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literatura marginal

  • (EN)FIM

    acabar-me-ei sozinho
    em um quarto
    barato,
    arrependido,
    sonhando com viagens
    jamais feitas,
    com amores jamais vividos
    e com sonhos jamais realizados
    encarando o teto
    e sentindo as paredes se 
    estreitarem na medida em
    que me lembro do ontem,
    com lágrimas nos olhos e dor
    no peito; angustiado e amargo,
    sem amigos,
    com pulmões exaustos
    pelos cigarros,
    e o coração como uma
    bomba desativada, sem ter 
    por quem explodir,
    acreditando cada vez menos
    na existência de Deus,
    e menos ainda no amor,
    embora tenha chegado perto
    algumas vezes-mas me enganando 
    dolorosamente e agora,com
    vinte e poucos anos porém
    exausto como quem viveu oitenta,
    olho para tudo mas
    não enxergo sentido algum em nada,
    cada vez mais certo de que
    não há vitória possível
    e que momentos felizes
    são, no geral, pequenas pausas
    que antecedem a melancolia.
    do outro lado da porta
    a morte força a entrada
    e desiste, mas amanhã ela
    retornará, e depois, e depois,
    incansavelmente,
    até que encontre a porta
    destrancada.
    é assim, que tudo
    acaba, afinal?
  • 10 coisas que você precisa saber sobre a Marcie [conto]

    1 - A Marcie é a mulher da minha vida.
    Desde a primeira vez que a vi soube disso. Nosso olhar se cruzou num dia mágico na praia e foi como ter uma visão da revelação. Seus cabelos morenos e longos brilhavam com o sol e ela vinha caminhando com leveza. Todo mundo olhava para ela passando, mas foi em mim que ela fixou o olhar e sorriu. Parecia que a gente se conhecia há anos. Ela tinha um sorriso apaixonante que dizia fomos feitos um para o outro. E a Marcie sempre soube disso.
    2 - A Marcie é bonita.
    Não é uma beleza vulgar, dessas carregadas de pó de arroz e batom vermelho bem ajustadas num vestido caro. Ela não precisa ser sexy. É uma beleza pura que vem de dentro. A Marcie é bela de um jeito diferente. Não tem nada haver com a simetria perfeita do seu rosto e do seu corpo macio e cheiroso. Ela emerge do fundo de sua alma e brilha nos seus olhos, se espalha com suas palavras.
    3 - A Marcie é elegante.
    Seu comportamento reflete todo os atributos de uma dama. Seu jeito simples de andar é encantador. A Marcie não precisa de jóias caras e chamativas para atrair toda atenção para si. Sua elegância está justamente em ser notada pela beleza natural. Está no vestido sempre abaixo do joelho ou na calça jeans alta. No seu cabelo liso sem penteados extravagantes.
    4 - A Marcie é inteligente.
    É incrível como ela sabe um pouco sobre quase tudo, e é sempre o pouco mais importante. Ela cursou arquitetura na faculdade. Todas as vezes que conversamos aprendo uma alguma coisa que não sabia, as vezes nem imaginava. Ela é bem informada, leu todos os clássicos da literatura e os melhores romances já escritos, e ainda assim sempre está lendo um livro novo. A Marcie não é desse tipo de sentar na sala e ficar vendo novelas.
    5 - A Marcie não reclama.
    Ela não é daquele tipo que sempre diz que poderia ser melhor ou que só vê as coisas do pior ângulo. Quando fala alguma coisa é sempre positiva. Ela sempre está disposta a ajudar com um bom conselho ou colocando a mão na massa mesmo. Não fica pensando em como poderia ser melhor ou no que está ruim. A Marcie não fica pedindo as coisas, ela vai lá e faz. Ela não é petulante, sabe escutar.
    6 - A Marcie é feliz.
    Seu semblante de paz espelha com exatidão o que é a felicidade. Ela está sempre tranquila e disposta. Não é aquela felicidade boba de quem ri de qualquer besteirinha. É uma coisa genuína de uma pessoa que está de bem com a vida, que sabe como ver o lado bom das coisas. A alegria parece uma coisa natural para Marcie. Ela nunca acorda de mau humor e esta sempre num astral contagiante.
    7 - A Marcie é boa cozinheira.
    Os antigos até poderiam dizer que ela me pegou pelo estômago. Antes de eu levantar ela já fez café e preparou o pão. Pão caseiro, ela diz que na padaria eles não peneiram a farinha, por isso nunca está macio. A Marcie nunca repete o prato no almoço e na janta, e é sempre um mais gostoso que o outro. Os doces são sensacionais, e sua especialidade é o bolo de chocolate. Ela diz que aprendeu suas receitas com a sua avó, e o principal ingrediente é o amor.
    8 -  A Marcie sabe como apoiar um homem.
    Ela tem o time perfeito do que falar, quando falar e como falar. Sabe exatamente a hora certa de fazer as coisas. Está sempre pronta para ajudar e, mesmo nos piores momentos, tem sempre uma palavra consoladora e um gesto tenro para amenizar qualquer tipo de sofrimento. Ela entende a importância do futebol, não me obriga a abrir mão de nada para estar sempre ao meu lado. A Marcie estava sempre preocupada em ter certeza que eu estava bem.
    9 - A Marcie é do bem.
    Nunca vi ela fazer mal nem a uma barata. Quando as via ela, cuidadosamente, as varria para fora de casa. Com a Marcie parecia que tudo sempre ia ficar bem. Ela era voluntária na igreja, na escola, no hospital ou em qualquer lugar onde alguém necessitasse de ajuda. Com ela não havia surpresas, a Marcie sempre ia fazer a coisa certa. A Marcie sempre ouve o que as pessoas têm a dizer com atenção, como se fosse o assunto mais interessante do mundo.
    10 - A Marcie não existe.
    Sou feio, pobre e gordo. Nenhuma mulher nunca me quis. Eu entendo elas. Também nunca ia querer uma mulher feia, pobre e gorda. Por isso criei a Marcie na minha cabeça, para ter uma companhia e poder sofrer de amor como todo mundo. Funcionou.
  • A batalha pela rota do oeste

    A Guerra Civil chegou até onde não havia civilização. Todos os cantos do vasto mundo viviam a luta armada desde a primeira metade do Séc. XXI. Neste contexto não havia alternativa para um homem que não fosse se juntar a Resistência. Então ele podia ter dois caminhos a seguir: soldado propriamente dito, daqueles que pegam em armas e estão prontos a morrer pela vitória, ou contrabandista. Neb era flácido, lento e não sabia usar a Colt 45 que carregava na cintura. Então para ele restou apenas a opção B. Apesar de todo horror da guerra, Neb operava um esquema de tráfico de frutas. O produto não era abundante, mas depois da grande contaminação nuclear das últimas duas décadas do Séc. XXI, a procura também havia caído. Ele mesmo não confiava nelas, preferia as pilulas de proteínas e as gelatinas de carboidratos. Mas elas também não eram abundantes, e vinham do norte, o que dificultava tudo. As frutas vinham do oeste. Ele buscava elas nas montanhas de soldados inimigos que as roubavam da base. Depois vinha por entre as florestas mortas e minadas até uma entrada pelo antigo sistema de esgoto. Neste trajeto ele empurrava uma carroça, mas quando entrava nos canos tinha que carregar caixas. Ele tinha acabado de receber 69 unidades de mamão. Mais treze melancias, 52 berinjelas e duas caixinhas com, raríssimos, 50 morangos. Foram quase dois dias para chegar com tudo no centro nervoso do caos. Como tinha que subornar os heróis da própria Resistência em um certo do ponto do caminho, ele sempre levava primeiro as mais judiadas. Com elas também abastecia o próprio lar e os mais próximos, que não podiam se dar ao luxo de escolher. As melhores iam para os comandantes, que pagavam com o que tiravam dos corpos espalhados pelas ruas ou nas casas abandonadas da cidade.

    Neb estava esperando um cliente num porão de uma construção destruída na Rua 10. Ele chegava pelo esgoto e saia pela porta da frente. Uns quarteirões a frente conseguia outro acesso subterrâneo num prédio bombardeado. “Estamos vencendo, a guerra vai acabar.” O soldado de compras do Coronel reproduzia o discurso típico do Exército Armado Local. “Ela já acabou, mas ninguém percebeu.” “Você pode ajudar a fazer todos perceberem. O Coronel quer que eu te leve até ele.” “Que? Não posso, tenho outros compromissos. Talvez em outro momento.” “Se você não for ele não te paga, e eu levo tudo e não volto mais.” “Meus compromisso acabam de ser cancelados. Vamos passear.” Os dois atravessaram os escombros de algumas casas até chegar num buraco. Mas quatro jovens aguardavam a chegada das frutas e do fruteiro. Dali para frente Neb foi sendo arrastado com os olhos vendados e as mãos amarradas.

    Quando chegaram a um lugar quente e úmido uma porta se fechou e Neb pensou estar sozinho. Na hora que tirou a venda viu um cara parado na sua frente. “Precisamos das suas rotas no oeste.” Aquele rosto não parecia desconhecido para Neb, mas o tom imperativo de voz era novo. Ele ajudou Neb a libertar as mãos. “Não sei do que você esta falando.” “Vamos receber um grande carregamento de armas e monição e uma rota mais desconhecida garantiria a chegada de tudo ao combate.” Ele se parecia muito com o patriarca de uma família que seu avô ajudava muito tempo atrás. Mas eles tinham morrido ou sido capturados, não necessariamente nessa ordem. “Eu trabalho com frutas, não com armas.” “Você trabalha para quem te paga, e eu vou pagar.” Neb tinha mais de 25 anos, o que já o colocava num seleto grupo de sobreviventes. Uma enorme fatia do bolo não passava dos 23, e quem chegasse aos 40 teria atingido o ápice do improvável. Tanto tempo no mercado tinha lhe dado a reputação de barato e suspeito, além de pacifico e otário. “O carregamento chega daqui três dias. Por razões de segurança você não vai poder sair daqui até que tudo se conclua.” “E para minha segurança vou acompanhar tudo só até o ponto de encontro com o fornecedor, então você me dá meu dinheiro e nos separamos.”

    Três dias depois Neb, o Coronel e mais dois soldados cruzavam as florestas mortas rumo as montanhas. Neb não se sentia bem na posição de guia. “Você sabe por quê esta rota funciona há tanto tempo? Porque só eu a uso.” “Vou tentar ser discreto.” Alguma coisa no tom de voz dele não deixava Neb a vontade. “Você não é o único na Resistência a gostar de maçã. Tenho clientes em todos os níveis”. O Coronel olhou com desdém. “Há muito tempo atrás, quando ainda existiam os Abrigos da Resistência para as mulheres, velhos e crianças, um homem me disse para sempre desconfiar de quem diz lutar pela liberdade.” Neb jogou o anzol na água, mas o Coronel não queria papo. Foi um dos soldados que mordeu a isca. “Nunca ninguém dizia nada que prestava nestes esconderijos para covardes.” A ideia de morrer atravessou seus pensamentos deixando rastros de cautela. “Meu pai dizia que é melhor ser um covarde e sobreviver para contar a história.” “Ninguém vai sobreviver.” As palavras do coronel soaram como um sentença de morte para Neb.

    Enquanto eles cruzavam as montanhas o traficante de frutas formulava um plano para fugir antes de chegar ao ponto final da caminhada. Para ganhar algum tempo, e preservar um possível refúgio, ele evitou o caminho pelo pântano. Quando eles chegaram a planície avistaram um espelho brilhando no horizonte como sinal de contato. Neb sentiu que era o momento de agir. Diminuiu o passo até estar mais ou menos dois metros atrás do pequeno bando. No momento em que o primeiro soldado olhou para trás ele, tentando ser rápido como o bote de um escorpião, sacou a Colt do bolso direito e começou a atirar. Como que por milagre cada um dos três disparos atingiu um alvo, que caíram aos gritos de traidor e atirando suas metralhadoras para o alto. O Coronel ainda conseguiu acertar Neb na perna, mas sua bala foi mais certeira se alojando no pulmão esquerdo dele. Antes de morrer ele revelou que não havia Resistência, e que era ele e sua família que haviam entregado a localização do antigo Abrigo da Resistência para as mulheres, velhos e crianças. Neb fugiu chorando para se esconder no pântano.
  • A esquina e o fim

    [blitz]
    - Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.
    - Sim Senhor, aqui estão.
    - Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?
    - Estou voltando do trabalho para casa.
    - O Senhor pode descer do veículo, por favor.
    - Claro, algum problema policial?
    - Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?
    - Não Senhor.
    - Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.
    - O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?
    - Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?
    - Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.
    - Atitude suspeita, Senhor.
    - E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?
    - Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?
    - Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.
    - O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?
    - Posso, o que o Senhor está procurando?
    - Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.
    - Somente alguns papéis.
    - O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?
    - Claro. Está vendo, papéis.
    - Sobre o que são esses papéis?
    - Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.
    - Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?
    - Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.
    - Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.
    - Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?
    - Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.
    - Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?
    - Abra o veículo, por favor?
    - Estes CDs no porta trecos são do Senhor?
    - É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.
    - Acalme-se Senhor.
    - As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.
    - Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.
    - (click)
    - O que são esses papéis?
    - A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.
    - Posso ver essa nota fiscal?
    - Por que? Eu posso perguntar por que?
    - A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.
    - Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.
    - Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.
    - Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.
    - Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.
    - Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.
    - A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?
    - Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.
    [delegacia]
    - Eu só falo quando o meu advogado chegar.
    - O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.
    - Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!
    - Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.
    - Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.
    - Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.
    - Prova do que?
    - De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.
    - Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?
    - Quanto tempo?
    - Desde os 12 anos.
    - Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.
    - Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?
    - O Senhor tem filhos?
    - Tenho, três.
    - Eles estudam em escolas particulares?
    - Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.
    - O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.
    [conversa com o advogado]
    - Como assim eles podem me manter preso por até três meses?
    - Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.
    - Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.
  • A vida no inferno

    O trabalho nunca assustou Natália. Muito ao contrário. Desde os 15 anos ela já acordava antes do sol nascer para poder estudar e ser secretária do seu tio dentista. Podia até ser uma forma de ele ajudar a família do irmão, que não tinha paradeiro conhecido, mas as seguidas investidas com a mão embaixo da saia de Natália, e seu olhar psicótico, diziam outra coisa sobre as intenções do homem por detrás da máscara. Qualquer coisa seria melhor que ter que conviver diariamente com um boçal. Por isso, quando fez 18 anos e acabou a escola, saiu da clínica para trabalhar numa empresa de telemarketing. Sua missão agora era convencer pessoas que não podem pagar um plano de saúde a pagar por um que não funciona. “O Senhor esta ciente de que, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem um dos piores serviço público de saúde do mundo? Pior que o da Argélia, Senegal e Cabo Verde, por exemplo.” Ao lado do seu teclado havia uma folha sulfite plastificada com algumas frases que ela poderia recorrer. Tudo sempre começava com um “bom dia, meu nome é Natália e estou contactando o Senhor, em nome da ExploraMed, para oferecer uma oferta especial válida só por hoje.”
    Assim que ela desligava o telefone vinham as metas absurdas e os prazos corrosivos. “Pessoal, aqui nós trabalhamos com números.” Eram uma ligação a cada três minutos e no mínimo 20 contratos assinados por dia. “Parece muito, mas se vocês seguirem as técnicas que nós ensinamos é possível.” Informações como a superlotação, “segundo o Tribunal de Contas da União 64% dos hospitais estão sempre com lotação superior a sua capacidade”, ou “consultando os dados do Conselho Federal de Medicina o Senhor vai ver que, entre 2005 e 2012, o Sistema Único de Saúde eliminou 41.713 leitos.” Teoricamente, de posse destes dados, qualquer um deveria se desesperar e pagar até o que não podia para dormir com a consciência tranquila de que se acordasse no meio da noite, tendo um ataque cardíaco, não morreria num chão qualquer esperando a boa vontade de um bom samaritano que se importasse. Mas não era o suficiente. As pessoas precisavam de muito mais que um plano de saúde, assim como Natália, que precisava de muito mais que um salário mínimo para ter alguma perspectiva de não chegar aos 40 anos sem ter atravessado as fronteiras do ritmo casa-trabalho / trabalho-casa.
    Foi pensando num futuro melhor que ela começou a ver as etiquetas coladas nos orelhões do centro da cidade com outros olhos. “Oi garanhão, procurando prazer e diversão?” A voz meio masculifeminilazida do outro lado da linha fez ela reparar na palavra Travesti depois do nome Sheila no adesivo. Por um momento ela se sentiu envergonhada, mas não foi o suficiente para parar. “Oi, eu queria saber quanto você cobra.” “Ai gatinha, é só você que quer brincar ou seu namorado também quer participar da festa?” “Que?” “Hum, é só você que quer saborear novas aventuras, não é? São R$250 para fazer essa carinha doce suspirar amor por uma hora, e eu atendo no meu apartamento aqui no centro.” Natália respirou fundo com o valor e desligou o telefone. Em uma hora ela podia ganhar mais que em uma semana sentada numa cadeira incomodando alguém pelo sistema de discagem randômico. Olhando por esse ponto de vista parecia até mais decente. Trabalhando umas duas vezes por dia ela podia até pensar em fazer uma faculdade e ajudar a sua mãe, que sofria limpando banheiro de crianças irritantes filhas de adultos imbecis. Quanto mais pensava mais tinha certeza de que valia a pena correr os riscos, que na verdade não eram consideravelmente maiores que ser menina num ônibus lotado, chegar em casa depois de ter escurecido ou trabalhar como secretária do seu tio.
    Enquanto tirava fotos dos anúncios colados pelos orelhões e postes da cidade pensava nos detalhes. Primeiro: ia ter que ter um número de celular secreto, só para aquilo. Ninguém poderia ficar sabendo. Atenderia seus clientes em algum dos hotéis que alugam quartos por hora no centro, e como o cliente que ia pagar ele poderia até escolher qual. Depois, cobraria o dobro para dar a bunda e exigiria que o cliente sempre usasse camisinha. Acreditava que assim estaria evitando os maiores problemas que a profissão oferecia. Agora era a hora de elaborar o anúncio. Com um caderno na mão sentou na cama e começou a ver as fotos que tinha tirado no celular. “Paula Ninfeta. Insaciável. Depiladinha. Anal total. 93327-9869.” Parecia muito vulgar. “Brenda Casada. Para fetiches e fantasias. Homens, mulheres e casais. 93267-9765.” Esse não era chamativo. Depois de olhar dezenas de imagens, e escrever outra dezena de rascunhos, Natália chegou ao anúncio perfeito: “Paola (sempre achou esse nome chic) Amor (ora, do que aquilo se tratava?). Carinho e sexo para homens (não saberia o que fazer com mulheres e se sentiria estranha em 3). 24h (era importante estar sempre a disposição). NOVO NÚMERO DE CELULAR.”
    Cheia de confiança e expectativa Natália acordou mais cedo que o habitual. Vestiu sua melhor roupa e se maquiou como quem vai para uma festa de gala. Na entrada da estação de trem comprou um chip novo para o celular e começou a olhar para todos os homens como potenciais clientes. Pensou que eles estariam bem vestidos, afinal, quem pode pagar R$250 por hora tem que ganhar muito bem, e quem trabalha bem vestido geralmente ganha muito bem. Passou na Tele CO. e se demitiu resumindo os motivos em “arrumei um emprego melhor”. Eles insistiram em saber aonde a ponto de Natália se sentir acuada, mas ela se manteve firme. Assinou o que tinha que assinar e dali foi para uma lan house. As risadinhas que o moço dava enquanto ela ditava o que queria escrever na etiqueta a deixaram um pouco envergonhada. Com os adesivos em mãos começou a divulgar seu novo emprego. Deu preferência para os orelhões perto de prédios de vidro ou postes perto de lojas caras. Quando acabou com tudo Natália se sentou num banco na praça e, meio nervosa e meio ansiosa, ficou esperando o telefone tocar.
  • All Star #31

    Acho que, se a Bíblia estiver certa, ninguém que morreu com mais de 18 foi para o céu. Tudo que pode se fazer de errado já se fez até os dezoito anos. Milhares de punhetas, centenas de chingamentos, pensamentos sacanas com a mulher do próximo, gula, avareza, mentira, não tem alma que dure até os 18. Tudo indica que eu tenha assinado a minha passagem quando roubei uma caneta da papelaria da escola, com uns nove anos. De lá para cá venho apostando na teoria do arrependimento, e colecionando pecados. Por isso acho que Deus me pune com a Júlia. Sou um covarde e ela sabe. É tipo um blues do Charlie Park depois da meia noite, com uns goles de wiskey barato. Ou o Leonard Coen tocando Wanderwall. Dói de verdade. Não quero parecer um idiota, mas é difícil evitar. Vou procurar o que fazer na loja de CD do Dé para fugir de qualquer tipo de pensamento. No caminho encontrei a Paula voltando da escola. “Porque você não foi na aula hoje?” “Sei lá, fiquei no computador até altas horas ontem e não acordei no clima. Perdi alguma coisa?” “Não. Eu, a Júlia e a Alina queríamos ir na sua casa fumar um e escutar um som hoje a tarde.” “A hora que vocês quiserem.” “Umas três e pouco?” “Fechado.”
    Queria ter um novidade, alguma coisa legal para contar para elas. Parei na Curva de Rio Discos já com a ideia de levar alguma coisa do Strokes. Era uma batida legal, um som que as meninas iam gostar, e eu não tinha nenhum álbum deles ainda. Resolvi não perder muito tempo na loja, só peguei o CD e voltei para casa para começar a bolar os baseados. Liguei a nova trilha sonora, coloquei Beleza Americana no mudo na TV e sentei na escrivaninha para trabalhar. “Sou só um cara comum que não tem nada a perder.” Adoro quando o Lester fala isso para aquele chefe dele com cara de almofadinha de Harvard. Quero falar isso para um chefe cretino destes um dia. Ou para um professor idiota que acha que sabe tudo da vida. E entre esse pensamento de glórias e uma empolgação homérica em Last Night a Paula e a Júlia gritam no portão. “Nossa, você tem o Is this it??” Foi a primeira coisa que a Júlia disse quando entrou no quarto e escutou a música. “Peguei hoje no Dé, sabia que você ia curtir.” Me sentia como se tivesse passado no vestibular de medicina. “Vi um clipe deles na MTV ontem que nunca tinha visto. Tem umas imagens de Nova York muito legais.” “Não vi esse ainda.” “Posso colocar o refri na geladeira e acender um baseado?” A Alina sempre era mais objetiva.
    A Paula chegou e pediu para tirar o filme porque ela ainda não tinha assistido inteiro e queria ver depois. Coloquei Os Bons Companheiros para ver se dava um pouco de ação à tarde. “Aí, não gosto de filme de violência.” A Júlia reclamou antes da primeira facada do Henry no corpo do porta malas. Naquele momento desejei nunca ter tido aquela fita. Como a Alina estava lá o Enrolado também apareceu. Com dois baseados acesos e todas as mídias operando o mundo parecia que estava aos nossos pés. “Será que a gente vai viver para ver a maconha legalizada?” A Paula falava sobre erva com uma notável paixão. “Acho que sim. É uma planta, nunca vão acabar com uma planta. Ela se multiplica por força da natureza.” A Júlia as vezes parecia que tinha vocação para natureba, mas a Coca-Cola não deixava. “Vamos fazer um bolonha?” “Aqui não dá, não vou ter como explicar pro meu Vô o ingrediente verde. Mas apoio a ideia.” “Vamos falar com a Tati e fazer no forno a lenha do sitio dela no fim de semana.” “Vamos!” “Vamos!” “Vamos!” “Sim!” Moção apoiada por unanimidade efusiva.
    Escutar 1979 com a galera fazia tudo ser mais legal, então troquei os Strokes por Smashing Pumpkins entre a ideia do bolonha e as discussões sobre as aulas de matemática. Descobrimos aí um ponto de tensão entre a Alina e o Enrolado. “A aula do cara é um saco. Ele não tem a mínima didática. Ele não esta falando com robôs. O cara não dá um sorriso, não faz uma piada”, dizia ele. “Eu entendo muito bem matemática por causa dele. Se você é burro não bota a culpa nele”, e ela estava disposta a iniciar uma guerra por Pitágoras. “Sei lá, a aula dele faz eu me sentir burra. A didática dele comigo não funciona.” A Paula queria jogar gasolina na fogueira. “Tem gente que se da bem com exatas, uns com humanas. Pelo menos ele não enche o saco como o Tadeu de Português que acha que é o centro do mundo.” Tentei dar uma aliviada, e quando a Júlia concordou comigo foi como se a gente fosse tão parecido que era evidente que tínhamos sido feitos um para o outro.
    A filme acabou, o baseado também, e humanidade continuava sem perceber a existência daquele universo paralelo que a gente construía no quarto. “Eu só queria viver sem que ninguém se preocupasse comigo.” Falei isso sem pensar que eu queria que a Júlia se preocupasse comigo. Quando pensei isso me senti um verdadeiro idiota. Eu não era diferente do professor de matemática cretino que queria atenção. O CD terminou e não troquei a música. Fiquei jogado no canto da cama com cara de paisagem tentando atrair a Júlia por piedade. Fechei o olho e desejei com toda força que tinha que todo mundo desaparecesse e só sobrasse eu e ela. Acabei caindo no sono quando eles falavam alguma coisa sobre uma balada no sábado. Acordei sozinho não sei quanto tempo depois que eles saíram.
  • All Star #35

    As vezes acho que acredito que todo mundo nasce com um destino traçado. Tipo, independente do que você faça as coisas vão acontecer, de um jeito ou de outro. Aposto minha vida com a Júlia nisso, mas esta começando a ficar difícil de acreditar. Fiquei sabendo que ela esta ficando com um cara que já esta na faculdade. Não conheço o bastardo, e nem estou afim de conhecer. Agora todas as garotas que eu vejo tenho vontade de beijar, só para ela saber como eu me sinto vendo ela com outro cara. Mas acho que ela não vai sentir a mesma coisa. Queria que ela soubesse de tudo isso. Também queria que esta porra de aula de física nunca tivesse começado. A Paula fez um bilhetinho passar de mão em mão da primeira a última carteira até chegar em mim. “Eu e as meninas queríamos ir na sua casa mafu nhacoma hoje a tarde.” “Nem tudo acontece do jeito que a gente quer”; era o que eu devia ter respondido. Mas como um ser humano pacífico e otário confirmei o rolê. Tinha comprado o CD novo do Eagles of Death Metal e queria cantar Now I’m a Fool para a Júlia, mesmo que ela não entendesse nem o porque nem a letra.

    Aleguei uma dor de cabeça indecente e fui para casa antes de ter que encarar a aula de biologia. Passei as aulas quase que dormindo, meio longe, sair mais cedo adicionava algum mistério sobre a vida para as meninas. No caminho parei na Curva de Rio Discos para comentar com o Dé sobre o livro do Mutarelli que tinha acabado de pegar. “Será que o cara não tem medo de escrever uma história como essa?” “Medo do que?” “Sei lá. Um policial assassino apaixonado por uma travesti. Eu pensaria que todos os policias do mundo estariam querendo me matar por causa disso.” “Tem muito mais que isso no livro. Esse é só o enredo.” As vezes acho que acredito que todo mundo tem um plano de vingança secreto contra alguma coisa que odeia. Se eu fosse um policial talvez eu odiasse o Mutarelli por ter escreto Miguel e os Demônios. Tenho medo de estar andando com ele na rua e um policial me parar, pegar o livro e dizer: “Porque você esta lendo esta porcaria? Você acha que policial é viado? É isso?” Enfim, como diz o meu avô “até provar que focinho de porco não é tomada o coitado morreu com o choque”.

    Quando sai da Curva de Rio vi a Júlia subindo a pé sozinha. Ela também devia ter dado o migué na aula de biologia. Fiquei com cara de expectativa zero esperando ela chegar até mim. Ela também não parecia a garota mais feliz de todos os tempos. “Acho que não vou a tarde na sua casa com as meninas hoje?” Queria ter dito: “Se eu soubesse que você não ia não tinha topado.” Mas saiu só um “Por quê?” murcho. “Não sei, não estou me sentindo bem.” “Fumar um pode te ajudar.” “Não sei. Talvez o problema seja esse. Estou fumando demais.” “Duvido que o problema seja esse.” Falei dando uma risadinha de leve, que ela retribui. As vezes acho que acredito que a vida da uns sinais sobre o destino. Aquilo era um sinal. “Também não ando muito bem, mas acho que não é por estar fumando muita maconha.” “Porque então?” “Sei lá, tudo que eu faço dá errado, não vou passar no vestibular nem para ser lixeiro. Não estou feliz.” “Porque não? Tudo que você faz é legal, todo mundo queria ter uma vida como a sua.” “A grama do vizinho é sempre mais verde, até você perceber que é artificial.” “É. Vou virar aqui. Até mais.” “Beijos! Aparece lá mais tarde….não me abandone.” Falei colocando a mão no peito e fazendo uma cara de cão sem dono. Ela rio e se foi me deixando cheio de esperança.

    Cheguei em casa e tirei uma soneca depois do almoço para ver se recuperava o ânimo. Quando voltei a vida pensei que a única coisa que poderia salvar o dia seria a Júlia aparecer com as meninas. Sem ela preferia passar a tarde sozinho escutando um som e viajando na maionese. Coloquei uns clips do Aerosmith na televisão e comecei a bolar baseados em linha de produção. No terceiro a Alina chegou com a Paula. “Meus Deus. Essas meninas dos clips do Aerosmith são demais. Nunca vou ter um corpo assim.” As vezes acho que acredito que todo mundo só pensa em sexo. Tem gente que parece que vai na padaria não para tomar café, mas para ver se acha alguém para transar. Queria perguntar se elas sabiam se a Júlia vinha, mas não queria que elas percebessem que meu único interesse na tarde era esse. “Estamos esperando mais alguém ou podemos acender esse baseado?” “Se mais alguém chegar a gente não pode acender outro?” Não era exatamente a resposta que eu esperava, mas fazia bastante sentido.

    Quanto mais o tempo passava mais eu tinha certeza que a Júlia não ia vir. No fim a gente queria a mesma coisa, passar a tarde sozinhos. Ela deve ter conseguido, ou não, o cretino que ela esta ficando poderia estar lá com ela tentando fazer ela melhorar. As vezes acho que acredito que nós dois ficarmos juntos é inevitável, só preciso ter um pouco de paciência. Estava todo mundo em transe com o clip de Crazy. “Como pode a Liv Tyler ser filha desse monstrinho?” “Ele não é tão monstrinho.” Não era a filha dele que a Paula queria ser. “Acho que ela é um tesão.” A Alina não segurou seu lado lésbica e deu uma risada sexy quase interminável. Será que a Liv Tyler tinha uma turma como a nossa? Que passava a tarde fumando maconha e falando de Rock’n Roll? Será que a Júlia esta sozinha? Acendi mais um baseado e me ajeitei na cama como quem vai dormir. As duas entenderam a mensagem e foram embora depois do cigarro pós-baseado.
  • Almoço fast-food

    Seu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.
    Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.
    Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “........” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”
    Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Bruno, Maira em uma tarde qualquer

    Bruno acordou como foi dormir, desempregado. Pegou a última colher de café e fez um chá preto fraco. Queria um cigarro, mas o cinzeiro não tinha bitucas. Precisava de dinheiro. Pensou em ligar para o César. Ele estava bem. Era gerente de alguma coisa numa multinacional há anos. Foram grandes parceiros de truco nos tempos de escola. Não se falavam desde o enterro do Muleta, dois, três anos atrás. Depois ficou com vergonha porque não sabia nem o que ia pedir. Dinheiro? Trabalho? Good times? Tudo junto? Bruno estava fodido. Morando de favor no sofá da sala do pai, roupa mal lavada e cara de desocupado. Procurou umas moedas nos potes da cozinha, depois nos da sala, e no sofá. Achou o suficiente para uma dose de qualquer coisa barata e um cigarro. Sem muitos destinos a seguir ele rumou para o Bar do Jaime. Chegando lá sentou numa mesa na calçada e ficou esperando o tempo passar na companhia solitária de um copo de conhaque. Quando parecia que o mundo inteiro estava alheio a sua existência Maira sentou ao seu lado.

    - Não vai me oferecer uma bebida?
    - Não tenho dinheiro e esta é uma dose individual. Mas você pode ficar sentada aí se quiser.
    - Então eu pago a bebida.

    Maira entrou no bar e voltou com uma garrafa de cerveja e uma dose de conhaque. Serviu dois copos com a cerveja e sentou.

    - Não consigo me imaginar trabalhando, casada, com filhos. Nasci para ser livre.
    - Dá para ver.
    - O que dá para ver?
    - Que você nasceu para ser livre.
    - Mas as pessoas não aceitam. Querem transformar você numa coisa que você não é.
    - As pessoas são foda.
    - Você nasceu para ser o que?
    - Nada. Vou no banheiro.

    Bruno se levantou e entrou no bar. Quando voltou tinha um outro cara na mesa e um mostruário hippie apoiado na parede.

    - Esse é o Alberto. Ele vende artesanatos. Perguntou se eu aceitava um colar em troca de uma cerveja e eu aceitei.
    - Tudo bem.
    - Qual o seu nome?
    - Bruno.
    - Eu também não sabia, nem tinha perguntado.
    - Tudo bem.
    - A gente estava falando do preconceito que o Alberto sofre por ter escolhido vender artesanatos na rua. As pessoas acham que ele é vagabundo.
    - Negro como eu então, o preconceito é dobrado.
    - As pessoas são foda.
    - Costumo dizer que sempre desconfie quando alguém pergunta o que você faz. Ela quer saber como ela pode se aproveitar de você.
    - Eu acredito mais no que as coisas são do que no que elas podem fazer.

    Maira morava sozinha num apartamento, no centro, que sua família lhe deixou como herança. O vizinho de baixa mora onde morou sua vô um dia, e como ela não mora no céu Maira que recebe o aluguel. Tinha feito o antigo magistério, mas nunca usou o título para nada. De repente abriu a cortina da sala e se deparou com Bruno, sentado sozinho no bar com um copo na mesa, desanimado. Ela não queria ficar sozinha sem fazer nada em casa, de longe ele parecia que também não. Por um instante ela pensou que tinham sido feitos um para o outro, então resolveu descer. No elevador ela lembrou de quantas vezes este pensamento invadiu sua cabeça, e que a esperança é uma doença. Mas ela não tinha nada a perder e já estava no meio do caminho. Depois de uns goles, e de Alberto voltar para a batalha da rua, Bruno ganhou o status de intrigante.

    - Você não gosta muito de falar, né Bruno?
    - Não.
    - Porquê?
    - A chance de falar besteira é menor.
    - Meu pai dizia que em boca fechada não entra mosca.
    - É.
    - Você é meio misterioso, tem cara de inteligente. Gosta de ler?
    - Não.
    - Eu também não. Prefiro outras coisas para viajar. Ahahahahha.
    - ….
    - Tem gente que acha que você tem que ler, ter cultura, estudar. Acho que estas coisas só deixam os outros mais chatos, metidos a besta. Ficam se achando superiores.
    - As pessoas são foda.
    - Como se saber uma conta de matemática ou ter lido todos os livros do mundo fizessem de alguém mais inteligente. Você terminou a escola?
    - Não.
    - Você por exemplo, não gosta de ler, não terminou a escola, e parece muito inteligente.
    - ….
    - Acho que se aprende mais aqui, vivendo a vida na rua, do que com um professor metido a besta numa escola que parece uma cadeia.
    - É.
    - O que você tem para fazer?
    - Nada.
    - Eu também. Acabou a cerveja. Tenho mais lá em casa, quer subir?
    - Sim.

    Os dois foram para o apartamento dela e deram uma meia foda. Bruno teve uma parte do ânimo tomado pelo conhaque e Maira desanimou com a falta de jeito dele com a coisa. Depois de tentar um pouco os dois desistiram e Bruno voltou para o sofá da casa do pai.
  • Cachorro no mato

    Era uma multidão. Um fluxo aleatório de gente indo para cá e para lá. Bruna vinha andando como quem não quer nada, mas com o ritmo de quem sabe onde quer chegar. Só seguindo o fluxo da sua linha. Quando viu o pato vindo concentrado na tela do celular ela deu o bote. Rápida como uma naja atacando um ratinho branco especialmente para as câmeras da Discovery. A super-câmera ia mostrar em detalhes como o punho dela se dobrava num ângulo perfeito para baixo e depois para cima, retirando com suavidade e segurança o celular da mão do duck. Ela não mudou o ritmo da caminhada, não fez nenhum movimento brusco. Só os músculos do braço se moveram como um chicote. Do bolso e de volta para o bolso, carregada, em milésimos de segundos. Quando o pato atordoado acusou o golpe Bruna já estava pelo menos dez passos longe da confusão. Daí para frente era só não olhar para trás.

    Ela entrou num shopping shing-ling e esvaziou os bolsos num balcão. “Quanto tempo faz você roubar isso?” “Foi tudo agora, se você correr para mudar o PIN não vão nem conseguir travar.” “Você boa.” “Me paga.” O chinês, que na verdade é coreano, deu o dinheiro e Bruna colocou as notas no sutiã. Como uma estudante de uma faculdade tradicional qualquer ela caminhava desapercebida pelo formigueiro do centro da cidade.

    De repente Bruna sabia que estava sendo observada. Manteve as mãos quietas nos bolsos e continuou a tocada firme. Girou só um pouco a cabeça, como quem quer ver o que esta acontecendo em volta de si, e percebeu que ele estava três passo atrás, do seu lado esquerdo, falando num celular. Quando ela se virou para frente de novo ele tocou seu ombro e se aproximou. Num terceiro movimento um cano frio tocou a sua cintura. “Só vem comigo. É só uma conversa.” Avessa a chamar atenção ela só seguia a direção que o cano apontava.

    Os dois entraram num prédio com aspecto de velho, depois numa das salas do sétimo andar. Ele pediu para que Bruna encostasse na parede para ser revistada. “Cuidado com essa mão aí!” Ela falou só por implicância. “É estranho quando é o seu bolso com uma mão que não é a sua?” O capanga abriu a porta de outra sala e mandou ela entrar. Um velho carcamano meio chinês (ou coreano?) estava sentado do outro lado de uma mesa. “Entrar cara Bonnie. Você saber quem ser eu?” “Não.” “Eu ser quem todo mundo que fazer coisa errada alguma aqui ter que pagar. Me entender?” “Não vou mais fazer nada de errado aqui então.” “Vai sim. Vai porque você boa. Vai porque Sr. Antônio ganhando muito dinheiro vendendo o que você entregar ele, e eu ganhar muito dinheiro também. Vai porque eu querer que você vai.” Ela ficou olhando sem saber o que falar. Não precisava ter assistido um filme do Scorsese para entender o que estava acontecendo. “Agora o Sr. Antônio me pagar 20% do que você ganhar, porque ele pagar sua parte mim. Assim nunca precisar nós ver. Entender?” Bruna acenou que sim com a cabeça sem conseguir mais esconder o medo. “Agora poder voltar ao trabalho.” Ela se levantou e saiu.

    Indignada ela foi em direção ao cubículo do Sr. Antônio no shopping shing-ling. “No que você me enfiou seu chinês desgraçado?” “Calma. Não nervosa.” “O que você falou para ele seu cretino?” “Que você ser boa. Ele proteção. Você não cadeia.” “Proteção o escambau! Não tenho dono!” “Calma. Não nervosa. Eu paga metade sua parte. Pronto.” “Chinês burro!” Ela voltou para o mundo sem muito destino. Tinha o trabalho do dia no peito e percebia o tempo todo que estava sendo vigiada. Irritada com toda aquela situação ela entrou repentinamente num ônibus sem nem ver a bandeira e saiu dali.

    Conseguiu se virar por três dias com o dinheiro que tinha até se entregar a loucura orgânica do calçadão do centro da cidade. No momento em que desceu a ladeira, e avistou a massa desordenada de carne humana atravessando o viaduto, já sabia que estava sendo vigiada. Fez uma primeira coleta de aparelhos e voltou para o box chinês-coreano. “Você não aparecer. Eu ficar preocupado.” “Preocupado porra nenhuma. Quem mais vai querer me extorquir dessa vez?” “Que? Eu não entender você querer dizer. Istoiqui?” “Tá bom, tá bom. Só me dá meu dinheiro. Entender me-dá-dinheiro?” “Sim, sim.”

    Ela pegou a grana e voltou para as ruas. Não procurava mais quem há estava seguindo, apenas sabia que eles estavam lá. Então começou a se exibir. Primeiro roubou a carteira de um executivo depois de um encontrão 'acidental'. “Desculpa” foi tudo que o palerma disse para ela, que respondeu com um sexy “tudo bem” enquanto enfiava a carteira dele no bolso da calça. Mas não conseguia fugir de sua especialidade, as chicotadas. Viu o cordeirinho vindo de longe. Digitando compulsivamente. Levantava a cabeça sem o menor foco. Ajustou a direção para passar ao lado dele. Calculou a rota de fuga por detrás da presa. Colocou as mãos no bolso do moletom e foi para cima com a confiança de uma leoa que ataca um cervo em campo aberto. Quando ela estalou o braço de volta com o celular na mão sentiu um empurrão por trás. “Sua larapia maldita!” Não conseguiu distinguir as palavras enquanto caia esbarrando nas pessoas e abrindo um círculo no meio do povo. O dono do celular virou lobo e foi para cima dela uivando. Socos, chutes e pontapés aos gritos de “mata! mata! mata!” da torcida. Toda encolhida no chão ela foi resgatada por duas mãos e arrastada para dentro de um carro. Bruna tremia e chorava descontroladamente. Só começou a se sentir mais segura quando percebeu que era o capanga do velho carcamano meio chinês que dirigia o carro.
  • Depois da merda no ventilador [conto]

    [Dona Gertrudes - 53 anos - Dona de Casa]
    Quando eu virei para a segunda rampa eu vi os dois lá em cima, se esfregando encostados no canto da grade. Mas ainda não sabia o que eles estavam fazendo. Foi quando fui chegando perto e escutando o barulho que percebi o que estava acontecendo. Foi horrível. Eu não sabia o que fazer e comecei a gritar. Aí todo mundo começou a chegar e um Senhor muito simpático e elegante veio me confortar com uma água e perguntando se estava tudo bem, o que tinha acontecido, essas coisas. Ele foi muito reconfortante.
    [Bernardo Pereira - 36 anos - Pedreiro]
    Lá de baixo eu já tinha ganhado o que estava rolando com os dois lá em cima. Os dois tavam se pegando forte. A tia lá começou a gritar não sei muito bem porque e um pessoal começou a correr do ponto para cima da passarela. Eu fiquei na minha. Tava na rampa do outro lado e voltei lá para baixo para esperar a coisa esfriar. Lá em cima começou o empurra empurra e a gritaria. A galera tava com sangue nos olhos. Aí começou o falatório, a polícia chegou e aí que não cheguei perto mesmo. Tava na cara que ia terminar em confusão.
    [Renato Seixas - 23 anos - Auxiliar de produção]
    Eu não estava entendendo o que estava acontecendo, pra falar a verdade eu nem queria me meter em nada. A confusão estava rolando lá em cima na passarela e eu fiquei aqui no ponto de ônibus só olhando. Então um cara saiu correndo do meio da confusão e veio na direção do ponto. Os dois policiais saíram na caça. O povo veio atrás deles gritando “estuprador, estuprador”. Aí quando ele passou na minha frente eu enfiei o pé nele e ele caiu. Sei lá, achei que era o certo a fazer. Ele estava correndo da polícia com todo mundo gritando estuprador. Daí todo mundo caiu em cima dele e eu me afastei.
    [Fátima Abrilina - 39 anos - Professora]
    Acho que ninguém sabia o que estava acontecendo. Eu fiquei aqui em baixo no ponto o tempo todo. Primeiro começou uma agitação lá em cima na passarela. Dois policiais que estavam com mais um numa viatura aqui em baixo foram para lá ver. Alguém passou por aqui e disse alguma coisa sobre estupro. Aí um homem desceu a passarela correndo e caiu quase na minha frente. Aí eu saí de perto. Olha, nesse mundo de hoje o melhor que a gente pode fazer é não entrar em confusão. Sempre falo isso pros meus alunos: trabalhem e não se metam com confusão.
    [Léo Kleim - 25 anos - Estudante]
    Acho que fui um dos primeiros a chegar lá. Eu tava no meio da passarela e nem tinha percebido o que estava acontecendo. Escutei um grito e quando vi o cara fechando a braguilha todo desajeitado entendi tudo e não tive dúvida, parti para cima dele. Se a grade não fosse tão alta tinha jogado ele lá para baixo. Daí começou a chegar gente e soltei o infeliz porque tavam batendo em mim sem querer tentando acertar ele. O cretino aproveitou para correr, mas a gente pegou ele no ponto. Aí veio um monte de viatura e levaram o marginal.
    [Seu Agenor - 60 anos - Aposentado]
    Para falar a verdade não vi nada. Eu vinha subindo a primeira rampa da passarela tão pensando na vida que nem percebi o tumulto. Quando virei para segunda rampa vi uma Senhora chorando perto de toda confusão e fui tirar ela de lá. Ela estava chocada e tremia. Falava umas coisas sem sentido, não dava para entender nada. Até agora não sei direito o que aconteceu. Acalmei um pouco ela e trouxe ela aqui para baixo, longe da confusão. A gente ficou conversando e nem vimos como tudo acabou. O nome dela era Gertrudes, se não me engano. Peguei o telefone dela também.
    [Mariana Carla - 29 anos - Publicitária]
    Minha nossa, foi uma selvageria. Eu já tinha passado pelos dois se pegando lá, mas nem tinha ligado, me pareceu normal. Então uma mulher começou a gritar e um monte de gente correu na direção deles. Um cara passou por mim como se fosse um animal. Antes que começassem a bater na menina também eu tirei ela do meio da confusão. Coitada. Ela gritava desesperada para pararem com aquilo, mas ninguém escutava. Então o menino saiu correndo do meio da briga e ela foi correndo atrás. Tentei segurar ela, mas não consegui. Achei que já tinha feito tudo que podia e me afastei.
    [Marília Estorme - 19 anos - Estudante]
    O que aconteceu aqui foi um absurdo. Eu vi tudo. Os dois só estavam dando uns pegas na passarela quando um cara partiu para cima deles do nada. Aí começou uma gritaria e toda confusão. Não sei da onde tiraram essa história de estupro. Eu já vi os dois na faculdade, eles estudam lá também. É revoltante.
    [Carlos Betolho - 41 anos - Policial]
    Nós estávamos realizando a vigia da passarela quando observamos uma aglomeração se formar no topo da segunda rampa. Eu e o cabo Martins subimos para averiguar o que estava provocando a desinteligência. Cinco cidadãos estavam contendo o elemento, que quando percebeu nossa aproximação se desvencilhou dos homens e tentou se evadir do local correndo. Iniciamos uma perseguição e capturamos o elemento no ponto de ônibus do outro lado da Avenida com a ajuda dos cidadãos que estavam no ponto. Ele reagiu se debatendo no momento de ser algemado, e tivemos de usar de força física para imobilizá-lo e colocá-lo na viatura.
    [Marcela Camorga - 21 anos - Secretária]
    Não vi nada, eu estava sentada no ponto ouvindo música no fone de ouvido e mexendo no celular. De repente uma mulher caiu em cima de mim e quebrou meu telefone. Quem vai pagar isso? O ônibus passou e não parou por causa da confusão. A gente não pode mais nem esperar o ônibus em paz. É sempre o povo que paga pelos problemas dos outros. O que eu tenho haver com isso? Tem que colocar esse monte de animais na cadeia e esquecer lá.
  • Depois do sonho [conto]

    Eram trinta e sete minutos do segundo tempo e o time da casa perdia por 2x0. Os visitantes se defendiam bem e levavam perigo nos contra-ataques. Pareciam ter tudo sob controle. Josias estava afoito no banco para fazer sua estréia. O técnico fez um sinal para que ele se  levantasse. “Você percebeu como eles estão marcando em linha? Eu vou tirar um volante e colocar você para infernizar eles. Quero movimentação e toque de bola. Vai lá e faz como treinamos.” Josias entrou tímido, apontando aos companheiros onde ia se posicionar. A bola saiu de sua área e veio sendo tocada até o meio campo. Então o meia lançou o lateral da esquerda e Josias acompanhou a jogada pelo meio. O lateral cruzou da linha de fundo e lá estava ele para completar de cabeça e fazer seu primeiro gol logo no primeiro toque na bola de sua estreia. Por dentro ele quase explodia, mas o time ainda estava perdendo faltando pouco mais de cinco minutos para terminar o jogo. Não havia muito a comemorar. Soltaram a bola e o volante apertou a saída e a bola sobrou para o ala, que viu Josias se projetando na área e lançou. Ele cortou o zagueiro, tirou o goleiro e colocou para dentro empatando o jogo.
    Agora o estádio inteiro gritava seu nome. Duas jogadas e dois gols. A partida estava nos últimos minutos e se fizesse mais um Josias viraria a partida num hat-trick histórico. Os donos da casa pressionavam motivados pelo novo ritmo que Josias imprimiu. O zagueirão deu um balão para área do meio campo e no bate rebate a bola sobrou para o novo atacante goleador que só empurrou para dentro. Virada consumada e fim de jogo. O estádio explodiu em felicidade. Josias era saudado como o novo herói. “Impressionante”, “nasce um fenômeno”, eram algumas das manchetes que ilustravam os jornais. Apesar disso o treinador não estava convencido de que Josias devia ser titular, e ele começou o próximo jogo na reserva. A primeira etapa foi melancólica e terminou 0x0 com a torcida clamando por Josias. Pouco depois dos 75min ele entrou, para delírio da massa, e foi batata, primeiro toque na bola e um canhão de fora da área tirou o 0 do placar. Josias foi pra galera e não parou por aí. Aos 82min ele escorou um cruzamento na segunda trave e marcou o segundo. Cinco minutos depois, sem forçar muito, fechou a conta de mais um triplete recebendo um passe primoroso e finalizando de primeira um contra-ataque.
    A esta altura Josias já era uma unanimidade entre torcedores e a crítica. Até alguns de seus companheiros faziam parte do coro dos que pediam ele desde o começo. Mas o treinador era do tipo durão, que parece que nunca dá ouvidos para nada. Dizia apenas que a hora dele ia chegar. E não tinha chegado até aquele momento, em que ele mais uma vez, agora sob protesto da torcida e da crítica, começava junto com aqueles que aguardavam ansiosamente sua chance. No final da primeira etapa saiu o gol deles, e na saída para os vestiários todos clamavam por Josias. O time voltou sem alterações, e logo no começo do segundo tempo veio também o segundo golpe. 2x0. Foi a gota d’água. Josias levantou do banco e escutou do técnico: “Vai lá e faz seu truque.”
    O jogo estava truncado, e a pelota não chegava nos pés certeiros do matador. Quando chegou, já perto dos 80min, Josias não perdoou. Numa bola espirrada pela defesa ele arrancou do meio campo, passou pela linha de zagueiros como um raio e com um leve toque tirou por cima do goleiro que veio como um boi brabo rolando pelo chão. Sem comemorar ele buscou a bola do fundo das redes, colocou no meio campo e se posicionou para o jogo recomeçar. Os caras estavam preparados, não se abatiam. Todo lançamento ou toque na direção de Josias era interceptado. Haviam sempre dois ou três marcadores a sua volta. Mas o lateral escapou pela esquerda depois de fazer um dois com o meia e viu Josias se projetando no primeiro poste. O cruzamento veio rasteiro e na dividida com o zagueiro deu Josias e seu toque mágico, que empatou o jogo já quase aos 90min. Ao apagar das luzes o volante deles fez uma falta boba no meio campo para parar a jogada. Josias só tinha feito dois gols e era o último lance da partida. A torcida gritava seu nome como uma ordem para lançarem um chuveirinho em sua direção. Todos do time adversário o cercavam. Para não se comprometer o lateral bateu a falta com um balão para área. Os zagueiros correram para trombar com Josias que subiu imprensado por quatro deles. A bola resvalou em sua cabeça e entrou. Todos foram a loucura. Josias correu para torcida que pulava e gritava em êxtase. O treinador e toda comissão técnica corriam como baratas tontas. Mais uma vez Josias entrava e em menos de dez minutos, fazia três gols e resolvia o jogo.
    A enxurrada de elogio e louvações que veio em seguida diziam que nem Pelé tinha tido um início tão estrondoso. Assim, atendendo a voz do povo, Josias foi escalado como titular para o próximo certame. “Será que Josias fará 20 gols?” estampava a manchete de uma jornal esportivo. A linha fina exaltava a chance que ele teria de marcar mais de três gols numa partida. Logo no começo do jogo veio o susto: Josias chutou uma bola para fora pela primeira vez. O estádio silenciou. Foram mais duas tentativas frustradas no primeiro tempo. A segunda etapa seguia dura, com Josias perdendo chances. Aos 82min veio o castigo: gol deles. O da vitória. Depois de mais dois jogos sem marcar Josias voltou para o banco de reservas, além de ter sido substituído em todos. Entrou nos três jogos subsequentes, mas nada de balançar as redes. Ainda surgiram mais algumas oportunidades ao longo do campeonato, mas em nenhuma delas a bola entrou. No final da temporada foi emprestado a um time menor, para adquirir experiência. Não emplacou. Foi dispensado na volta, perambulou por aqui e por ali e dois anos depois conseguiu um emprego de porteiro.
  • Desabafos de uma Ana

    Tem um momento da vida que você tem que parar para refleti sobre tudo o que você fez,que quer fazer é que está fazendo. Esse momento tem que acontecer não apenas uma vez,mas várias. Até hoje tento realizar as coisas com racionalidade, mas será que é o suficiente? Mágoas do passado não são simplesmente apagadas de uma hora para outra,ou até mesmo perdoadas,ainda mais quando são pessoas que você menos quer se magoa. Pedir perdão de um dia para o outro não resolve nada, inventar mentiras também não, e aquele tempo todo que passou sem falar um palavra se quer comigo? E aqueles momentos que mais precisei ou mais felizes da minha vida que foi perdido por um mero orgulho? Hoje percebo que toda mágoa que quardava não valia a pena, não existe volta para o que não quer ser concertado,não existe perdão para quem não admite o erro,não existe aproximação para quem não tenta. E pensando nesse momento,todo o tempo perdido valeu a pena?Sim,porque pude percebe a cada segundo quem realmente quis estar comigo resolvia o problema na hora,não deixava o orgulho vencer e reconhecia que estava errado. E se era eu a errada,me mostrava isso,não apenas sumia. Então reveja o seu julgamento de quem está certo ou errado,pois se despender de mim,vai continuar sendo apenas mais uma pessoa que passou pela minha vida.
  • Elucidações elucidativas sobre os elucidados [conto]

    A menor possibilidade das coisas darem certo ainda não é o suficiente para deslindar a necessidade de as coisas darem certo. Se as coisas não derem certo para Renata isso poderia significar que não vão dar certo para ninguém. Não porque as coisas dela sintetizam todo os sentimento do universo ou sua solução culminaria na confirmação ou negação da hipótese de Riemann. Ninguém nunca conseguiu solucionar esta fabulosa combinação de números e letras romanas e gregas, cheio de linhas e sinais gráficos, muito bem matutada por Bernhard Riemann, um alemão que morreu na Itália e viveu no período da nababesca era Vitoriana. Renata certamente não seria quem desvendaria este pomposo enigma, visto que ela era uma notória lunática, e não dominava as artes numeroletradas. Ela nunca poupou nenhum tipo de tempo, passado, presente ou futuro, para fazer as coisas darem certo, mas isso não garante nada, se é que alguma coisa pode ser garantida nesta época de carros que não voam e exceções generalizadas. Falo isso por causa das coisas que Renata falava para a lua antes de dormir. Não que ela falava com a lua como um galo que fala para o mundo que o sol chegou ao mesmo tempo que avisa as estrelas para se esconderem, era mais parecido com um canário que canta todo dia de manhã na esperança de encontrar outros canários que também queiram cantar.
    Para as coisas darem certo para Renata ela precisava que uma série de acontecimentos aleatórios se alinhassem numa sequência imponderável. É uma coisa parecida com o efeito borboleta, mas sem tantas cores e com um degradê mais opaco. É esta variação de cor limitada pelo espectro retro dimensional que determinará a completa ocasionalidade dos eventos. Sendo assim, o fundamentalismo paraláxico da situação determina que as coisas darem certo para Renata é elemento decretório para que as coisas também deem certo para todos os seres vivos, pensantes e não pensantes, ou mortos (aí tanto faz como e porque). Se Deus existe, só ele sabe se as coisas vão dar certo para Renata, mas se ele não existir, aí ninguém sabe. Neste caso, de ninguém saber, quem descobrir pode estar em grande risco de ser considerado sabedor demais. Assim como Galileu ou Tesla. Para eles as coisas não deram certo, o que impactou o mundo inteiro, que teve que viver mais tempo que o necessário achando que a terra era quadrada e sem iluminação para cidadãos noctâmbulos. Não se pode dizer aqui que Renata não era cumpridora de seus deveres e merecedora de todas as graças de Nossa Senhora da Bicicletinha (o que não significa que eram de graça, Renata deprecava fervorosamente na igreja ou fora dela, além de sempre contribuir na cestinha), porque ela era.
    Traçando um paralelo entre a curva ascendente da transversalidade do cosmo, e os instintos reprimidos de um boi que pasta durante semanas antes de virar hambúrguer, um alucinado poderia concluir que os coisas dariam certo para Renata se ela fosse para a Conchinchina. Supondo, para todos os efeitos laterais e colaterais, que a Conchinchina fizesse fronteira com o Amapá, e alguns metros separassem a prosperidade da completa precariedade do ser (alguma coisa, humano ou animal), e que as coisas dessem certo com Renata lá, o sistema de irrigação dos circuitos que ligam os fatos entrariam em processo de estiagem aqui. Em todo caso, parece lógico afirmar que as inexoráveis relações de espaço-tempo seriam afetadas de formas reparáveis somente com a invenção de novas máquinas ou uso de tecnologia cinematográfica. Ambas as soluções estão além dos pressupostos básicos democráticos estabelecidos pelo senso comum.
    É de suma importância lembrar dos estudos conduzidos pela própria Renata sobre a influência da lua nos sorteios dos números do bingo na igreja. Como lunática formada e diplomada numa das grandes universidades da vida, Renata tem todos as credenciais necessárias para dizer o que quiser ou entrar em qualquer lugar, desde que a vontade e os lugares existam. Dito isso, suas pesquisas provam categoricamente que pedras lunares que cantam aqui não cantam lá, e vice-versa. Então não adianta teimar que água mole não fura pedra dura. No sapato ou no caminho, no bingo ou na lua, a pedra é sempre algo que vai bater. Que seja pós-verdade, pós-mentira ou pós-feijoada, as coisas tem que dar certo para Renata nem que seja por sorteio, fórmula mais conhecida por selecionar a meritocracia.
    No fim os macacos nunca morderam o Robin, e o Batman jamais conseguiria morder uma bala como John Wayne. Quando uma borboleta bate as asas ela espalha por toda atmosfera uma grande quantidade de pó de pirlimpimpim, e este pode ser o segredo do milagre. Tudo corrobora para que não acontecimentos continuem a não acontecer. Existem mais de 80 grupos étnicos no Sudão do Sul, e todas essas formidáveis culturas fazem um esforço descomunal, há séculos, para se manterem culturando, independente da vontade do sapo de se alimentar unicamente de mosquitos. O que se pode dizer, ainda que se incorra no terrível erro de se estar errado, considerando aqui que a dicotomia certo e errado corresponde às duas únicas possibilidades irracionalmente viáveis de definição a cerca da moral, é que não se pode fazer uma omelete sem se quebrar os ovos. Não sendo a omelete uma substância essencial para a preservação da espécie, fauna e flora, ao contrário do ovo, ao qual a vida está uniformemente envolta, se conclui que para as coisas darem certo para Renata basta não fazer omelete.
  • Experiência n°67 [conto]

    - Introdução: É feriado.
    - Objetivo: Ser feliz.
    - Justificativa: Nenhuma.
    - Metodologia: Tentativa e erro.
    Relatório final
    [6:15] - Início dos procedimentos
    250ml da substância 1 administrada na forma líquida.
    2g da substância 2 administrada de forma fumófita.
    [7:15] - Leitura dos parâmetros
    Temperatura: 37,5°C
    Pulso: 95 bpm
    Pressão: 13\9
    Respiração regular.
    Foco se expandindo.
    [8:15] - Sintomas físicos
    Ondas de calafrios.
    Aumento exponencial da atividade das glândulas sudoríparas.
    Dilatação máxima da pupila.
    [9:15] - Sintomas quânticos
    Sentimento abrupto de bem estar e euforia.
    Risos compulsivos.
    Referências inconscientes confusas.
    [10:15] - Sintomas psíquicos
    Oscilação de humor.
    Longas pausas para reflexão encarando o infinito com a boca aberta.
    Completa desorientação temporal.
    [11:15] - Registro de alucinações
    Elefantes voando.
    Conversa com Deus.
    Criação de asas.
    [12:15] - Manutenção dos procedimentos I
    1 pílula da substância 3, diluído na substância 4, administrado via oral.
    2g da substância 2 administrada de forma fumófita.
    [13:15] - Atualização dos parâmetros
    Temperatura: 38,5°C
    Pulso: 119 bpm
    Pressão: 15\11
    Respiração regular.
    Foco expandido e infinito.
    [14:15] - Sintomas físicos
    Descontrole parcial dos movimentos.
    Atividade das glândulas sudoríparas em evolução constante.
    Olha distópico.
    [15:15] - Sintomas quânticos
    Choro compulsivo.
    Captação de energia extra-sensorial através da emissão de grunhidos.
    Dispersão de raios gama e manipulação da luz.
    [16:15] - Sintomas psíquicos
    Comunicação com o mundo via espasmos ritmados em Lá.
    Criação de realidades paralelas e multiplicação de personalidades.
    Descolamento total da imaginação.
    [17:15] - Registro de alucinações
    Paredes derretendo.
    Chão afundando.
    Telhado voador.
    [18:15] - Manutenção dos procedimentos II
    1 comprimido da substância 5 administrado via sublingual.
    40ml da substância 4 administrada na forma líquida.
    2g da substância 2 administrada de forma fumófita.
    [19:15] - Atualização dos parâmetros
    Temperatura: 38,5°C (estável)
    Pulso: 122 bpm
    Pressão: 9\7
    Respiração lenta.
    Total perda de foco.
    [20:15] - Sintomas físicos
    Tremedeiras constantes por todo corpo.
    Glândulas sudoríparas alucinadas.
    Relaxamento completo dos músculos e movimentos congelados.
    [21:15] - Sintomas quânticos
    Experimentação de sensações extra-corporais.
    Percepção interestelar da força das galáxias.
    Liberação intensa de calor via anal.
    [22:15] - Sintomas psíquicos
    Letargia paranóica delirativa.
    Concepção de ideias sem sentido combinado com movimentos aleatório dos membros.
    Sorriso estampado na cara.
    [23:15] - Registro de alucinações
    Não foi possível diferenciar as dimensões.
    [00:15] - Procedimento encerrado
  • Fatos Cotidianos 15 - Zé Ninguém [conto]

    [cena do crime]
    - Dois tiros no peito e um na cabeça. Não foi de longe. Espirrou sangue para todo lado.
    - Foi a queima roupa. Dois no peito para cair e um no meio da testa para ter certeza. Foi execução.
    - A execução de um viciado. Tem cachimbo usado para todo lado aqui. Talvez um acerto de contas.
    - Alguma testemunha?
    - Nem a gente estaria aqui se não estivesse fedendo. Foi um guarda fazendo ronda que sentiu o cheiro, remexeu aqui e achou o corpo.
    - Quem é o vapor dessa área?
    - O Néquinho. Vamos atrás dele.
    [beco do centro]
    - O cara era um nóia. Vivia perambulando por aí enchendo o saco dos outros. Tinha mais gente querendo matar ele do que gente querendo salvar o mundo.
    - Qual era o nome dele e a quanto tempo ele estava nessa merda?
    - Quem chamava ele de alguma coisa que não fosse nóia chamava de Cheiroso. Tava se matando aqui a mais de ano. Não tenho ideia de onde ele veio.
    - E quanto ele te devia? Que servicinhos ele fazia para te pagar?
    - Eu tenho cara de BNDS, meu chapa? Acha que eu dou crédito para qualquer nóia? Para mim ele não devia nada. Nem sabia que tinham deletado ele.
    - Você tem cara de vagabundo, e não me confunda com os seus “chapas”. Precisamos de mais do que isso para você não precisar de um advogado.
    - Calma aí. Sei lá, o cara vivia de pedir, roubar e pedra. Morava na rua. Fedia. As Tias tinham medo. Não ia ser a primeira vez que os donos das lojas se unem para resolver um problema. Quer saber, é mais fácil ter sido um de vocês do que um dos nossos.
    - Fica esperto que qualquer hora dessas o problema pode ser você.
    [bar do centro]
    - O que temos da cena do crime?
    - Se mandarmos as balas para a balística podemos ter um resultado daqui uns dois meses dizendo que era um três oitão sem registro. O ferimento de entrada diz com letras luminosas: 38 sem origem, registro ou estrias. As únicas provas de que ele existe estão cravadas no corpo. A bala no meio da testa grita: execução. Quer voltar lá e procurar cabelos nas roupas dele ou verificar as gotas gravitacionais? Vamos colher DNA de debaixo das unhas também?
    - Podemos enviar para Abby junto com o molde da sola de sapato na poça de sangue do lado dele. E as digitais?
    - A gente processa no super laboratório da Abby. Ou talvez seja melhor mandar pro Grissom. A Srta. Sutton está sobrecarregada com DNA, cabelo, sangue, foto e tudo mais.
    - E a autópsia?
    - É onde ele vai ficar antes de ser enterrado como indigente. São uns 20 dias, certo?
    - Putz, que merda. Porque no meu turno? Na sexta. Eu não vou fazer a papelada disso.
    - Tudo bem, mas o próximo é seu.
  • FUI TESTEMUNHA DE UMA CHACINA

    Lembro claramente daqueles olhos a me encarar, brilhantes e azuis como o céu, frios de fazer tremer a alma. A última coisa que pensei foi: “Essa será minha última respiração”. Não aconteceu comigo como vejo os outros dizerem, que a vida passa como um filme na hora da morte, não, comigo foi um medo e uma ansiedade sem fim, podia ver refletido nos olhos dos outros dois o mesmo medo, antes daquele barulho ensurdecedor e depois a morte.
         Não sei o que foi pior testemunhar, se o medo antecipado ou a própria morte refletida em seus olhos sem vida.
         Ele era o rapaz mais bonito da minha rua, sempre via as moças suspirarem e falarem dele, mas nunca dei a devida atenção ao que diziam. Chamavam de “boy”, sempre bem vestido e educado, cumprimentava a todos com cortesia de uma pessoa simpática. Sua casa tinha muros altos, não se via como era por dentro. Muito discreto e sua família era do mesmo jeito, eram tão artificiais quanto ele, eu tinha a impressão que apenas representavam, era intuição.
         Como sempre trabalhava não percebia nada de estranho naquelas pessoas, até aquele dia. Jesus como foi ruim!
        Saí do trabalho tarde demais naquele dia, corri quanto pude para chegar a tempo na escola, mas não consegui, o portão estava fechado e não me deixaram entrar. “Merda, atrasada novamente”, pensei. Resolvi ir andando para casa, estava cansada e pensativa e por isso me distraí, logo estranhei o silêncio da rua, não era comum aquilo na periferia, algo não ia bem. Fiquei tensa e todos os meus instintos em alerta. Foi aí que aconteceu.
         Os três meninos vieram correndo em minha direção, os três com armas na mão. Vi o desespero deles e soube naquele instante que eles fugiam da morte. Conhecia os meninos desde sempre, vendiam na  esquina e viviam do corre.
         Naquele momento não consegui reagir, não sentia minhas pernas era como se elas estivessem enraizadas ao chão. Queria correr, mas estava pesada demais. Segundos de decisões, não quero morrer preciso reagir, era a voz em minha cabeça. Olhei para o lado e busquei uma saída, vi um beco que tinha um escadão deserto e meio destruído, com muito esforço subi para me esconder, nesse beco havia uma casa em construção, assim que a vi soltei os livros e entrei. Corri até os fundos e me abaixei no cantinho, eu tremia, tremia muito. Não demorou e logo ouvi tiros, passos apressados e gritos, não queria ver nem ouvir nada, mas meu corpo não obedecia minha mente e tive que assistir a tudo.
        Dois dos meninos já desarmados e sangrando entraram na construção, um chorava e o outro veio andando de costas até esbarrar em mim, esse menino virou e me olhou, pude ver sua alma gritando através de seus olhos, secos e desesperados diziam para mim que iríamos morrer. Ouvi o tiro e ele olhando para mim caiu, continuou me encarando derrotado, a morte o levou.
        De muito longe ouvi uma voz que falava zangado, aos poucos virei minha cabeça para aquele som que dizia: “Ah, não acredito. Veja o que você fez seu verme, sujou todo o rosto da menina”.
         Quando olhei naquela direção veio o reconhecimento, vi os olhos azuis do rapaz mais lindo da rua, ele se abaixou perto de mim e me pediu desculpas. Pensei: ele vai me matar agora. De repente um barulho me chamou a atenção, o outro menino que chorava agora estava descalço e se arrastava sangrando, porém ele apontava uma arma para mim, não entendi mais nada, por que eu?
         O rapaz bonito levantou-se e olhou para o menino ensanguentado, disse: “Larga a arma seu lixo, sabe que vou te matar”. Em resposta o menino me olhou raivoso, senti o ódio em suas palavras: “Essa cadela assistiu a tudo e nem pra gritar presta”, depois o tiro, depois o líquido quente descer no meu rosto, depois o frio. Quando olhei para o rapaz bonito, ele estava em cima do menino caído, ouvi um tiro, dois, três, perdi a conta quando tudo apagou. Mergulhada na escuridão ouvi uma voz distante que dizia para que eu não morresse, “morre não mocinha, você tem que estudar e sair daqui”....daí mais nada, acabou.
         Quando acordei estava no hospital, pois é não morri. Nem eu mesma acredito. Não sabia o que estava fazendo ali, aos poucos comecei a recordar, o medo de tudo voltando, parecia que tinha tido um pesadelo, não poderia ter sido real, era macabro demais. Porém ao perceber que havia policiais em meu quarto, caí na real, aconteceu sim, comecei um choro compulsivo. Eles me disseram para ficar calma, haviam me encontrado caída com meus livros naquela casa em construção, juntamente com três mortos, um na entrada e dois no mesmo cômodo que eu. Tinham recebido uma ligação anônima informando um tiroteio com uma moça sobrevivente. De imediato queriam saber o que eu lembrava, mas eu estava em choque. Os médicos avisaram que eu não tinha condições naquele momento de falar.
        O medo cresceu ao me dar conta que eu era a principal testemunha de um crime, uma pessoa marcada para morrer. Por que não morri? Era algo que eu me perguntava todos os dias, nunca entendi essa maldita sorte. Levei um tiro na cabeça e não morri, ele passou de raspão, não afetou em nada, sobrevivi.
        Quando voltei para casa minha tia disse que todos os dias, aparecia um rapaz muito educado perguntando por mim. O medo voltou rapidamente e fiquei pálida. Lembrei-me daqueles olhos azuis que me encararam na hora da minha morte. Não saí de casa, fiquei isolada de tudo, repetia sempre que não me lembrava de nada, a polícia insistia, foi pior que morrer.
         Logo começaram a ligar em casa, ameaçavam, queriam saber quem matou os meninos do corre, não era a polícia, era o crime que queria cobrar vingança. Eu estava sendo pressionada de todos os lados, não suportava mais.
        Passando os dias fui tentando me acalmar, não tinha o que fazer, já estava feito. Certo dia minha tia conversando comigo, pediu que eu fosse aquela casa em construção, tentar recordar, não queria, mas de tanta pressão fui. Quando vi já estava dentro daquela casa, fui ficando sem ar, minhas pernas ficaram moles e veio o medo, medo que congela. Senti cansaço, queria correr dali, mas não pude. Ouvia vozes falando comigo, me perguntando coisas, não falava, só ouvia e olhava aquele lugar muda, foi quando ao me virar para sair o vi. Em pé no canto usando uniforme e capuz, estavam àqueles olhos azuis, não eram outros olhos, reconheci o gelo, e um aviso mudo, não gritei apenas caí numa escuridão.
         Como um fantasma ele me seguia, podia sentir sua presença em qualquer local que eu estivesse, aparecia do nada e eu sempre fugia, eu sabia que uma palavra errada e eu morreria. Não havia nada que eu pudesse fazer, ele tinha um uniforme.
         Tentei recomeçar minha vida, voltei à escola, mas nada estava igual, perdi o interesse e não conseguia me concentrar em nada, na hora da saída foi o mais difícil, o medo me consumia. Depois de uma semana decidi que não iria mais estudar, precisava fugir daquilo tudo, estava sufocada demais. Num impulso fui até a esquina comprar com os meninos. Estava lá ansiosa e apreensiva, nunca pensei em fazer nada disso, mas o medo, a angústia e o desespero faz a gente agir como louco.
         De repente parou um carro, alguns uniformes saíram de lá, gelei quando reconheci quem estava ali, o assassino. Os meninos da esquina correram, eu não pude, não tive chance. Ele me pegou pelo braço com mais dois, me colocaram dentro daquele carro, eu tremia sem parar, só pensava que agora não tinha jeito, eu ia morrer. Porém com o medo da morte também veio à libertação, porque assim como tinha medo de  morrer também passei a desejar a morte e assim me libertar daquilo que vivia, dizia a mim mesma: “não vou mais ter que esperar, agora acabou”.
        Não, não, não morri.
         Depois de ouvir por duas horas vozes e vozes, fui colocada em um ônibus para algum lugar, com a sentença de sumir e viver, fui embora com uma caixa de segredos e motivos.
         Nunca mais voltei.
  • Homem (a)mar

    No coração que era calmaria
    Você chegou
    Trazendo teus ventos
    Soprando-os na minha nuca à velas
    O amar se fez tormenta
    Os corpos colocaram-se a desaguar

    Me perdi

    Tudo virou mar
    Mas, assim como tempestade
    Você passou
    Me deixando na imensidão do oceano
    Apenas com memórias mareadas
    Olhos marejados
    Levando minha bússola e meu norte
    Foi procurar em outro cais porto para se ancorar

    Resisti

    Peguei meu bote e minha coragem
    Icei as velas do meu coração
    Me pus a remar
    Sem saber para onde
    Apenas com a certeza
    Amar não é preciso.
  • Kid Neb

    As vezes gosto de evitar pensamentos como: “o que eu tenho que fazer hoje?”. São pensamentos que me fazem invernar num labirinto de tempo perdido e futuro curto e indeterminado que me conduzem a acreditar que não há solução para os problemas da humanidade. Não sei se um ser como eu é capaz de enumerar todos os problemas da humanidade. Talvez eu não seja capaz de enumerar todos os meus. Apesar disso me parece um fato que os problemas existem. Os meus e os da humanidade, e olhando daqui não parece que algo possa ser feito para resolvê-los. Nesse momento estar vivo parece um fardo que não vale a pena carregar. Talvez seja a hora de acreditar num Deus todo poderoso que vai me redimir dos meus pecados e abrir as portas do paraíso para mais uma alma vítima das futilidades da vida terrena. Chegou a hora da grande revelação Senhor. Estou pronto para recebê-la jogado num colchão da grossura do meu punho seco e cansado de esmurrar ponta de faca. Minha vida só poderia ser pior se eu tivesse usando um terno e uma aliança no dedo. Mas isso não é consolo, se parece mais com uma desculpa para um romance barato.
    O café requentado de ontem ainda serve para liberar meu intestino do peso das minhas merdas que ele carrega. Toda vez que sento na privada para cagar sinto que ainda resta em mim um fio de dignidade pela qual vale a pena lutar, mesmo que ele pareça jorrar pela minha bunda como as cachoeiras do Niágara. Não sou muito diferente de um burro no que diz respeito às posses e aos direitos, se é que é possível que um burro tenha posses e direitos. Mas ao menos não saio por aí na rua cagando com o cu frouxo como se nem estivesse percebendo a bosta se espatifar no chão. Eu sinto tanto ela sair que às vezes preciso colocar uma parte para dentro de volta. É toda dignidade que consegui preservar depois de todos esses anos. E mesmo assim ela dói como um parto, mesmo que eu nunca vá saber como um parto dói.
    Depois de olhar, minuciosamente, cada grão de poeira que repousa calmamente por toda parte da casa, de pensar profundamente sobre todo conhecimento que ele carrega sobre o mundo, por todos os lugares que passou, coisas que viu e experiências pela qual passou, conclui que o melhor que poderia fazer para atenuar esse sentimento de perda permanente que preenche o meu vazio era ir para o Bar do Jaime. A forma como eu andava, as roupas que usava, a cara amassada, os gestos compulsivos, tudo me denunciava como um ser humano esquecido por Deus e mau dito pela sociedade. “Você esta fedendo.” “O cheiro não é meu, é do bar.” Se aquele velho safado não tivesse o controle das garrafas que ficam atrás do balcão poderia até ser que fôssemos iguais. Coloquei meu chapéu de lado no balcão e mostrei uma nota de vinte para poder ser identificado como uma cidadão com direito a beber qualquer coisa que eu quisesse beber. Sem demonstrar nenhum tipo de gratidão o Jaime colocou um copo de conhaque e uma cerveja na frente. “Não tem troco.” “Eu pego o resto em líquido.” Ele ficou me olhando como quem deseja profundamente que outro alguém desaparecesse numa passe de mágica, mas não foi o suficiente para evocar alguma entidade capaz de me fazer sumir. Talvez Deus e o Diabo também não dessem a mínima para ele. Agora sim parecíamos iguais.
    Barulhos de pneu derrapando e tiros começaram a invadir todo lugar com o cheiro de pólvora, gasolina e borracha queimada. O Jaime deu três passos para o trás e ficou com o sossega malandro ao alcance das mãos. O silêncio se instalou pelo bar e os olhares se voltaram para a porta. Um covarde entrou no banheiro para fugir pelos fundos. Continuei olhando para baixo na esperança de que nada que pudesse abalar minha vida miserável passasse por aquela porta. Três caras usando casacões de couro e chapéus com as pontas amassadas entraram no bar rindo como se alguém tivesse contado a piada mais hilária do século. O Jaime veio andando a passos curtos na direção do balcão usando o sossega malandro para se escorar, mas de um jeito que deixasse bem claro que ele tinha culhões. “Pode ficar tranquilo velho, só nos de três doses de alguma coisa quente.” Sem desfazer a cara de carrancudo ou pronunciar uma palavra o Jaime colocou os copos em cima do balcão. “Então velho, onde ficam as mulheres dessa cidade?” “Ei, Clint, nessa cidade só tem gambas….as mulheres tem pelos nas tetas…” (risos) “Aqui é só um bar, acho que o que vocês procuram fica a leste na estrada.” Não havia o menor sinal de tranquilidade nas palavras do Jaime.
    Também não havia o menor sinal de que os três fossem pegar a estrada para o leste. Tirei o copo do balcão em direção a minha boca, ávida por se manter fechada, quando o dito Clint amassou o que restava do meu chapéu com um soco. “Ei fedorento, sua mulher tem pelos nas tetas? Ow, você não tem uma mulher...” (risos) Não deviam mexer no chapéu de um homem. É como se toda aquela dignidade que eu coloquei de volta para dentro de manhã subisse como um raio direto para a cabeça. Saquei a 22 escondida no meu bolso e acertei a cara do bastardo. O Jaime pulou do balcão e começou a marretar a cabeça de um dos escroques com o sossega malandro, enquanto eu avancei na direção do segundo com uma joelhada no seu saco e uma série de coronhadas na sua cabeça. Ele caiu no chão se retorcendo. Era o único dos três que ainda se mexia, então dei o tiro de misericórdia. Senti que minha dignidade estava escorrendo pelas minhas pernas na forma de um líquido quente e viscoso. Peguei meu chapéu e voltei para casa em passos curtos.
  • Memórias de um empurrador de árvore [conto]

    Nunca entendi porque a Cláudia não gostava de comer queijo ralado barato. O macarrão podia ser uma massa qualquer de ovos, o molho de saquinho com catchup, a salsicha podia ser qualquer uma, mas o queijo tinha que ser faixa azul. Se não fosse o legítimo ela não comia e ficava emburrada. Era quase uma afronta. Uma vez o pai dela disse que ela era igual a mãe dela, só queria coisa de marcas famosas. Mas isso nunca fez muito sentido. Ela adorava chocolate ruim. Cheguei a gastar mais com essa exigência que com todos os outros ingredientes da macarronada juntos. E estamos falando de um momento da vida onde comer uma barra de chocolate ruim era um luxo.
    A gente se conheceu na faculdade. Eu fazia administração e ela publicidade. Na verdade foi trabalhando. Ambos precisávamos de uma bolsa pra viver, e a biblioteca precisava de monitores. No alto dos meus 19 anos nunca tinha estado tão perto de alguém como a Cláudia. Vibrante, bonita, inteligente, confiante. Queria passar o resto da vida com ela. Não tenho a menor ideia do que ela via em mim. A gente ficava conversando a maior parte do tempo sobre os problemas da minha família, e eles não eram interessantes. Mas ela dava risada, e eu também. Nós estávamos nos tornando amigos, e aquilo me enlouquecia.
    Nunca tinha tido um namoro sério. Tinha ficado com cinco garotas na vida e transado só com uma. A Camila era uma amiga da escola. Nenhum de nós dois tinha uma segunda opção, então a gente acabou ficando umas vezes. Era estranho. Nós mal nos falávamos na escola, mas no fim do churrasco a gente sempre acabava se beijando. Transamos no dia da festa de formatura, mas só eu era virgem. Tudo foi muito estranho também. Na cabine do banheiro do salão onde era a festa. De repente ela abriu minha calça e montou em cima de mim e eu tava todo gozado. A Márcia, que era melhor amiga dela, estava transando com o Carlos na cabine do lado. Pensando agora acho que elas tinham combinado tudo aquilo.
    Enfim, mulheres não eram minha especialidade. Não sabia muito bem o que fazer com a Cláudia. Passei horas pensando em como ia convidar ela para um encontro. Depois de um tempo que a gente estava namorando ela me contou que sempre esperou eu convidar ela para sair, chegou até a pensar que eu não queria nada com ela. Lembro que em uma sexta-feira cheguei decidido. Na quinta a tarde tinha perguntado para ela se ela ia numa festa de república que ia ter na sexta. Ela tinha dito que não sabia, que ninguém tinha chamado ela. Mal dormi aquela noite arrependido de não ter convidado ela aquela hora.
    Apesar de toda a minha certeza passei a maior parte da manhã me escondendo dela com vergonha de mim mesmo por ter vergonha de chamar ela para festa. Até que uma hora ela sentou do meu lado na bancada e falou: “Você tá fugindo de mim?” Respondi tremendo e suando: “Não, estou pensando numa forma de te convidar para ir comigo na festa hoje.” Ela riu e disse que “sim”. Eu ri e disse “que legal”. Passamos o resto daquele dia sem se falar direito. As vezes a gente se olhava e ria, o que para mim significava que eu estava no caminho certo.
    Combinamos de se encontrar num posto de gasolina perto da republica onde ia ser a festa. Tinha me oferecido para passar na casa dela, mas a Cláudia que sugeriu o posto e só concordei. Na festa a cerveja quebrou todas as nossas barreiras de timidez e vergonha antes da segunda lata. Nenhum de nós dois era muito acostumado com bebida e rapidinho já estávamos rindo de qualquer coisa que qualquer um falasse. Até dancei com ela e algumas amigas dela umas músicas toscas para parecer descolado. Não demorou muito para a gente começar a se pegar pelos cantos.  
    Não sei dizer muito bem como chegamos a conclusão de que íamos para casa dela, mas nós fomos. A garota que morava com ela estava vendo um filme com o namorado na sala, e quando percebi já estávamos os dois pelados se agarrando compulsivamente na cama dela. Estava louco de tesão. Só subi em cima dela e comecei a bombar o mais rápido que conseguia. Ela gemia cada vez mais alto e quando ela gritou que ia gozar meu pau explodiu e esporrei em cima dela toda, e na cama depois que ela começou a desviar. Peguei minha cueca e tentei limpar ela, mas ela foi tomar um banho. Me vesti e fiquei deitado vendo aquele teto girar.
    Depois disso namoramos por quase quatro anos. Aprendi que além de queijo faixa azul a Cláudia gostava que eu gozasse dentro da camisinha para evitar a sujeira. Isso faz um bom tempo já. A gente se formou, ela foi fazer mestrado na Europa e eu passei num concurso público. A última vez que vi ela foi um pouco antes de ela viajar. Trocamos dois ou três e-mails nos primeiros meses. Ela tinha tido uns problemas pra se adaptar mas logo ficou bem. Nunca mais tive notícias da Cláudia nem daqui e nem de lá. Outro dia acho que cruzei com ela na rua. Ela não me reconheceu. Também não tenho certeza se era ela.
  • Mosca morta em movimento linear uniforme [conto]

    Droga. Minha vida continua. As marcas na cara dizem que alguém tentou dar cabo dela ontem a noite. As dores no corpo gritam que tento fazer isso faz tempo, e nem isso eu consigo. Mas ao menos cada dia estou mais perto. O sangue no vômito é uma prova incontestável. Não consigo achar motivos para sair da cama. Se eu fosse o Iggy Pop todos os meus problemas estariam resolvidos, mas eu não sou. Então vou ter que continuar enfiando a mão na merda até tirar alguma coisa que salve a minha vida dessa desgraça miserável, ou ela acabe. Será que eu precisaria viver se não tivesse contas para pagar? Vou fazer um café para ver se encontro alguma coragem para encarar o mundo lá fora sem ter um surto de loucura e desespero. Ainda há cigarros, então há esperança. Tem um pedaço de queijo na geladeira, não contava com isso. Sinto a mão de Deus aqui.
    Rumo para o bar do Jaime como um rato condicionado num estudo de Skinner. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei quem foi B. F. Skinner e o que ele fazia nos verões passados com as suas cobaias. Não sei onde a filha do Jaime passa as tardes, mas ela nunca está por aqui. Ele não consegue disfarçar todo o desprezo por mim e o resto da humanidade. Coloquei uma nota de dez no balcão e colhi uma garrafa de cerveja e uma dose de pinga. “Eu estive aqui ontem a noite?” O velho carrancudo franziu a sobrancelha e começou a suar. Entendi como um sim. “Preciso de trabalho. Você está sabendo de alguma coisa?” Ele pegou um pedaço de papel e escreveu um endereço.
    O lugar era um armazém gigante ali perto. As portas estavam abertas, e um tipo Vic Vega andava de um lado para o outro com um copo de refrigerante numa mão e um cigarro na outra. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu também assisto aos filmes do Tarantino. “Quem te mandou aqui?” “O Jaime, do bar. Perguntei de trabalho e ele me deu seu endereço.” “E você aguenta o trabalho pesado?” “Se eu não aguentar você não me paga.” “Fechado. São cem mangos. Espera com o resto ali que o trabalho já está chegando.” “Tem um cigarro?” O cara ficou me olhando como seu eu tivesse falado qualquer coisa absurda, tipo, você chupa pinto? “Não.”
    Fui me juntar aos outros. Fiz um sinal e o camarada com cara de marinheiro sem navio me deu um pouco de tabaco e um guardanapo de lanchonete. Éramos seis. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei que esse é um livro do Maria José Dupré adaptado para a televisão e o cinema, mas não tem nada a ver com o contexto aqui. Sei o que é contexto também. E estamos falando só de seis pessoas que não falavam nada, e a maioria preferia ficar olhando para baixo a maior parte do tempo.
    Três caminhões refrigerados entraram no depósito ao mesmo tempo que o metido a chefe que não era chefe de porra nenhuma gritou: “Vamos cambada de vagabundos. Chegou o trabalho.” Eles abriram as portas e entre as carcaças mortas e penduradas por um gancho havia caixas com sabe-se lá o que. “Vamos seus preguiçosos, todas as caixas para fora. Rápido.” Alguém tirou um par de tábuas de madeira de não sei da onde e fez uma rampa no primeiro caminhão. Cada caixa devia pesar uma duas toneladas. Ok, não eram duas toneladas, foi só uma ironia. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei usar figuras de linguagem.
    Tinha um moleque tosco que queria provar alguma coisa para não se sabe quem. Enquanto todos os outros vagabundos fodidos descarregavam uma caixa ele descarregava duas. Quando começamos o segundo caminhão tinha a sensação de que não ia conseguir chegar até o fim daquela empreitada. O Vic Vega apareceu na frente da rampa e gritou para mim: “Ei, estorvo, se não aguentar eu não pago, lembra?” Os tiros começaram enquanto ele ria. Um o acertou em algum lugar e ele caiu. Me escondi no fundo do caminhão e só escutava gritos, tiros e o estalar dos metais. De repente o caminhão começou a se mexer, saiu do galpão e acelerou sem dó pela rua.
    Me sentia como o Eddie Murphy nas primeiras cenas de Um tira da pesada I. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, e ter desperdiçado a adolescência assistindo Sessão da Tarde, mas e daí caralho? O caminhão parou me lançando para o chão e o fundo do baú simultaneamente, confirmando violentamente todas as leis de Newton. Foda-se se eu sei ou não as três malditas leis de Newton. Sai correndo e pulei no meio do trânsito. Era um semáforo. Escutei a porta da cabine do caminhão abrir e um grito de “Ei!” e corri como nunca meio abaixado até conseguir virar a esquina. Me certifiquei de que não estava sendo seguido e percebi que estava todo cagado e mijado. As pessoas desviavam de mim e eu tremia como uma máquina de lavar roupas velha. Fui para casa antes que alguém me oferecesse ajuda.
  • Nadando numa piscina de bolinhas [conto]

    Quando entrei na sala estava tudo acontecendo ao mesmo tempo. A Dani e o Rato tavam se pegando no nível novela das 23h num pufe no canto. Não era exatamente o que mais me chamou a atenção numa primeira olhada. O prato com duas giletes e vestígios de um pó branco que repousava em cima no criado mudo perdido no canto do sofá, do lado oposto a eles, brilhava nos meus olhos. “Tem mais daquilo no prato?” A Sheila olhou para mim com um sorrisinho do mal e tirou um pino do meio do peito e chacoalhou. Peguei o prato e ela jogou uma pedrinha branca nele. Triturei e separei em dois tiros. Ela primeiro e depois eu. Raspei todo prato e tirei mais um tirinho. Peguei um copo abandonado do lado do prato com alguma coisa com pinga e estava começando a ficar pronto.
    Lá no fundo estava tocando alguma música. Era um batidão com uns riffs de guitarra que não conseguia distinguir muito bem. A Sheila tentava me explicar todos os problemas dela com o pai dela, ou o contrário. “Sei que parece ridículo, mas era importante para mim. Não ia mudar nada, mas era importante para mim.” Não podia fazer muita coisa além de dar um apoio moral. “Família é foda.” E tinha tanta gente rindo em volta, entrando e saindo de todas as portas, que ficar ali escutando lamúrias enquanto o pó atingia violentamente o lóbulo frontal me fazia sentir como se o fim estivesse próximo. “Vamos andar por aí. Quero ver a galera.” Com uma cara de ‘eu tenho pó para a gente cheirar a noite inteira’ ela veio atrás de mim.
    Passando pelo corredor vi o Zé, a Mari e o Canário cortando um pedacinho de papel bastante suspeito. “Vai sobrar um quarto, quer?” “Corta em dois que divido com a Sheila.” “Tô de boa.” Dei uma golada no veneninho que tava carregando e passei ele pra frente. Depois coloquei o papelzinho debaixo da língua e fiquei só escutando a conversa para não correr o risco de ver o pedacinho do céu voar da minha boca numa risada inocente. “Gente, é como o Spud diz em Trainspotting 2, primeiro vem a oportunidade, depois a traição.” “Aqui não tem amigo, é tudo colega.” “Também não é assim, mas droga não é pão.” Aquilo tudo me parecia lavagem de roupa suja, e eu nem sabia de quem eram os trapos. Dei um pega no baseado que estava rolando, passei para Sheila, deixei ela lá na discussão e fui para os fundos.
    Surgi no quintal e a Paula veio correndo lá detrás gritando meu nome e se jogou em cima de mim. Perdi completamente o referencial e caímos os dois no chão rindo. Ficamos lá rolando e se trombando um no outro. O mundo girava para cá e para lá batendo meu cérebro como um liquidificador. Eu virava a cabeça para a esquerda rapidamente e sentia meu crânio puxando o olho para o lado quando travava o movimento e me virava para o outro lado. Era uma coisa tipo Helter Skelter dos Beatles com Cocaine do Clapton. A hora que levantei percebi que todo mundo ria da gente. A Paula me abraçou e me deu um beijo, mas acho que ela não estava preparada para minha língua. De repente ela se afastou, tossiu duas vezes e começou a vomitar.
    Talvez devesse ter feito alguma coisa, ou ter tido uma reação melhor que colocar a mão na cara e sair de perto rindo como se não tivesse sido a boca que eu beijei. Mas talvez fosse uma resposta da minha mente aos ataques de C16H16N2O2, ou a falta de foco da minha visão, mas não pareceu tão nojento quanto uma transcrição pode fazer parecer. Foi mais como se cada momento daquele fosse ser lembrado com glória e nostalgia quando eu fosse velho e pensasse nos bons tempos. Foi fantástico me sentir ali, vivo, vivendo in loco aquela história que eu contaria o resto da vida. A consciência de tudo isso era coisa do pó. Cheirei muito lendo Holden Caulfield tentando racionalizar os momentos simples da vida em cento e vinte e poucas páginas. Por isso que às vezes eu fico assim, pensando que tudo é histórico.
    A Sheila apareceu com mais uma rodada de farinha no prato. Não sei mais exatamente o que estava fazendo efeito, mas ao mesmo tempo em que me sentia leve não era fácil para a cabeça carregar o resto do corpo. Tinha um copo na minha mão e não sabia do que se tratava. Dei uma golada e vi que era forte. Foi quando me toquei que estava na cozinha, tentando me escorar na pia enquanto a Nati falava alguma coisa sobre a Bebida Púrpura do  Hans-Thomas ser, na verdade, uma espécie de morfina. Aquilo pareceu pesado demais até mesmo para mim, que saí de fininho e tentei me esconder no canto do sofá.
    Agora me sentia perto do Perfect Day do Lou Reed. Tudo já era só uma lembrança vazia de tempos que nem existiram. Esse vácuo de sentimento desceu para o meu estômago e começou a assar. Minha boca secou como se eu tivesse mastigado um rodo mop. Estiquei o braço e peguei uma lata de cerveja quente esquecida ao meu alcance. Respirei fundo, dei um gole, fiz um bochecho e deixei a mistura descer. Fui soltando o ar aos poucos para poder controlar qualquer reação adversa que aquela insensatez provocasse. Sobrevivi ao primeiro teste, mas o corpo pedia mais. Alguém sentou do meu lado e começou a bater uns tiros numa capinha de CD. De repente os apetrechos estavam na minha frente com alguém me oferecendo um tubo de caneta sem a carga. Mandei tudo para dentro e senti aquele gosto amargo descendo rasgando a minha garganta e abrindo uma marginal de acesso entre o meu nariz e o pulmão.
    Não conseguia mais distinguir se as pessoas falavam comigo ou só entre elas sem nem se darem conta que eu estava ali quase enterrado. Arrisquei mais um gole de cerveja e tentei me levantar do sofá. Fiz tanta força para me manter de pé que me caguei inteiro. Como ninguém falou nada achei que não tinham percebido. Eu era invisível. Mas sentia aquele fiozinho de merda mole escorrendo pela perna e o alívio no estômago que não me deixavam fingir que nada tinha acontecido. Me arrastei até o banheiro, tirei a roupa, deitei pelado no chão e fiquei vendo o teto rodar até tudo parecer que ia acabar bem.
  • Nem a lua nem a Ásia existem

    Camilo acordou na Guiána-Francesa. Estava calor, não havia nada para comer e a água sempre tinha um gosto amargo de remédio. O sol já invadia seus pensamentos e saia em forma de suor. Ele precisava cair fora dali de qualquer jeito, então foi para Noruega, que ficava no quarto ao lado e tinha um clima bem mais ameno. Trabalhou duro por seis meses como pescador de bacalhau, o que lhe conferiu grande autoridade para dizer aos quatro cantos que já tinha visto cabeça de bacalhau. Isso incomodou os Ministério da Cultura local que o mandou embora do país num voo para o Afeganistão. Lá ele se arranjou numa fazenda de plantações de papoula. As flores transportavam Camilo para uma realidade onde não existia tristeza ou dor. Ele aprendeu tão rápido como manipular aquela maravilha da natureza que rapidamente foi elevado ao posto de leão de chácara, se tornando braço direito do Xeique que era dono de tudo. Cavalgava pelo campo estalando o seu chicote toda vez que uma pétala caia sem que o motivo fosse o propósito natural de uma flor, isso é, murchar. Sempre manteve uma postura dura com quem não tratava as flores com o carinho que elas merecem. Até que um motim foi organizado por um refugiado Sírio e ele fugiu por um buraco para a Holanda junto com o Xeique. Chegando lá ampliou seus conhecimentos agrícolas para plantações de maconha. Os dois conseguiram comprar um grande área no sul de Amsterdã e começaram a cultivar a erva em grande escala.
    Seu interesse pela canabis o levou ao consumo. Pensando melhor sobre como conduzia seus negócios decidiu pagar um salário justo aos trabalhadores e não mais usar o chicote enquanto caminhava calmamente pela plantação. Mesmo com o aumento exponencial da produção, suas novas práticas não agradavam seu sócio. Quando Camilo tentou estabelecer um gerenciamento horizontal do negócio o Xeique passou a conspirar contra ele, boicotando a própria plantação com uma praga de spidermites. Depois do fracasso na colheita ele virou hippie e decidiu viver nas ruas do distrito de Haight-Ashbury em São Francisco. Lá começou a tocar violão na rua e conheceu um gaitista chamado Bill. Os dois tocavam na calçada por algumas moedas até que a pós-modernidade os atingiu como uma bala de canhão destroça uma barquinha. De repente Camilo estava tocando nos maiores palcos da América ao lado de lendas como Bob Dylan, Hendrix e cia. Ele fritava no palco. E foi justamente entre Purple Haze e Blow in the wind que ele se perdeu numa pequena cidade do norte, e de lá pegou um ônibus para Chicago, onde serviu de cobaia remunerada para uma companhia farmacêutica testar uma nova droga. Os efeitos colaterais apagaram a segunda metade de sua memória, o que fez ele automaticamente retroceder para a primeira. Camilo se sentia um jovem preso num corpo velho e cambaleante.
    Depois de, pela segunda vez, submeter seu corpo a todas as experiências existenciais possíveis a alguém com vinte e poucos anos, Camilo decidiu que precisava recuperar seu passado. Para isso passou por um ritual xamânico para entrar na toca do coelho e voltar no tempo para descobrir o que tinha esquecido. Ciente de passado, presente e futuro, percebeu que o melhor era não saber de nada. Fugindo de si mesmo ele se isolou num antigo templo religioso no Senegal. Através de Fa Kébeté, um ancestral muito renomado, aprendeu técnicas tântricas de meditação que o levaram a se sentir o próprio Holden Caulfield procurando por seu lugar no universo. Depois de dois longos meses explorando sua caverna interior ele foi apresentado a Ndooy, um sipikat de um vilarejo próximo que tinha o contato dos maiores produtores de yamba do país. Camilo se abasteceu com dois quilos de erva e centenas de sementes e se mandou dali para rumo ao paraíso da Austrália. Arrumou um lugar no deserto onde pudesse plantar suas sementes. Os aborígenes o receberam muito bem, assim como um colono, Stewart, que começou a levar a djamba de Camilo para a Europa as toneladas. O negócia ia tão bem que ele e o inglês abriram uma empresa de transporte de cargas marítimas para poder controlar melhor a distribuição. Mas quando os dois foram surpreendidos por piratas do governo em uma de suas rotas os dois tiveram que pular do navio. Então os dois mergulharam no Atlântico para emergirem no canal do Panamá. Lá receberam o apoio de Noriega para continuarem operando com sua mercadoria através do canal. Estabeleceram a plantação no sul do país e aproveitaram o clima favorável para expandir seus negócios por toda América.
    Numa noite, tendo uma conversa com Stewart, revelou que estava cansado de tudo e que queria ir embora para casa, apesar de não se lembrar de onde ela fica exatamente. O colono argumentou que ele ia perder muito dinheiro, e que poderia ser preso, seja lá para onde quer que fosse. Mas Camilo não queria mais ter que esconder de ninguém o que fazia e porque fazia, e abriu uma igreja para Jah no centro da cidade, onde recebia vagabundos, drogados, doentes e pais de família. Durante os cultos todos fumavam maconha, repetiam o mantra da liberdade e oravam para que uma força sobrenatural interviesse nas suas vidas. Mas a relação de Noriega com o poder azedou, e a guerra e o povo invadiram as ruas. Com medo dos revolucionários que pregavam ordem e progresso Camilo se escondeu no banheiro e, descendo pela privada, chegou até o Brasil e, em plena hora do rush, surgiu de um cano de esgoto no Rio Tietê. Assustado, e sem amigos, se escondeu no mundo debaixo de uma ponte da Marginal Pinheiros, onde foi preso e levado para o Hospital Vera Cruz para tratar seus vícios. Numa manhã de domingo percebeu que nunca havia acordado na Guiána-Francesa.

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