande valor. Benção do mais Alto dos altos a todos!
     
    Espírito inocente, ágil, valente
    São poucas as pessoas que os veem como gente
    Tudo é descoberta e não existe pressa
    Das mais simples coisas fazem uma festa
    Nas suas alegrias descobrem fantasias
    Brincadeiras e emoções preenchem os seus dias
    Na imaginação criam um novo mundo
    Ali não existe o “não”, nem tão pouco o absurdo
    Ser pequenino!
    Mas, pequeno só no tamanho
    O seu espírito é maior que o oceano
    Ser insignificante!
    Esquecido pela sociedade
    Só dão o devido valor quando aprendem a ter maldades
    São considerados fracos
    Porque pequeno é o seu tamanho
    Mas, fracos e pequeninos
    Se tornam com o passar dos anos
  • Experiência n°67 [conto]

    - Introdução: É feriado.
    - Objetivo: Ser feliz.
    - Justificativa: Nenhuma.
    - Metodologia: Tentativa e erro.
    Relatório final
    [6:15] - Início dos procedimentos
    250ml da substância 1 administrada na forma líquida.
    2g da substância 2 administrada de forma fumófita.
    [7:15] - Leitura dos parâmetros
    Temperatura: 37,5°C
    Pulso: 95 bpm
    Pressão: 13\9
    Respiração regular.
    Foco se expandindo.
    [8:15] - Sintomas físicos
    Ondas de calafrios.
    Aumento exponencial da atividade das glândulas sudoríparas.
    Dilatação máxima da pupila.
    [9:15] - Sintomas quânticos
    Sentimento abrupto de bem estar e euforia.
    Risos compulsivos.
    Referências inconscientes confusas.
    [10:15] - Sintomas psíquicos
    Oscilação de humor.
    Longas pausas para reflexão encarando o infinito com a boca aberta.
    Completa desorientação temporal.
    [11:15] - Registro de alucinações
    Elefantes voando.
    Conversa com Deus.
    Criação de asas.
    [12:15] - Manutenção dos procedimentos I
    1 pílula da substância 3, diluído na substância 4, administrado via oral.
    2g da substância 2 administrada de forma fumófita.
    [13:15] - Atualização dos parâmetros
    Temperatura: 38,5°C
    Pulso: 119 bpm
    Pressão: 15\11
    Respiração regular.
    Foco expandido e infinito.
    [14:15] - Sintomas físicos
    Descontrole parcial dos movimentos.
    Atividade das glândulas sudoríparas em evolução constante.
    Olha distópico.
    [15:15] - Sintomas quânticos
    Choro compulsivo.
    Captação de energia extra-sensorial através da emissão de grunhidos.
    Dispersão de raios gama e manipulação da luz.
    [16:15] - Sintomas psíquicos
    Comunicação com o mundo via espasmos ritmados em Lá.
    Criação de realidades paralelas e multiplicação de personalidades.
    Descolamento total da imaginação.
    [17:15] - Registro de alucinações
    Paredes derretendo.
    Chão afundando.
    Telhado voador.
    [18:15] - Manutenção dos procedimentos II
    1 comprimido da substância 5 administrado via sublingual.
    40ml da substância 4 administrada na forma líquida.
    2g da substância 2 administrada de forma fumófita.
    [19:15] - Atualização dos parâmetros
    Temperatura: 38,5°C (estável)
    Pulso: 122 bpm
    Pressão: 9\7
    Respiração lenta.
    Total perda de foco.
    [20:15] - Sintomas físicos
    Tremedeiras constantes por todo corpo.
    Glândulas sudoríparas alucinadas.
    Relaxamento completo dos músculos e movimentos congelados.
    [21:15] - Sintomas quânticos
    Experimentação de sensações extra-corporais.
    Percepção interestelar da força das galáxias.
    Liberação intensa de calor via anal.
    [22:15] - Sintomas psíquicos
    Letargia paranóica delirativa.
    Concepção de ideias sem sentido combinado com movimentos aleatório dos membros.
    Sorriso estampado na cara.
    [23:15] - Registro de alucinações
    Não foi possível diferenciar as dimensões.
    [00:15] - Procedimento encerrado

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