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literatura contemporânea

  • Geração 20's : Não queremos acabar com tudo.

    Uma geração estranha de desasjustados. Os 20,ou 20 e tantos (que há uma margem entre si e uma diferenciação, mas que posta numa escala menor, estão, tanto os 20, quanto os 20 e tantos iguais a uma barata tonta após jatos fortes de SBP de eucalipto) não sabem como proceder, como agir, não param em um emprego sequer. A cada dia, mais amigos me contam que largaram a faculdade, ou que foram demitidos, ou que pediram demissão depois de tanto tempo na empresa, ''cansei, não dá'' ou ''ah amigo, está muito caro.'' e os que trabalham dizem, ''todo dia eu quero me matar'' ou ''diz que um terremoto desmoronou o shopping'' e aqueles felizes com seus trabalhos são Dj's ou fotógrafos e mesmo assim não ganham bem, ou são ricos, pois os ricos sempre estão felizes, se não passa na faculdade um intercâmbio resolve o problema, ou até mesmo uma analista bem cara e bem paga, por que na verdade a única coisa que queremos é estar bem com nós mesmos. 
    Estamos ferrando com tudo por muito pouco, pouca bebida (até mesmo bebidas bem baratas), pouco sexo, poucas drogas e pouco foco no que de fato importa. Conheço pessoas nos 20's que sabem exatamente o que querem e fazem exatamente o que é preciso para conseguir, sem erros, sem falhas, um dia de cada vez, do jeito que tem que ser. Pensando aqui só duas; o resto mais cedo ou mais tarde faz uma cagada específica que ferra com tudo. 
      Nos 20 já desistiram de nós. Já devíamos ter aprendido, já devíamos ter feito aquilo. Na verdade, estamos cansados demais dormindo até ao 12:00, pois na noite anterior juramos pela nossas vidas que 23:30 era o limite para estar na cama; e as 2:30 se dá conta que iniciou o segundo filme, a segunda pipoca ou brigadeiro, e não tem problema, eu acordo cedo assim mesmo para ir trabalhar, eu aguento, um geração de zumbi. Gosto de pôr a culpa na TV, a nossa geração na infância está acostumada a ficar deitada a manhã inteira vendo todos os desenhos possíveis, e nossa Mães (inclusive a minha) secretamente gostavam daquilo, ''pelo menos não está fazendo besteira'' elas pensavam. Na minha casa era um momento religioso, sou o mais novo de 3 meninas e um Poodle, assistir Tv consistia num intervalo de nossas brigas e latidos constantes. Neste cenário, os 20's jamais vai crescer e ter o interesse de pegar no batente as 6:00, ou sentir-se feliz e realizado num emprego de 9:00 ás 18:00 em um escritório que nem a luz do sol é vista; os 20 enfrentam sua primeira crise e divergência e o mundo não tem espaço para crises de identidade, ou depressão, ou ansiedade, apenas o trabalha que cura qualquer enfermidade.
     Um solução? De fato não tenho nenhuma; talvez a culpa seja toda nossa mesmo, ou talvez não. Talvez seja um processo de adaptação á vida adulta; ou muito provavelmente virá um moço com o mapa com as regras e atalhos. O que piora são as expectativas, esperam que sejamos um tipo muito especifico de ser; pacato, mais ou menos; e isso é exatamente a ultima coisa que os 20 que ser. Não queremos pouco, não queremos até o limite, nós queremos intensidade, verdade, paixão, acordar e pensar que tudo vale a pena, queremos viver numa castelo mesmo que seja num camping em ilha grande ou num kitnete no centro da cidade. Até queremos um bom emprego, mas que tenha horários flexíveis, que forme sua equipe de acordo com o mapa astral dos funcionários, uma empresa que entenda o ciclo menstrual feminino e que dê carona em dias de chuva, que leve em consideração a febre do filho de seu funcionário, e que o chame de sócio e não de empregado. Queremos arriscar tudo por uma chance de ser feliz, botar tudo a perder sem garantia nenhuma; entendemos que nossa passagem aqui é breve e que de fato a maior felicidade é viver.
  • 10 coisas que você precisa saber sobre a Marcie [conto]

    1 - A Marcie é a mulher da minha vida.
    Desde a primeira vez que a vi soube disso. Nosso olhar se cruzou num dia mágico na praia e foi como ter uma visão da revelação. Seus cabelos morenos e longos brilhavam com o sol e ela vinha caminhando com leveza. Todo mundo olhava para ela passando, mas foi em mim que ela fixou o olhar e sorriu. Parecia que a gente se conhecia há anos. Ela tinha um sorriso apaixonante que dizia fomos feitos um para o outro. E a Marcie sempre soube disso.
    2 - A Marcie é bonita.
    Não é uma beleza vulgar, dessas carregadas de pó de arroz e batom vermelho bem ajustadas num vestido caro. Ela não precisa ser sexy. É uma beleza pura que vem de dentro. A Marcie é bela de um jeito diferente. Não tem nada haver com a simetria perfeita do seu rosto e do seu corpo macio e cheiroso. Ela emerge do fundo de sua alma e brilha nos seus olhos, se espalha com suas palavras.
    3 - A Marcie é elegante.
    Seu comportamento reflete todo os atributos de uma dama. Seu jeito simples de andar é encantador. A Marcie não precisa de jóias caras e chamativas para atrair toda atenção para si. Sua elegância está justamente em ser notada pela beleza natural. Está no vestido sempre abaixo do joelho ou na calça jeans alta. No seu cabelo liso sem penteados extravagantes.
    4 - A Marcie é inteligente.
    É incrível como ela sabe um pouco sobre quase tudo, e é sempre o pouco mais importante. Ela cursou arquitetura na faculdade. Todas as vezes que conversamos aprendo uma alguma coisa que não sabia, as vezes nem imaginava. Ela é bem informada, leu todos os clássicos da literatura e os melhores romances já escritos, e ainda assim sempre está lendo um livro novo. A Marcie não é desse tipo de sentar na sala e ficar vendo novelas.
    5 - A Marcie não reclama.
    Ela não é daquele tipo que sempre diz que poderia ser melhor ou que só vê as coisas do pior ângulo. Quando fala alguma coisa é sempre positiva. Ela sempre está disposta a ajudar com um bom conselho ou colocando a mão na massa mesmo. Não fica pensando em como poderia ser melhor ou no que está ruim. A Marcie não fica pedindo as coisas, ela vai lá e faz. Ela não é petulante, sabe escutar.
    6 - A Marcie é feliz.
    Seu semblante de paz espelha com exatidão o que é a felicidade. Ela está sempre tranquila e disposta. Não é aquela felicidade boba de quem ri de qualquer besteirinha. É uma coisa genuína de uma pessoa que está de bem com a vida, que sabe como ver o lado bom das coisas. A alegria parece uma coisa natural para Marcie. Ela nunca acorda de mau humor e esta sempre num astral contagiante.
    7 - A Marcie é boa cozinheira.
    Os antigos até poderiam dizer que ela me pegou pelo estômago. Antes de eu levantar ela já fez café e preparou o pão. Pão caseiro, ela diz que na padaria eles não peneiram a farinha, por isso nunca está macio. A Marcie nunca repete o prato no almoço e na janta, e é sempre um mais gostoso que o outro. Os doces são sensacionais, e sua especialidade é o bolo de chocolate. Ela diz que aprendeu suas receitas com a sua avó, e o principal ingrediente é o amor.
    8 -  A Marcie sabe como apoiar um homem.
    Ela tem o time perfeito do que falar, quando falar e como falar. Sabe exatamente a hora certa de fazer as coisas. Está sempre pronta para ajudar e, mesmo nos piores momentos, tem sempre uma palavra consoladora e um gesto tenro para amenizar qualquer tipo de sofrimento. Ela entende a importância do futebol, não me obriga a abrir mão de nada para estar sempre ao meu lado. A Marcie estava sempre preocupada em ter certeza que eu estava bem.
    9 - A Marcie é do bem.
    Nunca vi ela fazer mal nem a uma barata. Quando as via ela, cuidadosamente, as varria para fora de casa. Com a Marcie parecia que tudo sempre ia ficar bem. Ela era voluntária na igreja, na escola, no hospital ou em qualquer lugar onde alguém necessitasse de ajuda. Com ela não havia surpresas, a Marcie sempre ia fazer a coisa certa. A Marcie sempre ouve o que as pessoas têm a dizer com atenção, como se fosse o assunto mais interessante do mundo.
    10 - A Marcie não existe.
    Sou feio, pobre e gordo. Nenhuma mulher nunca me quis. Eu entendo elas. Também nunca ia querer uma mulher feia, pobre e gorda. Por isso criei a Marcie na minha cabeça, para ter uma companhia e poder sofrer de amor como todo mundo. Funcionou.
  • A batalha pela rota do oeste

    A Guerra Civil chegou até onde não havia civilização. Todos os cantos do vasto mundo viviam a luta armada desde a primeira metade do Séc. XXI. Neste contexto não havia alternativa para um homem que não fosse se juntar a Resistência. Então ele podia ter dois caminhos a seguir: soldado propriamente dito, daqueles que pegam em armas e estão prontos a morrer pela vitória, ou contrabandista. Neb era flácido, lento e não sabia usar a Colt 45 que carregava na cintura. Então para ele restou apenas a opção B. Apesar de todo horror da guerra, Neb operava um esquema de tráfico de frutas. O produto não era abundante, mas depois da grande contaminação nuclear das últimas duas décadas do Séc. XXI, a procura também havia caído. Ele mesmo não confiava nelas, preferia as pilulas de proteínas e as gelatinas de carboidratos. Mas elas também não eram abundantes, e vinham do norte, o que dificultava tudo. As frutas vinham do oeste. Ele buscava elas nas montanhas de soldados inimigos que as roubavam da base. Depois vinha por entre as florestas mortas e minadas até uma entrada pelo antigo sistema de esgoto. Neste trajeto ele empurrava uma carroça, mas quando entrava nos canos tinha que carregar caixas. Ele tinha acabado de receber 69 unidades de mamão. Mais treze melancias, 52 berinjelas e duas caixinhas com, raríssimos, 50 morangos. Foram quase dois dias para chegar com tudo no centro nervoso do caos. Como tinha que subornar os heróis da própria Resistência em um certo do ponto do caminho, ele sempre levava primeiro as mais judiadas. Com elas também abastecia o próprio lar e os mais próximos, que não podiam se dar ao luxo de escolher. As melhores iam para os comandantes, que pagavam com o que tiravam dos corpos espalhados pelas ruas ou nas casas abandonadas da cidade.

    Neb estava esperando um cliente num porão de uma construção destruída na Rua 10. Ele chegava pelo esgoto e saia pela porta da frente. Uns quarteirões a frente conseguia outro acesso subterrâneo num prédio bombardeado. “Estamos vencendo, a guerra vai acabar.” O soldado de compras do Coronel reproduzia o discurso típico do Exército Armado Local. “Ela já acabou, mas ninguém percebeu.” “Você pode ajudar a fazer todos perceberem. O Coronel quer que eu te leve até ele.” “Que? Não posso, tenho outros compromissos. Talvez em outro momento.” “Se você não for ele não te paga, e eu levo tudo e não volto mais.” “Meus compromisso acabam de ser cancelados. Vamos passear.” Os dois atravessaram os escombros de algumas casas até chegar num buraco. Mas quatro jovens aguardavam a chegada das frutas e do fruteiro. Dali para frente Neb foi sendo arrastado com os olhos vendados e as mãos amarradas.

    Quando chegaram a um lugar quente e úmido uma porta se fechou e Neb pensou estar sozinho. Na hora que tirou a venda viu um cara parado na sua frente. “Precisamos das suas rotas no oeste.” Aquele rosto não parecia desconhecido para Neb, mas o tom imperativo de voz era novo. Ele ajudou Neb a libertar as mãos. “Não sei do que você esta falando.” “Vamos receber um grande carregamento de armas e monição e uma rota mais desconhecida garantiria a chegada de tudo ao combate.” Ele se parecia muito com o patriarca de uma família que seu avô ajudava muito tempo atrás. Mas eles tinham morrido ou sido capturados, não necessariamente nessa ordem. “Eu trabalho com frutas, não com armas.” “Você trabalha para quem te paga, e eu vou pagar.” Neb tinha mais de 25 anos, o que já o colocava num seleto grupo de sobreviventes. Uma enorme fatia do bolo não passava dos 23, e quem chegasse aos 40 teria atingido o ápice do improvável. Tanto tempo no mercado tinha lhe dado a reputação de barato e suspeito, além de pacifico e otário. “O carregamento chega daqui três dias. Por razões de segurança você não vai poder sair daqui até que tudo se conclua.” “E para minha segurança vou acompanhar tudo só até o ponto de encontro com o fornecedor, então você me dá meu dinheiro e nos separamos.”

    Três dias depois Neb, o Coronel e mais dois soldados cruzavam as florestas mortas rumo as montanhas. Neb não se sentia bem na posição de guia. “Você sabe por quê esta rota funciona há tanto tempo? Porque só eu a uso.” “Vou tentar ser discreto.” Alguma coisa no tom de voz dele não deixava Neb a vontade. “Você não é o único na Resistência a gostar de maçã. Tenho clientes em todos os níveis”. O Coronel olhou com desdém. “Há muito tempo atrás, quando ainda existiam os Abrigos da Resistência para as mulheres, velhos e crianças, um homem me disse para sempre desconfiar de quem diz lutar pela liberdade.” Neb jogou o anzol na água, mas o Coronel não queria papo. Foi um dos soldados que mordeu a isca. “Nunca ninguém dizia nada que prestava nestes esconderijos para covardes.” A ideia de morrer atravessou seus pensamentos deixando rastros de cautela. “Meu pai dizia que é melhor ser um covarde e sobreviver para contar a história.” “Ninguém vai sobreviver.” As palavras do coronel soaram como um sentença de morte para Neb.

    Enquanto eles cruzavam as montanhas o traficante de frutas formulava um plano para fugir antes de chegar ao ponto final da caminhada. Para ganhar algum tempo, e preservar um possível refúgio, ele evitou o caminho pelo pântano. Quando eles chegaram a planície avistaram um espelho brilhando no horizonte como sinal de contato. Neb sentiu que era o momento de agir. Diminuiu o passo até estar mais ou menos dois metros atrás do pequeno bando. No momento em que o primeiro soldado olhou para trás ele, tentando ser rápido como o bote de um escorpião, sacou a Colt do bolso direito e começou a atirar. Como que por milagre cada um dos três disparos atingiu um alvo, que caíram aos gritos de traidor e atirando suas metralhadoras para o alto. O Coronel ainda conseguiu acertar Neb na perna, mas sua bala foi mais certeira se alojando no pulmão esquerdo dele. Antes de morrer ele revelou que não havia Resistência, e que era ele e sua família que haviam entregado a localização do antigo Abrigo da Resistência para as mulheres, velhos e crianças. Neb fugiu chorando para se esconder no pântano.
  • A conta

    Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

    Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

    O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

    Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.
  • A cusparada

    O fato abominável deu-se aproximadamente às três e quarenta de cinco da tarde, numa quarta-feira. Uma instituição de ensino tão distinta como era a Escola Municipal Casimiro de Abreu, no Mendanha, Rio de Janeiro, viu sua honra ameaçada quando, após o recreio, um aluno traquinas cuspiu num degrau da escadaria, enquanto subia para a sala de aula, no segundo andar. Eu tinha, então, onze anos, e, até hoje, aquele dia não me sai da lembrança, pois, nessa idade, fatos escabrosos assim criam marcas indeléveis na nossa mente.
    Passaram-se alguns minutos desde que nos assentamos em nossas carteiras, e o professor não apareceu. Esperamos por mais um bom tempo, e nada. De repente, desponta sala adentro, não o professor, mas o diretor da escola. Estacou-se, sério e mudo, diante da turma.
    - Alguém cuspiu na escadaria - disse ele, fazendo uma varredura com um olhar rasante por sobre as cabeças dos alunos.
    O silêncio era total nesse momento e, se não exagero, paramos também de respirar.
    - Vamos! Estou esperando! Qual foi o engraçadinho?
    A classe permaneceu tão interativa quanto um exército de cera.
    - Já sabemos que foi alguém desta sala. Não adianta esconder! - o diretor começou a andar de um extremo ao outro da sala a passos largos, as mãos às costas, e eu me lembrei de uma figura de Hitler que tinha visto há poucos dias numa Enciclopédia Juvenil.
    Era a penúltima aula do dia, e ficamos até o final desta sem olhar para outro lugar senão para o ir e vir do diretor. Tocou a sirene para iniciar-se a última aula. Atravessamos estoicamente mais cinquenta minutos, e o culpado manteve-se no firme propósito de não abrir o bico. Depois dos tediosos minutos de mutismo e indiferença de nossa parte, ouvimos a sirene soar pela última vez. Que alívio!
    - Ninguém sai! - vociferou o diretor, estendendo os braços, com as palmas postas à frente, frustrando, desse modo, o levantar precipitado das trinta e quatro nádegas que se desprendiam das cadeiras. - Sentados! Onde pensam que vão? Todos comigo para a minha sala lá embaixo, e já!
    A agonia continuou na sala do diretor. Ele assentado em sua cadeira majestosa, as unhas vergadas a capirotar no tampo oco de madeira da mesa, sem falar um “a”, e, nós, mumificados.
    - É muito simples pôr um fim a este martírio. Basta que o culpado apareça - apelou o diretor, a certo ponto da tortura, em que ele próprio parecia não mais aguentar.
    Passou-se o tempo equivalente a mais um período de aula quando, finalmente, assistimos à cena constrangedora de um menino levantar-se e confessar:
    - Foi eu... senhor diretor...
    E, assim, foi o fim do holocausto.
    “Esse cara tá morto”, pensei. E deve ter sido esse o pensamento de todos ali.
    Sem permitir que saíssemos ainda, o diretor chamou o réu confesso à sua mesa e o advertiu de uma forma surpreendente:
    - Cuspir na escadaria é contra as normas da casa. Você sabe disso, não sabe?
    O menino estava com a cabeça mergulhada entre as clavículas e a voz bloqueada na garganta.
    - Sabe ou não sabe?
    - Sim... eu... sim, senhor diretor.
    - Você cometeu um erro, certo? Reconhece, diante da turma, que cometeu um erro? Diga que reconhece!
    - Sim... eu reconheço, senhor diretor.
    - Pois bem, filho. Espero que nunca mais repita esse ato deplorável. Não quer passar por essa vergonha de novo, quer?
    O menino meneou a cabeça negativamente.
    - Aprenda: Daqui em diante você observará melhor sua conduta na escola. E é muito feio não assumir quando se comete um erro. Errar é natural do ser humano, mas não assumi-lo é covardia, é desonroso. E veja que prejuízo pode causar: se você tivesse se levantado e assumido a culpa na primeira vez que perguntei, todos os seus colegas já estariam em casa há muito tempo. Nunca mais faça isso de novo, nunca mais! Agora, podem sair.
    Anos se passaram e, não mais como aluno, mas como professor, e não mais no Rio de Janeiro, mas em Espera Feliz, Minas Gerais, entrava eu na sala dos professores do colégio em que lecionava, e deparei-me com uma professora, colega de trabalho, que acabava de chegar esbaforida, tensa, com uma cara vermelha de quem comeu meia dúzia de acarajés quentes. Perguntei-lhe o que havia acontecido, e ela me respondeu com os olhos arregalados de espanto:
    - Meu Deus do céu... aconteceu uma coisa absurda comigo agorinha mesmo na sala de aula onde eu estava. Sabe o Michael Jackson, aquele garoto de dezoito anos do 3º 2? Pois então, abaixei-me um pouco sobre a carteira dele para lhe chamar a atenção por ter xingado o colega ao lado de “filho da puta”, e ele cuspiu na minha cara! Você acredita que ele teve essa petulância?
    A professora, aviltada até os ossos, não conseguiu entrar naquela sala novamente naquele dia, tomou um Rivotril, passou o caso à Direção da escola e foi embora de ônibus, pois não estava em condição de dirigir. E o que fez a diretora? Aplicou um corretivo no cuspidor? Enquadrou-o no Artigo 331 do Código Penal, que prevê punição para quem ofende, humilha ou espezinha funcionário público no exercício da função? Chamou o meliante para uma lição de moral, assim como fizera o saudoso diretor da Casimiro de Abreu, nos idos de 1981? Dera-se pelo menos ao trabalho de conversar qualquer coisa com o rapaz, qualquer coisa mesmo: uma miudeza de duas ou três palavras de protesto, só para não deixar que ficasse tão evidente a verdade de que ela estava pouco se lixando para o caso? Não. Em vez disso, a professora recebeu uma intimação judicial 20 dias depois, para comparecer ao Fórum 30 dias depois, sendo condenada a três meses de prestação de serviços comunitários por 180 dias depois, e, porque o juiz julgou como bem grave a denúncia que Michael Jackson apresentou contra a professora, dizendo que ela havia sido preconceituosa e o constrangera muito ao dizer que a saliva dele era suja - ora, onde já se viu, só porque ele era “preto”? -, teve seu diploma cassado 181 dias depois
  • A era da reprodutibilidade técnica avançada

    Mirela, Mari, Evandro e Neto estavam ensaiando há semanas. O roteiro era da Mari e do Evandro, e nunca estava fechado. Eles não aceitavam começar a gravar enquanto tudo não estivesse completamente finalizado. Equipe de produção, pós-produção, técnica, tudo definido. Não basta só ter uma super-câmera “D qualquer coisa”, para gravar em HD a beleza de uma pombo cagando em cima de um careca engravatado na Berrini. Tem que ter o som das asas do pombo, tem que ter o barulho da bosta se espatifando na careca lustrosa, dividido em quadros sincronizados com um som angustiante e em ângulos jamais imaginados por Hitchcock. Tem que ter brilho, luz, câmera, ação!
    - Vamos fazer um piloto.
    - E quem vai editar?
    - Eu e a Renatinha.
    - Onde? No Movie Maker? Não…
    - Ela tá com um canal no You Tube….tudo bem, é sobre moda…..mas são legais, e ela tem mais de mil visualizações em um vídeo já….
    - Para com isso…..ela que seja feliz, mas a gente quer fazer uma coisa diferente………..
    - Ela disse que topa, é só pôr o nome dela nos créditos…….e ela divulgaria no canal dela também………..a gente faz, se não ficar bom a gente não sobe na net…….
    - Tudo bem, mas ainda temos o problema do microfone…...só com o da câmera não dá……
    - Para de colocar dificuldade em tudo……...é só um curta de menos de cinco minutos!........você dois estão achando o que?.........que….que….sei lá……..aqui não é o NetFlix!
    - Calma……
    - Um monte de gente grava com uma câmera pior que a nossa, sem microfone, edita no Movie Maker, ou nem edita, e faz umas coisas muito legais……..faz quase um mês que a gente esta ensaiando, já temos o figurino, a maquiagem, tudo…….vamos fazer!
    - Tudo bem, a gente faz um piloto no próximo ensaio.
    Cena 1
    Resumo - Dois caras estão numa mesa de bar no meio da noite. O número um é um taxista (Mari) e o número dois (Evandro) é um jornaleiro. Eles estão tomando suco e comendo um pedaço de bolo enquanto conversam. A balconista (Mirela) fica no fundo mascando um chiclete e fumando um cigarro vendo TV.
    {Som de copos tilintando, pessoas conversando, barulho de televisão e carros passando de fundo.}
    [Câmera em plano médio com os dois sentados na mesa em primeiro plano e a garçonete em segundo plano aparecendo no fundo.]
    (Taxista) - “Sei que não temos muita intimidade, mas eu precisava conversar com alguém…….é que…..sei lá……ultimamente eu tenho visto tanta coisa……..me faz pensar…...que…...sei lá………...essa cidade…..”
    (Jornaleiro) - “Acho que estou entendendo o que você quer dizer……...um tipo de depressão……..todo mundo é feliz menos eu…….algo assim………”
    (Taxista) - “Não sei……..acho que as pesso…”
    (Jornaleiro) - “O que você precisa é se divertir cara………..pega umas minas fáceis, toma um porre, faz uma merdas……..aqui é a democracia……...curte, se diverte……”
    (Taxista) - “Estas foi uma das maiores merdas que eu já ouvi….”
    CORTA! CORTA!
    - Esta ficando bom……….Mirela, eu preciso que você masque esse chiclete como a Sally Sanders na cena do parque de diversões naquele filme com o John Travolta……você esta no fundo, desfocada, tem que ser bem performático para sair bem………..Mari, seja mais deprimida e menos malandro……..você esta bem Evandro, mas não olha para Mari quando você responde, fala meio de boca cheia, olhando para a direção do barulho da televisão……..você não esta se importando muito com o que ele esta falando……..falem mais alto que não temos mic aqui……...vamos continuar da onde parou……..
    Cena 1…...continuação…...ação…….
    (Jornaleiro) - “É isso que os homens fazem…….”
    (Taxista) - “Esse é o problema……...não aguento mais essa sujeira, essa merda de lugar…….essas vagabundas na rua não percebem que são parasitas?........”
    (Jornaleiro) - “Você vive num país livre cara…...se você gosta de homem procure um e seja feliz……..
    (Taxista) - “Cala essa boca seu animal…..não sei porque estou perdendo meu tempo com você……..”
    Fim da Cena 1
    - Talvez tenha ficado legal galera…...vamos arrumar tudo para a próxima……...
    Cena 2
    Resumo - O taxista (Mari) esta na sala da casa de um vendedor de armas (Mirela). Ele tira uma mala debaixo de uma abertura escondida atrás do sofá e os dois começam a negociar.
    [Câmera em plano geral, pegando toda a sala e mostrando toda movimentação dos personagens.]
    {Sons de crianças brincando no quintal do vizinho e adultos gritando.}
    (Vendedor de armas) - “Eu tenho tudo que você precisa…...armas, munição, coletes a prova de bala……..”
    (Taxista) - “Eu quero uma Magnum 44 com seis balas……”
    (Vendedor de armas) - “Esta aqui esta belezinha……..robusta, pesada…….1,3kg de pura destruição…….o que ela acertar ela derruba……..”
    (Taxista) - “Quanto é?”
    (Vendedor de armas) - “Um barão e meio…….”
    (Taxista) - “Com as balas?”
    (Vendedor de armas) - “A primeira é sempre na faixa…….o que você esta pensando em fazer com isso……….”
    (Taxista) - “Nada demais……..aqui esta o dinheiro…….”
    (Vendedor de armas) - “O Tito disse que você era taxista……..que só queria se proteger……..se seus amigos também quiserem posso vender para eles também……...mas nada de falar por telefone, a gente combina e você traz eles aqui……e se alguém me perguntar você nunca me viu……..e é isso que vou falar se alguém perguntar de você……..”
    (Taxista) - “Entendi, eu sei como funciona…….”
    Fim da cena 2
    - Não sei isso esta dando certo. Nessa cena a câmera ficou muito longe de vocês……...acho que não esta legal o som……..
    - Roda aí na câmera mesmo pra gente ver como ficou………
    [Filme rodando]
    - O som esta horrível……..parece que é um banheiro…….
    - Vamos terminar de gravar……..a Renatinha vai melhorar o som no computador e colocar os efeito……..eu estou achando ótimo……..vou arrumar tudo para a próxima cena………..
    Cena 3
    Resumo - O taxista (Mari) esta sentado numa cadeira na cozinha escrevendo um bilhete. A arma esta do lado do papel na mesa.
    [Câmera em plano americano mostrando o taxista escrevendo o bilhete e a arma. Ele acaba de escrever, coloca a caneta do lado do papel, pega a arma e da um tiro na própria cabeça. A cabeça cai do lado do papel, sangrando, e a câmera vai fechando até focalizar o papel em detalhe.]
    {Nenhum som, só o barulho do taxista escrevendo o do tiro.}
    (Recado do bilhete) - “Eu não sou viado”
    Fim da cena 3
    - Adorei!
    - Acho que ficou uma merda.
  • A esquina e o fim

    [blitz]
    - Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.
    - Sim Senhor, aqui estão.
    - Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?
    - Estou voltando do trabalho para casa.
    - O Senhor pode descer do veículo, por favor.
    - Claro, algum problema policial?
    - Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?
    - Não Senhor.
    - Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.
    - O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?
    - Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?
    - Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.
    - Atitude suspeita, Senhor.
    - E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?
    - Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?
    - Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.
    - O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?
    - Posso, o que o Senhor está procurando?
    - Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.
    - Somente alguns papéis.
    - O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?
    - Claro. Está vendo, papéis.
    - Sobre o que são esses papéis?
    - Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.
    - Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?
    - Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.
    - Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.
    - Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?
    - Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.
    - Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?
    - Abra o veículo, por favor?
    - Estes CDs no porta trecos são do Senhor?
    - É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.
    - Acalme-se Senhor.
    - As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.
    - Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.
    - (click)
    - O que são esses papéis?
    - A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.
    - Posso ver essa nota fiscal?
    - Por que? Eu posso perguntar por que?
    - A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.
    - Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.
    - Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.
    - Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.
    - Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.
    - Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.
    - A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?
    - Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.
    [delegacia]
    - Eu só falo quando o meu advogado chegar.
    - O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.
    - Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!
    - Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.
    - Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.
    - Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.
    - Prova do que?
    - De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.
    - Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?
    - Quanto tempo?
    - Desde os 12 anos.
    - Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.
    - Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?
    - O Senhor tem filhos?
    - Tenho, três.
    - Eles estudam em escolas particulares?
    - Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.
    - O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.
    [conversa com o advogado]
    - Como assim eles podem me manter preso por até três meses?
    - Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.
    - Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.
  • A lamparina de Luanda

    Pouca gente sabe que morei em Luanda, capital de Angola, na África, durante o curtíssimo período de fevereiro de 1977 a março de 1978, com minha família, onde comemorei dois aniversários, o de onze e o de doze anos. Foi esse um fato que se tornou secreto, não sendo comentado nem mesmo nos círculos familiares, e que meus pais, não sem justa razão, fizerem questão e esquecer. Mas o que de mais secreto há nessa história se deve ao meu silêncio, pois nem mesmo meus pais jamais vieram a saber - pois nunca lhes revelei: é que lá conheci Kambami, um feiticeiro, por meio de quem vivenciei um acontecimento estranho, inconcebível mesmo para a mente de um brasileiro, ou talvez para qualquer mente que não seja africana.
    Antes, morávamos no Rio de Janeiro, onde meu pai trabalhava como encarregado de obras numa firma de construção civil. Deu-se, porém, que a firma faliu, e ele ficou desempregado por quase um ano. Ao final desse período, minha avó paterna, cujo pai viera do Congo para o Brasil em 1890, apresentou pela primeira vez ao meu pai a ideia de ir para a África, morar em Luanda, onde vivam dois tios e uns primos dela.
    Mas que futuro melhor alguém poderia esperar, trocando o Rio de Janeiro por Luanda, ainda mais que Angola estava enfrentando um conflito armado desde 1975? No caso de meu pai, havia, sim, um vislumbre de futuro, e, quem sabe, até de um grande futuro: ele tinha sido lapidador antes de entrar para o ramo da construção civil, e Luanda era um grande centro de comercialização de diamantes. E não havia muito mais o que se fazer na cidade. Seja como for, tanto que meu pai pensou nos diamantes, não quis outra coisa.
    Viajamos: eu, meu pai, minha mãe e meu irmão, este mais novo do que eu dois anos. O avião fez uma conexão na Líbia, era uma sexta-feira, às duas horas da tarde, e a primeira sensação que tive ao saltar no aeroporto foi a de que o calor fosse me matar antes que eu pudesse pedir um copo d’água. Mas em Luanda não era tão quente assim, caso em que eu não estaria aqui agora para contar a história.
    Fomos morar num bairro que, lá, era de classe média, mas, aqui no Brasil, não passaria de um cortiço. A casa era péssima; as águas, pestilentas, e eu esperava que ficássemos naquele bairro e naquela casa só provisoriamente, até que arranjássemos outro lugar, em melhores condições. Havia um odor nauseante e contínuo de esgoto a céu aberto, frequentes cortes de energia elétrica e, por conseguinte, falta de água. Dias mais tarde, descobri que em Luanda pagava-se um ano de aluguel adiantado, motivo por que era certo que teríamos de passar pelo menos um ano naquela casa, a menos que meu pai tomasse o prejuízo financeiro referente à quebra de contrato, para mudarmos mais cedo dali. Passou-se um ano que, a mim, pareceu uma eternidade, e, enfim, meu pai chegou com a notícia de que tinha encontrado uma nova casa. Antes, porém, que nos mudássemos, como não poderia deixar de ser, minha mãe quis ir vê-la para dar seu aval, e no dia em que ela foi, eu e meu irmão fomos juntos. Meu pai não estava conosco, pois tinha ido acertar detalhes do contrato de um trabalho que havia conseguido. Aproximando-se da casa, eu e meu irmão nos adiantamos três ou quatro passos, e entramos nela antes de minha mãe. Era uma tarde cinzenta e enxergava-se com certa dificuldade no interior da habitação, mesmo com a chama bruxuleante de uma lamparina que ardia em cima de um baú antigo de madeira escalavrada a um canto da sala. Minha mãe entrou. E foi justo nesse momento, quando nós três achávamo-nos no interior da casa, que ela me fez saber que se passava ali o estranho fenômeno.
    - Quem apagou a lamparina? – perguntou-me ela, com uma expressão muito exasperada.
    Apontei para o meu irmão, que tinha acabado de cair ao chão subitamente, sem nenhum motivo aparente, e havia perdido os sentidos. Com um grito de pavor, depois de apertar o rosto com as duas mãos, minha mãe atirou-se sobre ele, segurou-o pelos ombros e agitou-o loucamente. Mas ele não esboçou reação. Minutos depois ele foi internado, tendo sido levado ainda desacordado ao hospital, por alguém a quem minha mãe pediu socorro.
    Amedrontado, entendi logo que havia uma sinistra relação entre o apagar da lamparina e o mal súbito que se abateu sobre o meu irmão.
    Senti-me aliviado quando, no mesmo dia, minha mãe disse que se recusava a ir morar naquela casa. Meu pai comentou que era bobagem, mas não chegou a interpor nenhuma objeção contra a decisão dela. E, assim, continuamos no mesmo lugar.
    Chegando em casa, minha mãe me chamou e disse que precisava me explicar uma coisa.  Foi então que ela contou o real motivo por que tinha ficado tão desesperada ao ver meu irmão caído. Antes de começar a dizer, ela hesitou, disse que era uma coisa horrível, mas horrível mesmo, e que só Deus podia nos ajudar, então falou: existe uma tradição em uma certa comunidade de Angola, cujo nome ela não conhecia, em que se praticavam rituais satânicos, sacrificavam crianças, que eram postas nuas em cima de chapas de ferro em brasa, bebiam sangue de galinha diretamente no coto do pescoço cortado, comiam cacos de vidro, atravessavam punhais no coração e não morriam, nem sequer sangravam, proibiam seus adeptos de trabalhar ou estudar, colocavam jovens nus e de mãos amarradas às costas deitados em cima de formigueiros, onde ficavam até desmaiar das picadas. E havia também as mandingas, que eram muitas e muito eficazes, entre as quais estava a que consistia em um método para se salvar do inferno a alma de algum homem que morresse com muito pecado, mas que lograsse o respeito e a benquerença da comunidade: com um ato hediondo de bruxaria, lançavam-se os pecados da alma desse homem venerado sobre a alma de alguém, para que pagasse os pecados em seu lugar – pois pecados nunca podem ser extintos, mas apenas passados de uma alma para outra. E o que faziam para passar o pecado de uma para outra alma? Assim que morria o homem pecador, porém idolatrado pela comunidade, acendiam uma lamparina e a deixavam dentro da casa em que ele morara. E aquele a quem o destino se dignasse em enviar para apagar a chama da lamparina, recebia sobre si toda a carga de pecados do morto, vindo a morrer também, pouco depois, de morte feia – pois pecadores não têm morte bonita - indo sua alma para o inferno em lugar do outro. Chamavam esse ritual de Gees Brandm, em africânder, o que significa algo como “espírito que queima” ou “espírito do fogo” ou “espirito em chamas”. Era de prodigiosa emergência para a comunidade a realização desse mister, e muito necessário era que alguém apagasse a chama, pois, em não aparecendo ninguém que o fizesse, e expirando-se oo fogo naturalmente pelo extinguir da combustão, estaria o venerável homem morto irremediavelmente condenado à danação.
    O médico pediu alguns exames, e mamãe lhe disse que ia providenciar o mais rápido possível. Chegando em casa, entretanto, ela disse:
    - Não haverá exame nenhum! Isso não é caso para medicina. É coisa de mandinga. Só se cura com outra mandinga. Ou talvez nem assim... oh, meu Deus...!
    E decidiu que ia procurar Galobé de Prates, um padre curandeiro que vivia num bairro próximo, e que, apesar de católico, batia tambores às vezes.
    - Ele não tem nada – afirmou o padre. - Nada de espiritual, quero dizer. Se quer um conselho, a senhora deveria procurar um médico.
    Mas havia um problema sobre o qual meus pais não haviam pensado antes de mudarmos para Luanda, e que, se tivessem pensado, talvez nunca teríamos saído do Rio de Janeiro: eles não confiariam aos médicos de Luanda nem mesmo o tratamento de uma dor de barriga.
    Em casa, tendo conversado sobre o que o padre dissera, mamãe e papai chegaram à mesma conclusão, e quase disseram a uma só voz que voltaríamos o mais breve possível ao Brasil.
    Foi à véspera de nossa partida de Luanda, que conheci Kambami, o feiticeiro.
    Eu estava em frente a casa, brincando, quando um homem negro muito velho de cabelos brancos, vestindo calça e bata brancas, passou do outro lado da rua e me chamou pelo nome... por nome? De onde ele me conhece? Eu nunca o tinha visto antes, e estava decidido a não ir até ele, mesmo porque mamãe sempre nos ensinara a não conversar com estranhos. Mas, seja como for, uma força estranha me fez atravessar a rua, mesmo sem querer.
    Ele me disse que precisava falar comigo antes que eu fosse embora de Luanda... antes que eu fosse embora de Luanda? Como ele sabia que eu estava para ir embora de Luanda? Pediu-me que eu o seguisse, mas não disse para onde. E fui. Não sei por que, mas eu agia tão naturalmente, que parecíamos velhos amigos, e que não houvesse qualquer perigo em um menino de doze anos acompanhar um estranho a lugar ignorado.
    Chegamos a um largo barracão de madeira enegrecida pela exposição diuturna ao sol e à chuva, coberto de palhas e com uma chaminé fumegante. A área interior era ampla, sem divisórias, e o piso, de chão de terra batida. Kambami me chamou para nos assentarmos num dos bancos de tábua que se instalavam rente às paredes, ao redor de todo interior o salão. Foi somente aí que ele me disse seu nome e o que queria comigo.
    - Você é um escolhido – falou ele, com uma voz de trovão que surpreendeu por ter saído da garganta de um homem tão velho como era Kambami. – Você não sabe, nem seus pais sabem, nem ninguém sabe, mas um escolhido tem direito a um pedido, qualquer pedido, aos nossos bons espíritos.
    Kambami tinha um olho preto e outro branco,  este parecendo queimado com ácido ou fogo, ou seria uma marca de nascença, não sei. O fato é que olhei para os olhos dele e senti um arrepio. Levantei-me do banco e saí correndo.
    Naquela noite eu demorei para pegar no sono e, quando adormeci, tive pesadelos em que vi meu corpo fritando sobre chapas de ferro em brasa, e galinhas sem cabeça rodopiando pelo chão, aspergindo sague pelo coto do pescoço.
    No Hospital de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, o médico disse à minha mãe que meu irmão estava imediatamente liberado para ir para casa, pois o seu problema era uma simples anemia, o que seria tratado com vinte gotas de Combiron, duas vezes por dia, durante cinco dias.
    Foi à mesa do jantar que, conversando, meus pais decidiram que não comentariam com ninguém o fato ocorrido na África, pois, de qualquer modo, o ritual de transmissão de pecados de uma alma para outra era, no mínimo, uma coisa esdrúxula, em que as pessoas resistiriam em acreditar, e os tomariam por mentirosos. Mamãe reparou em como meu irmão, sentado à cabeceira da mesa, estava saudável, e disse que, talvez, a história da mandinga do Gees Brandm fosse só uma lenda, ideia essa com a qual meu pai concordou de pronto e disse que era isso mesmo que ele sempre achou. Já tinha dito a ela que era uma bobagem, então não se lembrava?
    Mas a felicidade de meus pais foi duramente golpeada dois dias depois, quando, voltando da escola, ao passar pelo portão, entrando em casa, perdi os sentidos e caí nos braços de minha mãe, que me esperava ali. Minutos depois, encontrava-me no mesmo Hospital de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, em que meu irmão estivera, mas, dessa vez, o médico não disse que se tratava de algo simples. Em vez disso, fiquei internado, entrei em coma vinte minutos depois, e os exames, que ficaram prontos vinte e quatro horas depois, indicaram tumor cerebral oligodendroglioma de crescimento rápido e agressivo no lóbulo frontal.
    Parecia não haver no mundo sentimento de consternação maior do que aquele que vi no semblante de minha mãe, quando acordei do coma e ela estava olhando para mim. Dali em diante, eu teria vida por mais alguns meses, talvez um ano ou pouco mais, como fiquei sabendo por ter ouvido o próprio médico contar a meu pai, num momento em que ambos conversavam perto do meu leito, achando que eu estivesse dormindo.
    Se a tristeza de minha mãe era grande, não o era, porém, a ponto de que não pudesse ser aumentada. E foi pensando em poupar-lhe de maior sofrimento, que resolvi me calar, e não revelar-lhe a verdade que eu tinha escondido sobre a lamparina de Luanda: a verdade de que a chama quem apagou fui eu.
  • A Sorte de Al-Golin

     “Contudo, e apesar de tudo, não escaparás das mãos do destino”.
    Mestre Akman.

    O xeque Al-Golin observava que seus negócios o enriqueciam cada vez mais. Dono de um palacete à beira de um lago paradisíaco, era de seu costume levantar-se pela manhã e contemplar o espelho das águas cristalinas, sorvendo a brisa fresca que delas procedia. Enquanto cumpria o ritual matutino, observava o gado que pastava ao redor, nas campinas verdejantes. Al-Golin sentia-se um homem feliz e plenamente realizado.
    Certo dia, acordou com uma peculiar ideia. Mirou o sol que vinha sorridente no horizonte, e disse ao seu filho, um jovem rapaz que se encontrava ao seu lado:
    – Vou hoje mesmo perguntar a Omadin, o velho neby[1], como será a minha sorte no porvir. Não sei até quando a paz e a felicidade serão minhas companheiras. Despertei esta manhã com uma intuição de que preciso me preocupar com o futuro, e com aquilo que nele me aguarda.
    E assim sucedeu. Estando diante de Omadin, Al-Golin mostrava-se bem disposto e alegre. Fez um gesto solene de cumprimento, e disse:
    – Digno profeta Omadin. Sou hoje um homem inteiramente feliz. Possuo boas terras, moro em um rico palacete à beira de um lago com águas claras, tenho camelos, cabras, muitas palmeiras; vivo ao lado de minha amada esposa e de meu filho único que está sempre ao meu lado. A cada dia os ventos vêm do deserto na minha direção trazendo-me bons negócios, enchendo-me cada vez mais o celeiro e o cofre. Tenho sido homem de boa sorte, mas venho ter contigo a fim de ouvir de tua boca, que sabe dizer sem oscilar, como serão os meus últimos dias.
    O mago, que estava assentado e ouvindo atentamente, fincou um olhar profundo nos olhos de Al-Golin, como se penetrasse nos recônditos de sua alma. E depois de fechar os olhos e abri-los de súbito novamente, ainda mantendo-os fixados em Al-Golin, asseverou com firmeza nas palavras e com um sorriso que ia até às orelhas.
    – Em verdade eu te digo que findarás os teus dias cercado da maior riqueza e da verdadeira felicidade, ó nobre Al-Golin.
    Ao ouvir a resposta, Al-Golin levou o dorso da mão à testa, e enxugou um marejo de suor que iniciava. A expressão na face do adivinho impressionara-o por um instante, parecendo-lhe um presságio de resposta ruim. Mas, por fim, depois do entusiasmado vaticínio do velho Omadin, voltou a deleitar-se na esperança da sorte futura, que se anunciava ainda mais ditosa do que a presente.
    No caminho de retorno para casa, Al-Golin deliberou em seu pensamento que daria uma festa em seu palacete. Estava maravilhado, e queria comemorar junto à família e alguns amigos. Porém, a cena com que se depararia ao chegar em casa lhe arrancaria de um só golpe toda a alegria. Terminando de passar pelo topo de uma pequena colina, avistou fumaça na direção de seu palacete. Andando um pouco mais, pôde ver claramente, e com grande estupefação, que a fumaça procedia das ruínas em que havia se transformado a sua rica morada. Um incêndio a havia destruído por completo. O choque da cena paralisou os olhos de Al-Golin, o pavor dominou-lhe a alma. Chegando ao local, que era antes um pedaço do paraíso, agora transformado e destroços, encontrou caído ao chão um de seus guardas que vigiavam as cercanias da casa. O pobre homem encontrava-se gravemente ferido, atingido por espada, e agonizava seus últimos suspiros.
    – Por Alá! O que se passou aqui? – perguntou Al-Golin, com franco desespero nas palavras.
    O homem ferido moveu os olhos na direção de Al-Golin. Seus lábios trêmulos e sujos de sangue esforçavam-se para pronunciar uma palavra. Só então Al-Golin percebeu que o guarda estava ferido mortalmente.
    – Um golpe de espada! Quem te feriu? Quem incendiou o palacete?
    Neste momento, aquele que agonizava ao chão sussurrou:
    – Os Godunos… os Godunos…
    Al-Golin deixou-se cair ao chão, esmagado pela tristeza. Os Godunos eram guerreiros que invadiam os reinos vizinhos roubando, destruindo e capturando pessoas, a fim de fazê-las escravas. Al-Golin sabia que naquele momento sua esposa e seu filho se achavam cativos dos Godunos.
    Al-Golin levantou-se cambaleante como se estivesse bêbado. Girou o corpo sobre os seus pés e, olhando ao redor, observou que tudo estava depredado pelos Godunos. Deu-se conta da completa penúria em que agora se encontrava. Não havia mais dinheiro, nem ouro, nem objetos valiosos, os animais também haviam sido levados, exceto um camelo muito velho e imprestável que se encontrava próximo do que restou da casa arruinada. O silêncio nesse momento era angustiante. Olhando ao lado, Al-Golin percebeu que o guarda ferido estava morto.
    Uns poucos dias se passaram. Al-Golin construiu no local do palacete um pobre casebre de madeira e lona. Na sua miserável habitação, cada dia lhe parecia eterno tormento. A pobreza extrema, a saudade da esposa e do filho, a sua imaginação que tenta reconstruir a triste cena de sua família sendo arrastada sob açoites pelos cruéis Godunos, e tendo que caminhar com pesadas bolas de ferro atadas às pernas, e tantos outros pensamentos funestos que lhe vinham perpetuar o sofrimento. Num instante de dor indizível, Al-Golin decidiu dar cabo da própria vida. Tomou de uma corda grossa, fez um laço, atou-o a uma trave de madeira no telhado de sua triste vivenda. E no preciso instante em que deixaria o corpo pender na direção da queda mortal, uma voz o chamou à porta.
    – Senhor Al-Golin!
    Al-Golin se deteve. Ergueu a cabeça para decifrar a voz que interrompera sua macabra empresa. Era um homem desconhecido, de não mais que quarenta anos de idade.
    – Disseram–me que estás aí! Desejo falar-te – insistiu a voz.
    Al-Golin desceu do cadafalso improvisado. Chegando à porta, observou que era um tipo bem trajado, de presença distinta, corpo ereto e semblante austero. O visitante cumprimentou Al-Golin com apenas um discreto gesto de cabeça, e disse-lhe:
    – Trago mensagem do xeque Aramiz.
    Ouvindo essas palavras, Al-Golin teve um estremecimento, que só não foi grande porque nada pode comover tanto um homem que há pouco tinha uma corda no pescoço.
    – Aramiz…? O que ele quer de mim? – perguntou Al-Golin com fraqueza e indiferença na voz.
    O xeque Aramiz era credor de Al-Golin, que lhe devia uma alta soma de dinheiro. Agora, tendo perdido tudo o que possuía, Al-Golin jamais poderia quitar a sua dívida.
    – O xeque Aramiz sabe da desgraça que se abateu sobre ti, ó nobre Al-Golin, e manda dizer que lamenta verdadeiramente. Porém, manda dizer também que, embora se compadeça, não poderá deixar de cobrar o que lhe é de direito, pois seria para ele uma grande perda e um terrível desando nas suas finanças. Como o nobre Al-Golin se encontra destituído de todo o teu dinheiro e de todo o teu ouro, não tendo, portanto, como pagar a dívida, meu senhor, o xeque Aramiz, manda comunicar-te que amanhã mesmo tomará posse destas tuas terras em torno deste lago, o que valerá pela quitação total da dívida.
    O mensageiro de Aramiz virou-se e partiu. Al-Golin não disse sequer uma palavra de protesto, isto porque um homem que não deseja mais nem mesmo a própria vida, não terá mais forças nem razões para contestar a perda de qualquer outra coisa. Al-Golin apenas fez uma rápida reflexão, considerando que agora poderia morrer, já que nada mais havia para perder, uma vez que a própria terra em que pisava já não mais lhe pertencia. Al-Golin achava-se novamente na cena do suicídio. Tomou a corda com o laço, passou-a no pescoço. Tinha o rosto macerado pela dor daquele momento crucial. Subiu no cadafalso e fechou os olhos. Mas antes de saltar, no instante de seu iminente mergulho no mundo escuro da morte, sua vida inteira se passou na tela da mente em imagens ligeiras e carregadas de emoções inauditas. Os últimos fatos de sua vida, porém, foram os que mais o deixaram perplexo. Uma das últimas cenas de sua mente, que se despedia do mundo, foi a do mago Omadin dizendo-lhe: "Findarás os teus dias cercado da maior riqueza e da verdadeira felicidade, ó nobre Al-Golin". Al-Golin abriu os olhos no momento em que seu corpo titubeava para cair. Tinha um olhar que atirava chispas de ira. Não poderia morrer sentindo aquele desejo de vingança que agora o dominava. Era precisamente isso que sentiu por Omadin. “Feiticeiro mentiroso! Prefiro mil vezes que alguém me mate a fazer-me de tolo”, pensou Al-Golin, determinando em seu pensamento que, antes de morrer, mataria aquele que o enganara. Tomou de um punhal, apanhou o cansado camelo que se encontrava ainda nas cercanias do casebre, e partiu na direção da morada do mago charlatão.
    Tendo caminhado longa distância sob o sol inclemente, sentiu-se muito fraco. Depois, percebeu-se febril, tonto, a visão lhe faltava e, por fim, caiu estirado nas areias quentes, perdendo totalmente os sentidos. O camelo continuou a marcha, até que desapareceu atrás de uma duna.
    Quando Al-Golin abriu os olhos, era noite. Estava muito debilitado, mal conseguia abrir os olhos. Achava-se deitado numa cama confortável, embora muito simples, no interior de um quarto iluminado por lamparinas de azeite. A primeira visão de seus olhos, ao despertar, foi o sorriso de sua esposa e de seu filho, que se encontravam assentados à beira da cama.
    A mulher contou-lhe com lágrimas nos olhos tudo que houvera se passado com ela e o filho: Os Godunos os levavam cativos pelo deserto, quando tiveram um confronto com uma tribo hostil no caminho e, nesse ínterim, ela e o filho conseguiram fugir. Agora estavam a salvo naquele lar que os acolhera com tanto desvelo.
    Enquanto ela falava, percebia que Al-Golin já quase não tinha vida, estava muito decadente. O filho lhe segurava uma das mãos com doçura e pesar, chorando baixinho. A esposa acariciava-lhe a testa.
    A gratidão que Al-Golin sentiu pelo generoso dono daquele lar que acolhera a sua família deu-lhe energia para pronunciar as palavras que seriam as últimas de sua vida:
    – Quem é esse homem santo que guardou em sua casa a minha maior riqueza e a minha verdadeira felicidade?
    Neste mesmo instante, sua esposa apontou na direção do santo homem que acabava de entrar no quarto. Era o profeta Omadin.
    Al-Golin fechou os olhos, e um leve sorriso de satisfação acompanhou o seu último suspiro. Morreu tal como predissera-lhe o velho Omadin, comovido de especial felicidade e cercado da sua maior riqueza: a esposa amada e o filho único, que agora choram deitados em seu peito.
  • A true love story

    Preâmbulo

    Contos dramáticos, longos romances, filmes, músicas, novelas, seriados, guerras, “what more in the name of love?”, perguntaria o U2. O que for necessário, responderiam os jovens. Amor não é um sentimento, é uma justificativa para uma atitude que poderia ser tida como débil. Sócrates diria que o amor é a ausência do belo e do bem, desembocando nos antônimos feio e mau. Ainda segundo os gregos, que conversavam enchendo a cara de vinho num banquete, o amor poderia ser um desejo ardente de se ter o que não se tem. Logo, quando se conquista o desejado o amor bau bau. Segundo o dicionário Aurélio, o amor também é enquadrado como uma inclinação forte por outra pessoa, geralmente de caráter sexual, mas que apresenta grande variedade de comportamentos e reações. Bem, certamente ele existe, e determina a vida de todos nós.

    Personagens

    Neb | Mais ou menos 1,70m, 100kg, 25 anos e cabelo comprido. Estudante do quarto ano de jornalismo. Se veste como repórter de rádio, sempre de xadrez, mas trabalha numa assessoria de imprensa. Gosta de ouvir Rock’n Roll e toca baixo. Como quase todo gordinho, Neb é inseguro e meio engraçado. Nunca teve uma namorada.

    Júlia | Cerca de 1,73m, 65kg, 21 anos, cabelo nos ombros. Cursando o 3º ano de enfermagem. Tenta não se preocupar com a moda, gosta de blusinhas com alcinhas e casaquinhos de lã. Faz estágio num hospital público. Gosta de ver o pôr do sol num mirante e de praia. Não se acha bonita e é traumatizada pelas decepções da vida.

    Tempo

    Se conheceram no 2º ano de faculdade dela, mas Neb já a observava com carinho, de longe, antes de os dois se tornarem amigos. Em seguida ele entrou num projeto cultural que Júlia fazia parte só para ter mais contato com ela. Por uma coincidência da vida vieram a se tornar vizinhos seis meses depois. Foi nessa época que perceberam o quanto gostavam um do outro. Em pouco tempo estavam indo nos mesmos lugares e tinham os mesmos amigos. As coisas aconteciam cronologicamente e um futuro juntos, e felizes, era tão certo quanto o fogo é quente.

    Espaço

    No começo se encontravam na lanchonete da faculdade, naquelas mesas enormes que se formam com os amigos no frenesi do intervalo. Sem perceber os dois sempre estavam próximo. Nas reuniões para falar sobre os eventos que iam realizar dificilmente discordam da opinião um do outro. Quando morando lado a lado Júlia ia na casa de Neb todo dia, mas ele raramente retribuía as visitas dela, mas sempre comprava queijo porque sabia que ela gostava e fazia café quando ela chegava.
    O período de vida universitária é marcado pelas novas experiências, e grande parte delas está ligada ao flerte. Qualquer espaço que reúne centenas de jovens, com os hormônios a flor da pele, é um convite para aventura, um lugar onde tudo se desenvolve.

    Narrador

    Eu era próximo aos dois. Na verdade eles começaram a ter mais contato porque o Neb sempre vinha me chamar para fumar um baseado com ele no intervalo. A Júlia também fumava, e um dia veio junto. Quando comecei a reparar no que estava acontecendo os dois já estavam sempre grudados, e ela sempre perguntava dele, e ele dela. Pareciam ter nascido um para o outro, mas tinham uma certa dificuldade de reconhecer isso. Nunca entendi o por quê. Os dois sempre foram bastante reservados, então ninguém falava sobre isso com eles, nem eles falavam com alguém, mas todo mundo falava disso longe deles. Era impossível não reparar no jeito especial que se tratavam e em como, as vezes, não se olhavam.

    Enredo

    Ela admirava o quanto ele era atencioso com as outras pessoas e a quantidade de amigos que tinha. Dava para perceber isso vendo como Júlia se esforçava para fazer a mesma coisa que Neb. Ele jogava futebol com os amigos, ela entrou num grupo de corrida. Ele sempre carregava um bom livro, ela começou a levar um na mochila também. Neb achava que Júlia era diferente de todas as outras garotas porque era bonita, inteligente e não ficava se exibindo. Sua admiração por ela ficava nítida na forma como a tratava, sempre tentando arrancar um sorriso dela e facilitando a sua vida. Neb sempre pensou que jamais teria alguma chance com alguém como ela, tanto que as indiretas dela demoravam dias para serem percebidas por ele, quando o momento já tinha passado. Júlia achava que Neb pensava que ela não estava à altura dele, porque ele sempre respondia as investidas dela com um sorriso desconcertado, e não com palavras românticas ou um amoroso beijo. No ritmo do “ninguém me ama, ninguém me quer”, os dois se identificavam cada vez mais um com o outro. As chances de ficarem juntos se multiplicavam a cada encontro. Numa festa, assistindo um filme deitados na cama ou uma tarde perdida, a todo momento pressentiam que uma coisa fantástica podia acontecer. Quando se tocavam acidentalmente, ou num abraço e beijo de “oi, tudo bem”, as borboletas no estômago diziam que aquele amor não tinha nada de cortês.

    Diante da falta de iniciativa de Neb, Júlia arrumou um namorado…
  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • A vida no inferno

    O trabalho nunca assustou Natália. Muito ao contrário. Desde os 15 anos ela já acordava antes do sol nascer para poder estudar e ser secretária do seu tio dentista. Podia até ser uma forma de ele ajudar a família do irmão, que não tinha paradeiro conhecido, mas as seguidas investidas com a mão embaixo da saia de Natália, e seu olhar psicótico, diziam outra coisa sobre as intenções do homem por detrás da máscara. Qualquer coisa seria melhor que ter que conviver diariamente com um boçal. Por isso, quando fez 18 anos e acabou a escola, saiu da clínica para trabalhar numa empresa de telemarketing. Sua missão agora era convencer pessoas que não podem pagar um plano de saúde a pagar por um que não funciona. “O Senhor esta ciente de que, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem um dos piores serviço público de saúde do mundo? Pior que o da Argélia, Senegal e Cabo Verde, por exemplo.” Ao lado do seu teclado havia uma folha sulfite plastificada com algumas frases que ela poderia recorrer. Tudo sempre começava com um “bom dia, meu nome é Natália e estou contactando o Senhor, em nome da ExploraMed, para oferecer uma oferta especial válida só por hoje.”
    Assim que ela desligava o telefone vinham as metas absurdas e os prazos corrosivos. “Pessoal, aqui nós trabalhamos com números.” Eram uma ligação a cada três minutos e no mínimo 20 contratos assinados por dia. “Parece muito, mas se vocês seguirem as técnicas que nós ensinamos é possível.” Informações como a superlotação, “segundo o Tribunal de Contas da União 64% dos hospitais estão sempre com lotação superior a sua capacidade”, ou “consultando os dados do Conselho Federal de Medicina o Senhor vai ver que, entre 2005 e 2012, o Sistema Único de Saúde eliminou 41.713 leitos.” Teoricamente, de posse destes dados, qualquer um deveria se desesperar e pagar até o que não podia para dormir com a consciência tranquila de que se acordasse no meio da noite, tendo um ataque cardíaco, não morreria num chão qualquer esperando a boa vontade de um bom samaritano que se importasse. Mas não era o suficiente. As pessoas precisavam de muito mais que um plano de saúde, assim como Natália, que precisava de muito mais que um salário mínimo para ter alguma perspectiva de não chegar aos 40 anos sem ter atravessado as fronteiras do ritmo casa-trabalho / trabalho-casa.
    Foi pensando num futuro melhor que ela começou a ver as etiquetas coladas nos orelhões do centro da cidade com outros olhos. “Oi garanhão, procurando prazer e diversão?” A voz meio masculifeminilazida do outro lado da linha fez ela reparar na palavra Travesti depois do nome Sheila no adesivo. Por um momento ela se sentiu envergonhada, mas não foi o suficiente para parar. “Oi, eu queria saber quanto você cobra.” “Ai gatinha, é só você que quer brincar ou seu namorado também quer participar da festa?” “Que?” “Hum, é só você que quer saborear novas aventuras, não é? São R$250 para fazer essa carinha doce suspirar amor por uma hora, e eu atendo no meu apartamento aqui no centro.” Natália respirou fundo com o valor e desligou o telefone. Em uma hora ela podia ganhar mais que em uma semana sentada numa cadeira incomodando alguém pelo sistema de discagem randômico. Olhando por esse ponto de vista parecia até mais decente. Trabalhando umas duas vezes por dia ela podia até pensar em fazer uma faculdade e ajudar a sua mãe, que sofria limpando banheiro de crianças irritantes filhas de adultos imbecis. Quanto mais pensava mais tinha certeza de que valia a pena correr os riscos, que na verdade não eram consideravelmente maiores que ser menina num ônibus lotado, chegar em casa depois de ter escurecido ou trabalhar como secretária do seu tio.
    Enquanto tirava fotos dos anúncios colados pelos orelhões e postes da cidade pensava nos detalhes. Primeiro: ia ter que ter um número de celular secreto, só para aquilo. Ninguém poderia ficar sabendo. Atenderia seus clientes em algum dos hotéis que alugam quartos por hora no centro, e como o cliente que ia pagar ele poderia até escolher qual. Depois, cobraria o dobro para dar a bunda e exigiria que o cliente sempre usasse camisinha. Acreditava que assim estaria evitando os maiores problemas que a profissão oferecia. Agora era a hora de elaborar o anúncio. Com um caderno na mão sentou na cama e começou a ver as fotos que tinha tirado no celular. “Paula Ninfeta. Insaciável. Depiladinha. Anal total. 93327-9869.” Parecia muito vulgar. “Brenda Casada. Para fetiches e fantasias. Homens, mulheres e casais. 93267-9765.” Esse não era chamativo. Depois de olhar dezenas de imagens, e escrever outra dezena de rascunhos, Natália chegou ao anúncio perfeito: “Paola (sempre achou esse nome chic) Amor (ora, do que aquilo se tratava?). Carinho e sexo para homens (não saberia o que fazer com mulheres e se sentiria estranha em 3). 24h (era importante estar sempre a disposição). NOVO NÚMERO DE CELULAR.”
    Cheia de confiança e expectativa Natália acordou mais cedo que o habitual. Vestiu sua melhor roupa e se maquiou como quem vai para uma festa de gala. Na entrada da estação de trem comprou um chip novo para o celular e começou a olhar para todos os homens como potenciais clientes. Pensou que eles estariam bem vestidos, afinal, quem pode pagar R$250 por hora tem que ganhar muito bem, e quem trabalha bem vestido geralmente ganha muito bem. Passou na Tele CO. e se demitiu resumindo os motivos em “arrumei um emprego melhor”. Eles insistiram em saber aonde a ponto de Natália se sentir acuada, mas ela se manteve firme. Assinou o que tinha que assinar e dali foi para uma lan house. As risadinhas que o moço dava enquanto ela ditava o que queria escrever na etiqueta a deixaram um pouco envergonhada. Com os adesivos em mãos começou a divulgar seu novo emprego. Deu preferência para os orelhões perto de prédios de vidro ou postes perto de lojas caras. Quando acabou com tudo Natália se sentou num banco na praça e, meio nervosa e meio ansiosa, ficou esperando o telefone tocar.
  • Abandonado

    Eis-me aqui. Estirado na calçada. Cansado e faminto. Observo, com olhos inertes e imóveis, enquanto carros e motos cruzam o meu campo de visão, enquanto a brisa fria e cortante da noite passa por sobre a minha pele infeccionada. Na escuridão da noite, sob a fraca luz dos postes de iluminação, vendo centenas de faróis passarem a dezenas de quilômetros por hora, eu reflito sobre o meu fim, e como não havia nada que eu pudesse fazer para evitá-lo.
    Nessas últimas horas, que eu concluo que serão as minhas últimas horas, reflito sobre o que eu vi e ouvi. Concluo, apesar da minha imensa tristeza em admiti-lo, que o mundo não é bondoso, democrático, ou minimamente justo. Como um ferimento, que de início não parece perigoso, mas que aumenta gradualmente seu risco, causando-nos uma angustiante sensação de perigo iminente, meu niilismo e pessimismo tomam conta de mim, apesar de todos os meus esforços para negá-los. Por muito tempo evitei de olhar para esse ferimento, essa marca. Sempre fui otimista, esperançoso, e acreditava que as coisas pioravam sempre antes de começarem a melhorar. Agora, para minha desagradável surpresa, percebo que, as vezes, não existe melhora, não existe cura, não existe nada, além do sofrimento e da angústia inacabável, crescendo e culminando no momento de realização e autopiedade que chamamos de morte.
    Antes de mais nada, acho interessante, e de grande valor para que você entenda minha história, revelar que eu sou um cachorro. Sim. Sou um animal bobo e alegre que abana o rabo quando estou feliz. Não abano o rabo já faz muito tempo, e devido a fome e a uma estranha doença em minha pele, tenho evitado me mover muito nos últimos dias. Sou o que você chamaria de vira-lata. Não sei se seria grande ou pequeno, pois a vida não deu aos meus ossos tempo de crescer como deveriam. Meu pelo é curto e acredito que seja de uma cor que os humanos deem tanta atenção quanto dão para a cor da terra seca. Devo ter olhos claros, pois tenho algum problema que me faz enxergar mal quando o sol está forte – se é que isso faz sentido. Minhas orelhas são grandes, tão grandes que quando as coloco para frente consigo cobrir meus olhos. Isso é tudo que eu consigo descrever e o que consigo notar ao olhar para o meu corpo. Sei, entretanto, que devo ter mudado muito nas últimas semanas, pois não é possível que a fome que eu passei e a sujeira em que me coloquei, possam ter passado desapercebido em minha aparência canina.
    Nasci por volta de dois meses atrás, numa ninhada de cinco cachorrinhos, filhos de uma bela e gorda cadela de raça. Percebi, pelo tom dos pelos de meus irmãos, que éramos bem variados, pois alguns possuíam manchas e outros pareciam pintados de preto e branco. O lugar onde eu nasci era muito aconchegante. Uma casa grande e cheia de animais. Lembro-me de ter visto cachorros (de diversas ninhadas além da minha), gatos, passarinhos, e até uma tartaruga. Durante duas semanas vivi naquele carnaval animalesco. Os gatos me irritavam, e os barulhos dos passarinhos me tiravam o sono. Mas ao meu lado, felizmente, minha mãe e meus irmãos estavam lá para me fornecer paz e conforto. Mamei em suas tetas e dormi no meio de seus pelos. Nada parecia melhor.
    A dona da casa era uma mulher idosa, com cabelos brancos e bem gorda, tanto que não conseguia se abaixar para encher nossos potes de ração, e preferia jogar montinhos nos cantos para que nos amontoássemos para comer. Irene, era seu nome. Ela morava sozinha e recebia algum dinheiro para se sustentar. Lembro-me bem que a ouvi conversando com duas mulheres religiosas no portão, quando ouvi seu nome pela primeira vez. Tinha uma pele branca como as nuvens e olhos tão azuis quanto o céu de manhã.
    Irene vivia sozinha, e aparentemente não tinha família. Quase não era visitada e quase nunca saía, com a exceção de comprar comida para nós ou para ela mesma. Todos os animais, principalmente os mais destoantes e machucados, haviam sido recolhidos da rua pela própria Irene, ou trazidos por aqueles que sentiam compaixão mas alegavam que não tinham condições de cuidar. Minha mãe, apesar de seu pedigree, havia sido abandonada e foi encontrada remexendo um saco de lixo numa avenida, quando a pobre Irene se condoeu, fazendo de tudo para pegá-la e trazê-la para casa. Irene, tendo o bom coração que poucos humanos têm, não se importou com o fato de minha mãe ter chegado grávida, e a alimentou e cuidou para que a gravidez ocorresse sem nenhuma preocupação. De fato, ao recapitular os eventos, consolido minha certeza de que Irene deveria ser a pessoa mais bondosa e caridosa do mundo. Sempre andava com seus vestidos leves e coloridos, alguns florais, com os cabelos brancos amarrados num croque prático e um sorriso jovial e inspirador no rosto. Era dona de uma voz fraca e acolhedora, e sempre se comportava de maneira calma e fleumática. Em sua casa, na companhia de meus irmãos e da minha querida dona, eu sentia que morávamos num mundo próprio, envoltos numa camada de bondade e carinho, protegidos das ondas e turbulências das ruas e da cidade grande.
    Irene lutava para que animais, como a minha mãe, não padecessem nas ruas e avenidas. E era totalmente engajada nesse causa. Pouco antes de eu nascer, esse engajamento chegou a tal ponto que ela comprou um computador modesto e começou a se juntar a ONGs e sociedades que cuidavam dos animais. Ela inclusive criou a sua sociedade e organizava diversos eventos para que animais resgatados fossem doados. Infelizmente, devido à idade e a dificuldade de locomoção, Irene quase nunca ia a tais eventos. Organizava-os, mandava convites e fazia a propaganda necessária, confiando na boa fé e no altruísmo de desconhecidos para que o bem fosse feito mesmo longe de sua presença. Em uma das raras visitas que Irene recebia, lembro-me, no momento em eu tinha apenar uma semana – gostava de fingir que dormia enquanto escutava atentamente os assuntos naquela sala escura e com móveis mofados –, ouvi que a pobre senhora havia virado um ícone na internet. Milhares de internautas “curtiam” sua imagem e a consagravam como a avó dos bichinhos.
    Tudo ia bem. Minha mãe estava feliz, eu estava feliz, assim como meus irmãos e todos os pequenos bichos com quem convivíamos. Entretanto, no intuito de me mostrar que nada bom dura muito, a vida fez questão de me mostrar a força do acaso, a fatalidade de simples casualidades, o terror do efeito borboleta, onde simples acontecimentos levam a consequências grandes e devastadoras. Numa tarde quente e ensolarada, com pesadas e barulhentas nuvens pairando sobre o pacato bairro em que morávamos, a bondosa dona Irene dava ração para seus diversos animais. Ela havia acordado mais alegre naquele dia, talvez imaginando que algum evento de adoção tivesse sido um sucesso, e esperando uma visita de alguns amigos da comunidade de adoção para mostrarem os resultados. Eu estava no quintal da frente, olhando para o portão de ferro e para a rua além, enquanto Irene passava a minha frente para dar um pouco de ração para outra cadela que ela recentemente tirara da rua. Esta cadela estava machucada, com grandes cicatrizes nas costas e com a parte de uma orelha cortada. Irene chorou ao vê-la daquele jeito, e se esforçava para dar uma atenção especial à recém-chegada.
    As nuvens pesadas no céu prometiam uma chuva forte de verão. Nenhuma gota havia caído ainda, porém alguns estrondos fracos podiam ser ouvidos a distância. Os estrondos costumavam nos assustar muito. Os gatos que tinham mais medo, mas nós, cachorros, não gostamos nenhum pouco dos trovões que seguem os relâmpagos. Por sorte, os barulhos ainda eram fracos e longínquos. Irene se aproximava da cadela recém-chegada, que se escorava na grade do portão de ferro, acuada e ainda sem ter se entrosado com os outros cães, quando um forte trovão soou nas alturas. Os cachorros se assustaram, os gatos correram, tal qual os cristãos ao ouvirem a primeira das sete trombetas. Os passarinhos saltaram e até a tartaruga se encolheu de pânico. Infelizmente, a cadela recém chegada, devido ao seu estado de choque pelos maus tratos, se assustou ainda mais, a tal ponto de não saber o que fazer e simplesmente se agitar sem propósito. Ela saltou, com força e desespero, bem no momento que que Irene se abaixava para colocar um pouco de ração no canto ao seu lado. De súbito, a cadela esbarrou na velha senhora enquanto tentava direcionar sua agitação para o interior da casa. Irene, desequilibrada e assustada, tombou para o lado, caindo noventa graus em relação ao chão duro do quintal. Teria caído reto no piso de pedra, se não fosse a base do portão de ferro, que impediu que sua cabeça caísse acompanhando o tronco, fazendo seu frágil e rugoso pescoço se dobrar além do possível.
    Irene jazia deitada, com a cabeça abaixada e o queixo encostado no peito. Todos nos assustamos, extremamente impactados. Dei alguns passos para frente, e soltei um forte latido ao ver que a bondosa senhora ainda respirava. Sim! Disse a mim mesmo. Seus olhos, azuis e espantados, ainda estavam abertos, e seu peito arfava com vigor. Parecia inconsciente, pois os olhos não focavam lugar nenhum e sons guturais saiam de sua garganta. Novamente assustado e em choque, percebi que sua vida estava por um fio. Uma convulsão? Um derrame? Um ataque? Não importava. Ela deveria ser salva, de qualquer jeito.
    Comecei a latir como nunca, e todos meus colegas me seguiram. Fui até a grade do portão e lati como se meu pulmão fosse um alto falante. A rua estava vazia, com algumas crianças brincando na ponta distante. Meu desespero aumentou ao notar que o som de nossos latidos parecia não incomodar ou chamar a atenção de ninguém. Olhei para o lado, guinchando e em prantos, e assisti com horror, enquanto minha querida dona, uma senhora benfeitora, altruísta, caridosa e generosa, sufocava. Irene bebia do amargo vinho da fatalidade, servido no desagradável cálice do acaso. Os dados foram jogados, a moeda já caiu, a borboleta pousara numa folha leve demais. Dona Irene soltava seus últimos suspiros, seu cérebro já sem oxigênio, seus olhos azuis vazios, seus fracos dedos se mexendo em vão, travados por algum problema no sistema nervoso. Cheguei perto e observei, incrédulo e impassível, conforme a luz deixava seu olhar, no momento em que seu peito parou de se mexer, seus lábios se aquietaram, seus olhos focaram no nada insondável, soube que havia acabado. Ela se fora, não por um tempo, não por muito tempo, mas para sempre.
    Todos choramos e lamentamos. A pobre cadela, usada pelo acaso como algoz da nossa tragédia, jazia no chão, sofrendo de um ataque cardíaco resultante do susto que tomou. Pelo menos três horas haviam se passado, e Irene ainda jazia silenciosamente na ponta do quintal. Foi necessário que os membros de sua comunidade virtual tocassem sua companhia e olhassem pela grade para notar que algo que estranho havia acontecido na modesta casa.
    Não pretendo relatar aqui os tristes momentos que sucederam a morte de minha pobre dona. Basta dizer que, alguns minutos depois da chegada dos internautas, um grupo de policiais e bombeiros arrombaram o portão de ferro e levavam o corpo de Irene. Eles vasculharam a casa e pediram para que os membros do grupo da internet levassem os animais para um lugar seguro, onde poderiam esperar por uma adoção. Fui levado, separado de minha mão e de meus irmãos. Nos espalharam por algumas casas de adoção pela cidade. Fui enviado para um lugar bonito, num bairro nobre, mas sem nenhuma companhia de sangue para me consolar.
    Por quatro dias eu fiquei em silêncio numa pequena gaiola num armário de ferro, ao lado de dezenas de cães de todos os tamanhos. Meu estado de ânimo era tão lamentável que eu mal conseguia me levantar para comer. Ficava deitado, enrolado em meu próprio corpo, encostado na quina do fundo da pequena gaiola. Nenhum latido, grito ou barulho conseguia me tirar do meu luto. Não conseguia parar de ver e rever, os pálidos olhos azuis, perdendo cor enquanto a vida deixava o frágil corpo de Irene. Há quem diga que devemos fazer uma limonada quando a vida nos dá limões. Outros dizem que Deus não nos dá uma cruz que não podemos suportar. Eu não entendo tais pessoas, e desprezo tais afirmações. Que oportunidade pode ser extraída com a morte injusta e trágica de um ser humano tão bom, gentil e caridoso? Que cruz suportável foi dada à pobre Irene, que arfava em desespero, enquanto seu pescoço bloqueava a passagem de ar em sua garganta, e enquanto tentava em vão mover os braços, impedida pela fratura na espinha abaixo da nuca. Qual justiça, divina ou dos homens, pode ser encontrada, dada, distribuída, quando mortes tão banais, tão injustas, tão ridículas, acontecem a cada dia com quem menos merece? Qualquer um pode cair a qualquer momento. Qualquer um pode torcer o pescoço por acidente, com qualquer movimento brusco ao se virar. Qualquer um pode ficar paraplégico, ou tetraplégico, com um simples tropeço ou passo em falso no lugar errado. Qual o direito do acaso, sendo tão imparcial ou impessoal como dizem, de fazer com que uma pobre senhora sofra o pior resultado de todas essas possibilidades de uma só vez?
    Com Irene se foi toda a bondade que eu conheci. Todo o amor e toda a caridade, nada sobrou para preencher esse vazio.
    Depois de alguns dias nesse canil, fui perturbado por uma simpática família. Um homem, David, sua esposa, Sara, e sua pequena filha, Sofia. Pareciam uma família saudável e unida. Meu melancolismo provocou, estranhamente, um grande afeto deles para comigo. A pequena Sofia me pegou nos braços gordinhos e pequenos, implorando ao pai por algo que eu não entendi. Seus braços eram macios, seu toque era suave. Por um momento eu fiquei em êxtase, hipnotizado pelo balançar em seu colo. No momento em que imaginava que jamais receberia nenhuma afeição, a vida me surpreende com uma magnífica surpresa. A pequena menina, com seu cabelo longo e seu laço cor-de-rosa, me pegava no colo, passava a mão em meu focinho e acariciava minha barriga. Por um momento, eu estava nas nuvens. Não podia pedir mais nada. Cheguei até, durante as investidas de afeição mais pesadas que já tive o prazer de presenciar, a esquecer de toda a minha dor. Enquanto surfava em seu balanço, enquanto minha barriga macia era amaciada por mãos leves e aveludadas, enquanto os curtos dedos roçavam entre meu nariz e minha boca, eu me lembrei do que era ser feliz.
    Acreditando que a alegria duraria pouco e que logo a pequena Sofia me diria um adeus indiferente e distante, entendo em sua conversa que o pai, apesar de ponderando e em grande dúvida, aceitava o pedido da menina de me adotar. Me adotar! Nesse momento meu rabo começou a abanar. Não consegui conter minha alegria. Um lar, uma casa. Longe da gaiola, longe das lembranças, dos pálidos olhos azuis.
    Meu surto de alegria afetou a pequena Sofia, e esta começou a me acariciar com mais amor. Percebi, nesse instante, um fato sobre a vida que fui tolo por acreditar no momento: quanto mais amor eu der, mais eu vou receber. Simples, prático e, especialmente, justo.
    Naquela tarde, depois de assinarem alguns papéis e comprarem alguns suprimentos, chego na casa da amistosa família. Era um apartamento grande, caro, num condomínio abastado do bairro. David era um empresário e Sara lidava com o mercado de ações. Tudo ia bem. Nos primeiros dias eu brinquei sem parar com minha pequenina dona. Ela corria atrás de mim, e eu corria atrás dela. Girávamos e dávamos voltas, passando pela cozinha, sala, quartos e área de limpeza. A empregada, uma simpática senhora, me adorou, e lidava com paciência e compreensão a sujeira e a bagunça que eu e Sofia fazíamos. Duas semanas se passaram como dois dias. Me levavam para passear, apesar de meu tamanho. Me deram banho e me levaram no veterinário. Tomei uma vacina e um remédio para vermes. Ainda faltavam algumas doses, mas eu já me sentia bem.
    Num belo domingo, depois do jantar, estava eu com minha dona. Eu corria pelo quarto dela, me jogava em cima da cama e ela tentava se esconder num lugar em que eu não conseguia entrar. Em vão, é claro, pois eu conseguia me enfiar em qualquer canto ou móvel da casa. David assistia a um documentário na TV enquanto Sara acessava a internet de seu notebook, quanto a pequena Sofia, enquanto se abaixava sob a própria cama, soltou um espirro leve. O pouco tempo que passei lá me foi suficiente para entender que a saúde da menina era de ferro. Ouvi a mãe comentar que ela quase nunca ficava doente, e quase não existiam restrições alimentares para ela. O pequeno espirro, apesar de inofensivo, trouxe de imediato a atenção dos pais sobre a pequena princesa. O que seria, a poeira? O ar-condicionado?
    Mais alguns dias se passaram. Sofia chegava da escola lá pelas duas da tarde. Depois disso o apartamento era nosso parque de diversão até a noite, quando David chegava. Numa sexta feira, enquanto eu descansava no colo de minha dona, esta absorta num desenho animado de fim de tarde, a porta abre, e eu sinto um cheiro incomum. Um homem, todo de branco e com cabelos grisalhos, acompanhava o pai da menina. De início desconfiei, mas resisti ao impulso de latir ou de tentar defender minha pequena princesa. Sabia que o pai era um homem de bom senso e extremamente preocupado com a filha.
    O homem de branco era gentil, carinhoso e até me deu um biscoito. Ele conversou com Sofia por alguns minutos, enquanto o pai e a mãe, na cozinha, tentavam esconder algum tom na conversa que eu ainda falhava em captar. No fim, depois de bajular e dar alguns doces, o homem disse que precisava tirar um pouco de sangue da garota, a fim de garantir que ela não precisasse ir no médico. Ao saber que o maior medo de Sofia era ir ao consultório, foi fácil entender porque ela aceitou tão facilmente a oferta de adiantar seu exame. Ele tirou uma injeção, trocou mais algumas palavras, e foi embora sem muita cerimônia. A menina questionou os pais o por que da visita, mas eles desconversaram e disseram que era um simples exame anual. Ela, sendo uma menina compreensiva, até demais para a própria idade, entendeu e voltou a assistir ao desenho. Demorei para dormir em seu colo novamente, pois uma estranha sensação percorria meu corpo.
    No dia seguinte, sábado, Sofia acordou tarde. Fiquei parado, por horas, na frente do seu rosto, esperando-a despertar. Logo começamos a brincar e a jogar jogos. Já havia esquecido da visita do médico e estava disposto a aproveitar os dias em que ela não teria aula para brincar o máximo possível. Sara fazia o café da manhã, e David lia o jornal na mesa. Seu celular toca. Ele atende e conversa abaixo. Eu corro mais devagar, fingindo que achei algo no chão, atento a conversa. Não consigo captar nada de importante, mas vejo um estranho pesar no olhar do empresário. Ao desligar ele me encara, inconsciente do quanto eu percebo e entendo da situação. Ele volta seus olhos par ao jornal, e age como se nada tivesse acontecido.
    Fico preocupado. Sofia puxa meu rabo e sou obrigado a correr dela. A brincadeira continua a todo vapor. Mas a sensação do dia anterior, a mesma que quase me impediu de dormir, me atormenta mais do que nunca. Não consigo me concentrar, e Sofia acha até que eu estou com sono demais para brincar. Como uma pulga que pica minha orelha em momentos esporádicos, sempre me lembrando de sua abominável presença em minha pele, um simples olhar para David me lembrava da estranha suspeita que seu comportamento me causou. Mas, tendo em vista que eu não conseguia falar nem ao menos agir de forma que me entendessem, fui obrigado a passar o dia inteiro ruminando.
    A noite, pouco antes do jantar, fui acordado com o barulho da porta abrindo novamente. Sinto um cheiro estranho, totalmente diferente do médico da véspera. Ao chegar na sala, vejo uma menina, da idade de Sofia, brincando com minha dona no sofá. Não vou negar que não senti uma pontada de inveja ao ver uma estranha brincando com tamanha animação no sofá em que eu costumava subir num só salto. Mas me contive, atento ao desenrolar da visita. Os pais de Sofia conversavam com outro casal – provavelmente os pais da menina estranha – descobri que Sofia tinha uma prima, e ela a estava visitando neste momento. Já imaginei que a noite seria divertida, cheia de brincadeira, com duas meninas elétricas correndo e brincando, enquanto eu corria e me divertia ao redor delas.
    Já estava disposto a pular no sofá e dar boas vindas e recém-chegada, quando captei na conversa a insinuação de que Sofia dormiria na casa da prima. Nesse momento paralisei. Sentei e virei minha cabeça, tentando entender a situação. Observei, impotente, enquanto Sofia, quase sem lembrar de minha presença, totalmente absorvida pela presença da prima, saiu pela porta. David, ao fechar ao voltar para a sala, suspirou e olhou para o chão. Olhou para a esposa. Por fim, o olhar caiu sobre mim, que ainda estava com a cabeça pendendo para a esquerda, tentando encaixar as pequenas peças em minha cabeça.
    Minutos depois, eu estava no carro de David. O carro era preto, um sedã de dar inveja. Os bancos de couro me fazia escorregar, e por isso ele me colocou numa caixa almofadada no banco da frente ao seu lado. Olhei para o lado, diversas vezes, tentando captar sua atenção. Queria que ele falasse comigo, me explicasse o que estava acontecendo. Queria que ele me olhasse nos olhos e revelasse, mesmo que inconscientemente, o que ele pretendia fazer comigo. Gemi, soltei latidos fracos, até coloquei minhas patinhas em seu colo, mas ele nem virou a cabeça. Acontece que David, sendo um empresário bem-sucedido, havia apreendido que uma abordagem fria e pragmática, tão eficiente nas resoluções profissionais, era uma boa opção para lidar com situações de família complexas. A partir dali, eu era apenas um pequeno pacote, um malote, que deveria ser levado de uma filial para outra.
    Depois de meia hora de viajem, chegamos numa avenida, com várias pistas e grandes calçadas. Devido ao horário, não haviam muitos carros circulando, e as calçadas estavam cheias apenas de mendigos e pedintes. Tínhamos chegado numa parte suja e imunda da cidade, talvez o centro. Um grande viaduto se erguia sobre a avenida, lançando sobras e formas estranhas sobre os prédios e as vias. Ficar sob ele dava a impressão de que a noite era mais escura do que deveria ser, que a cidade era mais suja do que de fato era, que o meu destino era mais sombrio do que eu podia imaginava. Num dado momento, David estacionou em frente a uma farmácia. Ele desceu do carro e entrou no estabelecimento. Fiquei parado, com medo e assustado. Não entendia o que estava acontecendo. Senti presenças entranhas ao redor do carro, como se espíritos o circundassem, esperando que eu saísse para me jogarem na imundice da cidade.
    Passados alguns momentos, David saiu da farmácia. Uma pequena sacola em suas mãos. Ele entrou no carro e guardou a carteira no porta-luvas. Então, meu coração parou. O inesperado aconteceu. Eu não sou idiota, quero deixar isso claro. Já esperava que algo estranho acontecesse, mas não daquele jeito. Não daquela forma. David, friamente, manobrou o carro para entrar na avenida novamente. Virou-se para a direita, fitando o estacionamento da farmácia. Ele esticou o braço e abriu a porta do passageiro. Sem nenhuma cerimônia, sem nenhum protocolo, ele empurrou a caixa em que eu estava sentado. O malote fora entregue, e não havia ninguém para recebê-lo. Cai, rolei e me espatifei no chão sujo e molhado. Antes que eu pudesse me levantar e olhar para o carro, tentar ver os olhos de meu carrasco, o carro deu partida, rápido como o vento. Nos faróis vermelhos eu vi o meu medo, a minha sina, outro golpe do acaso para me derrubar. O sedã sumiu numa esquina, levanto minha esperança e minha expectativa. A escuridão me envolveu como a mais forte das tempestades, me tocando, buzinando em meus ouvidos, tramando e me envolvendo numa teia de medo e desesperança.
    Afinal, o que eu posso fazer? Como posso evitar que uma senhora caridosa tropece nos labirintos de sua casa e quintal? Como eu posso evitar que uma garotinha adorável e sensível tenha alergia a cães? Como posso evitar que coisas ruins aconteçam? Será que estou condenado, tal qual um boneco de madeira, um personagem de mentira numa peça macabra, a assistir minha própria vida passar na minha frente, enquanto alguma força superior e sádica controla as falas e ordens de palco que definem meu futuro? Estava condenado a assistir o roteiro da minha vida de forma passiva e submissa, a observar as ruínas e as desgraças sem nenhuma ferramenta narrativa para intervir nessa trama infeliz.
    Mais uma vez, pelo bem da minha sanidade e da sua boa vontade de ouvir minha história, vou poupar os detalhes da minha primeira noite na rua. Basta dizer que eu vaguei, para longe e para fundo, sem rumo ou direção. Fugia de homens perigosos e de outros cães protegendo seus territórios. Não queria incomodar ninguém, não queria invadir nada, só queria me proteger, sobreviver. Me escondi embaixo de carros, em vestíbulos sombrios, em becos assustadores. A cada hora um novo susto, a cada momento um novo perigo. Temia pregar os olhos, para não ser surpreendido por nenhum violentador, mas, devido ao cansaço, cheguei ao ponto em que desmaiei no meio de uma viela mal iluminada. Acordei horas depois com o sol nascendo e o som de latidos na rua paralela. Como não fui pego de surpresa no meio do sono, eu não sei. Apesar de ser um resultado otimista, sobrevivência a eventos como esse, me deixavam com mais medo do que otimismo de que as coisas poderiam melhorar. Sabia, no fundo de meu pequeno e acelerado coração, que se eu escapei de algo ruim, com certeza algo pior me esperava mais para frente. No fundo eu desejava sofrer toda a minha cota de tormento de uma só vez, para que, caso eu sobrevivesse a tal coisa, eu pudesse viver tranquilamente. Mas, para minha completa angústia, o acaso continuava a me torturar, dando doses, ora homeopáticas ora homéricas, de decepções e sofrimentos, fazendo com que minha expectativa do futuro fosse cada vez mais sombria e pessimista.
    Na tarde do quinto dia, faminto e com estranhas coceiras na pele, cheguei num pequeno terminal de ônibus. Andei pela plataforma de cimento, passando entre as filas de pessoas esperando suas conduções. Um dos fiscais tentou me espantar, batendo o pé no chão e gritando com uma boca que, quando se considerava o tamanho da barriga e do pescoço, se assemelhava a de um porco obeso. Corri, assustado, incapaz até de vasculhar os lixos perto dos bancos. Ao chegar no final da plataforma, perto da última fila que aguardava um ônibus, vi uma família alegre perto de um dos bancos. Um homem, sua mulher, e dois garotos pequenos. Observei, por alguns segundos, as brincadeiras dos irmãos. Eles davam pequenas voltas, subiam no banco e fingiam que possuíam superpoderes. Me lembrei das brincadeiras que Sofia e sua prima brincavam no sofá, pouco antes de sumirem da minha vida.
    Sentei, aproveitando que o fiscal desviara sua atenção com a chegada de um ônibus. Um dos meninos me viu, e depois de alguns segundos me encarando, abriu um largo sorriso e apontou o dedo em minha direção, atraindo a atenção do irmão. Eles estalaram os dedos e me chamaram para perto. Eu, desconfiado com todos no terminal, hesitei, mas não resisti às faces alegres dos dois meninos. Com o rabo abaixado e as orelhas cobrindo meu rosto, me aproximei, enquanto um dos meninos estendia sua mão em minha direção. Eu parei. Olhei para os lados. Estiquei meu corpo, coloquei meu focinho perto da mão do menino, e tive a melhor sensação da minha vida, como já não sentia desde aquele momento com Sofia no canil. O menino acariciou meu focinho docilmente, e pediu para o irmão fazer o mesmo. Por um momento, estava em puro êxtase. Os pais, curiosos com o relaxamento dos filhos, olharam em minha direção, e fiquei surpreso por atrair um olhar piedoso e afável, tanto da mãe quanto do pai.
    Por alguns segundos, minha alegria foi restaurada. Senti a mesma sensação de quando encontrei a família de Sofia. Dois garotos, alegres, animados, e dois pais carinhosos e tolerantes. A família dos sonhos, talvez. Me aproximei dos meninos enquanto eles faziam massagens nas minhas costas. Ouvi até a mãe deles dizendo que eu era fofo. O brilho dos meu olhos voltou, a coceira deu uma pausa, a fome ficou em segundo plano. Tudo o que importava era o carinho, a atenção daquela família amorosa.
    Então uma grande ônibus chegou, como um furação numa praia desavisada. Ele estacionou ao lado da primeira fila, e, após abrir as portas, as pessoas começaram a entrar. Depois de mais alguns carinhos, os meninos se distraíram. Os pais os chamaram num tom impreterível, urgente. Eles se viraram, praticamente sem olhar para trás. Eu não sabia o que fazer. Eu podia entrar naquela estrutura de ferro? Os pais entraram, os filhos chegaram, deram as mãos e desapareceram na porta dobrável. Não deram um tchau, não se despediram, nem sequer olharam para trás! Será que eles realmente se importaram comigo? Será que eles entenderam a minha situação? O quão mínimo eles precisavam fazer para me ajudar? Será que eu podia passar, tão facilmente, como uma distração em uma fila, enquanto meu estômago se corrói e minha pele queima? Quantas pessoas e seres extremamente necessitados não são vistas, percebidas por alguns momentos, as vezes até recebendo o mínimo de atenção, e então são esquecidas, tratadas de forma indiferente e despreocupada, como se ninguém pudesse fazer nada por sua situação? Aposto que o mundo está cheio disso. Mendigos largados em ruas, doentes morrendo em hospitais, pessoas famintas em terras desoladas, mas como nada disso afeta diretamente aqueles que não sofrem tais infortúnios, ninguém sente obrigação nenhuma de fazer nada. Uma atenção mínima aqui, uma doação mísera ali, pronto, minha parte já está feita. Deixe que outro faça o mesmo. Ou melhor, deixe que eles apodreçam. Devem estar acostumados. Não posso fazer muito mesmo.
    O fiscal, percebendo minha insistência em ficar na plataforma, jogou um pedaço de pedra em cima de mim. Meu quadril ardeu, como se tivesse sido perfurado. Eu corri, assustado e com muita dor. Atravessei a rua e me escondi num beco em que o crepúsculo já fazia questão de escurecer. Ao fugir, olhei para trás, e vi diversas pessoas discutindo e brigando com o fiscal. Provavelmente não concordaram com a pedra que me atingiu. Mas, por mais lisonjeado que eu fique com essa defesa, eu tenho que dizer: de que adianta agora? O que eles fizeram por mim? Nem sequer me seguiram para ver se eu estava bem. Nem sequer notaram minha presença enquanto eu exibia minha barriga seca e minha pele escamada. Pelo contrário, quase todos se evitaram de olhar para mim, me ignoraram, me jogaram a pedra da indiferença e do pouco caso. Agora eu estava faminto, com a pele queimando e com fortes dores internas. Enquanto a discussão no terminal terminava e cada um se arrumava para voltar para suas casas confortáveis, eu me encolhia embaixo de um carro, sentindo uma inflamação acima da perna direita, chorando e pensando o que alguns fazem para merecer tal tratamento do destino. No meio das lágrimas e da escuridão que assumia a cidade, eu adormeci, sem consciência do que acontecia.
    Acordei horas depois. Tentei me levantar e uma forte pontada quase me fez desmaiar novamente. Sai de debaixo do carro fui para a luz de um poste de iluminação. Não conseguia mover minha perna direita e tive que me arrastar. Ao chegar na luz, olhei com assombro para um grande inchaço acima da minha coxa. Hemorragia interna, provavelmente, uma bola de sangue crescia em meu interior. A pedra me atingiu em cheio, e não quis poupar meu intestino e meu fígado. Agora tudo está selado, eu pensei. Senti minha cabeça pesada, meus olhos ficando pendendo para baixo. Olhei para o final do beco e me arrastei com o que me restava de forças. Os latidos e os uivos a minha volta já não me assustavam mais. Nada podia me salvar de sangrar, sem parar, até nada mais funcionar.
    Cheguei ao final do beco, que ficava um pouco elevado bem em frente a uma via expressa, e aqui estou desde então. Dezenas de carros passam por minuto. Não vejo pessoas ou animais em nenhuma parte. Já sem forças, e com um peso insuportável no quadril direito, eu tombei, em no final do beco, com a cabeça pendendo no meio-fio, olhando para a movimentada cia expressa a frente. A escuridão da noite me envolve, avançando e lançando-se sobre mim, me mostrando que eu não tenho chance contra a enormidade da injustiça do mundo.
    Já não estou mais triste. Não tenho porque me preocupar. Tudo está acabando. O acaso venceu, a vida jogou seus dados e todos os meus números estavam errados. O efeito borboleta trabalhou maravilhosamente contra mim. Casualidade e fatalidades se uniram em um dueto sádico, numa canção que eu não fui capaz de ouvir. Só me restava esperar, aceitar, entender. Olho para cima. Imagino que meus olhos, apesar de escuros, devem estar vazios e sem foco, como os olhos de Irene em seus últimos suspiros. A falta de foco e a fraca respiração me dominaram, me deixando num estado de consciência quase espiritual.
    A luz de um poste começa a ficar mais forte. Eu ouço algumas vozes, alguns passos. A voz de uma mulher, dizendo para alguns homens correrem. O som de metais e de um veículo, de panos e curativos. Será que algum seguidor de Irene me achou? Será que alguém do terminal, compadecido comigo, tentava me procurar e teve sucesso agora? Fecho os olhos e abro-os novamente. Seria um sonho? O beco se escurece e a luz do poste fica mais fraca. A última luz de um farol cruzou, e quando a próxima chegou, os olhos sem foco não encaravam mais nada.
  • Ação e Reação

    Tenho ouvido por ai a lei da ação e reação. Ela é usada em qualquer situação social e vou me ater, somente, no momento de desentendimento num relacionamento a dois, não vem ao caso qual seja o tipo de relacionamento, ampliarei para todas as classes, seja homo, seja heterossexual. Acontece que em momentos de conflitos conhecemos verdadeiramente quem é o nosso parceiro. Não é no sexo, nem no cinema, nem na casa da sua mãe, nem na viagem e no jantar romântico. É aqui (no desentendimento), que poderemos identificar qual é a sua personalidade e acredite: Se você não gostar da ação ou reação do seu parceiro, tome cuidado! Desde da violência física, verbal e consequentemente psíquica até aos atos de suposta traição ou desejo de trair. Acontece que no período de conflito é que demonstramos quem somos de verdade. O quanto de autocontrole e respeito para com o outro temos. Aqui demonstramos o nosso verdadeiro afeto e amor e o mais importante nossa índole. Se somos pacientes, altruístas, fieis, respeitosos e bondosos com o outro. O importante é se relacionar com quem lhe entenda e te aceite nos momentos felizes e saiba te tratar ainda melhor em tempos de conflitos. Mas por favor, saiba identificar e valorizar o comprometimento do próximo, pois você também está sendo analisado.
  • All Star #44

    Já faz um tempo que descobri que estudar não é fundamental para terminar o colégio. Só precisa estar lá no dia-a-dia e fazer uma prova que quase sempre é coletiva. A escola não quer reprovar ninguém e os pais dos alunos não querem os filhos reprovados. Isso basta. Então, como diz o Gabriel Pensador, gosto de pensar que estou usando este tempo para aprender a viver. Não é fácil com um monte de gente dizendo que tudo é importante todo tempo, mas é agradável quando a Júlia vem conversar sobre qualquer coisa. “Você tem um cigarro pra mim fumar no intervalo?” “Mas você não fuma…” “Estou começando. Ontem fumei um com a Alina e o Enrolado. Hoje queria fumar com você no intervalo.” “Você que sabe, mas acho que isso não é legal.” “Por favor, não venha você, que fuma quase um maço por dia, dizer que fumar faz mal e blá blá blá…” “Nunca disse que me orgulho.” Ela me olhou com aquele sorriso de ironia, um pouco envergonhada. As borboletas estralaram por todo o meu estômago e gritaram em coro: “ela quer ficar sozinha com você idiota!” Um contido eu murmurou: “vamos no fundo da garagem dos ônibus então?” “Legal, vou falar com a Alina e o Enrolado também.” E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
    Fumar escondido no corredor entre os dois ônibus que ficavam na garagem era como sentir a liberdade inflando os pulmões. “Ontem, escutando National anthem conclui que Radiohead é pura arte.” Na verdade tinha passado a tarde de ontem inteira escutando este som. “Arte do suicídio?” A Julia tinha me dito uma vez que tinha medo de escutar Radiohead sozinha. “Arte é uma coisa que te diverte, tira você do ar, Radiohead deprime.” “Quem te disse isso cara?” “Que Radiohead deprime?” “Não, que arte é diversão.” “Não é?” “Não. Arte é uma coisa que causa estranheza e não tem finalidade por si só.” “Então você é arte!” Me sinto duas vezes mais idiota quando o enrolado faz eu parecer um idiota na frente da Julia. Já faz um tempo que descobri que um dia, que não vai demorar muito, tudo que acontecer aqui não vai significar absolutamente nada. Mas enquanto essa hora não chega qualquer coisa parece com hambúrguer para o apocalipse. Como sempre acontece trinta segundos antes do sinal do tacar o Sergião estava de olha na gente lá no fundo para ver se ninguém ia pular o portão para fugir daquele hospício. “Vamos fumar um lá na beira da pista para ver o pôr-do-sol no fim da tarde?” Jamais diria não para a Julia. “Nós temos que terminar o trabalho de inglês depois da aula hoje.” Quando a Alina tirou ela e o Enrolado do rolê as borboletas voltaram a estralar no estômago. “Eu topo.” “Legal, vou ver se o Jhony quer ir com a gente, tudo bem?” E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda a minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
    Passei a tarde inteira pensando em um jeito de escapar do destino implacável de amar alguém. Escutei In my darkest hour do Megadeth, depois o acústico inteirinho do Alice in Chains, Lithium do Nirvana, e nada. Os contos do Bukowisky me diziam que as coisas ainda podiam piorar. Nem Holden Caulfield podia me salvar, e Beleza Americana confirmava um fim trágico para a vida se eu continuasse no caminho que os professores, meus pais, avôs, o mundo, traçava para mim. O melhor mesmo seria se jogar no abismo de uma faculdade pública qualquer longe daqui. Nos últimos tempos perdi umas horas pesquisando a relação candidato vaga em universidades do norte e nordeste. Da para passar em filosofia, sociologia ou um curso ia qualquer em um monte delas. Já faz um tempo que descobri que ainda não tenho a menor ideia do que quero ser na vida. Enquanto eu não souber o que vai ser o melhor a fazer é ganhar tempo. Uma temporada longe da Julia podia ser bom para ela sentir minha falta. Isso fazia as borboletas do estômago estralarem como nunca. Eu voltando para casa, formado numa faculdade pública, e a Julia morrendo de saudades, também formada, e a já casada com um cara qualquer que ela conheceu na faculdade. Era o mais provável. E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda a minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
    A Julia passou em casa, com o Jhony, e o trio princesa, príncipe e o bobo saíram para passear. O jeito que um falava com o outro, e a empolgação deles em falar um com o outro, gritava que eu estava sobrando lá. Só quando já estávamos perto do limite da cidade, e acendi o baseado, minha presença foi notada com um comentário do Jhony. “Hummm….senti aquele cheirinho da erva vinda do norte.” Os dois riram como se o Ari Toledo tivesse contado uma piada. Não fiz questão de disfarçar um sorriso forçado, e a Júlia tentou criar alguma ligação entre nós três. “O Jhony tava me falando outro dia que começou a ler O senhor do anéis…..você já leu, né Neb?” “Não, eu acho o Tolkien muito descritivo, prefiro ficção científica.” Passei o baseado para ela e nem olhei para ele, que tentava invocar uma amizade que nunca existiu. “Eu gosto bastante de umas coisas mais mitológicas.” “O Neb me emprestou uma vez A revolução dos bichos e eu gostei muito. Mas não consigo ler O senhor dos anéis.” Os dois não concordavam em alguma coisa, foi o suficiente para as borboletas no estômago estralarem como a esperança que surge sem explicação todo começo de primavera. “Mas os filmes são sensacionais. Eu tenho os três.” “Nossa, eu nunca vi.” “A gente podia combinar de fazer uma maratona e assistir os três qualquer dia em casa.” Os dois se olharam e a Júlia deu pra ele um sorriso que ela nunca me deu. E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
  • Almoço fast-food

    Seu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.
    Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.
    Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “........” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”
    Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.
  • Amadureça

    No peito leva os bons momentos
    Não que tenha esquecido das feridas
    Apenas deixou cicatrizar com o tempo
    E decidiu receber da vida as coisas mais bonitas

    Sente falta das conversas, risadas, briguinhas
    Das noites acordada, dos conselhos dados e recebidos
    Um novo rumo tomou a sua vida
    Novos sonhos, novas vontades, novos amigos

    Olha só, o gosto para tudo mudou
    Mudou dos pés à cabeça
    A vida realmente transformou
    Antes confusa, hoje pessoa de certezas

    No fundo do olhar vai ver um pouco de antes
    Talvez reconheça, talvez conheça
    A vida tem desses tempos marcantes
    Possa ser uma forma de fazer com que amadureça
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Beleza se põe à mesa?

    Lembro- me de quando eu estava no pré vestibular, na primeira aula de redação e a professora nos propôs o seguinte tema: Beleza, se põe ou não à mesa? Ali, eu com uma intelectualidade mínima, preso a paradigmas religiosos que me impossibilitava pensar em frases pornográficas e ainda com a vergonha de expor minhas ideias, características educacionais que me foram impostas, como agressões físicas (palmadas), tratamentos para reeducação com berros dos meus pais e uma exclusão informativa que me foi atingida durante toda minha miserável vida acadêmica. Fiquei repleto de duvidas e sem o que dizer. Mas agora, antes tarde do que nunca (frase que ouvia de um amigo de infância, espero que ele se manifeste aqui), tenho minha opinião. Beleza, se põe sentada na cadeira. Com postura, com educação e habilidades sofisticada para utilizar de forma correta os talheres. Além dessas características, deves ser alguém que agradeça de forma humilde os serviços prestados pelo garçom. Que se vista com elegância suficiente para atrair olhados, mas deixa claro em suas ações que se respeita acima de qualquer opinião alheia. Que se orgulha da pessoa que é, e que não satisfeita busca uma nova melhoraria todos os dias. Que sabe sorrir diante a uma problemática, não por maluques, mas por total lucides de conseguir enxergar uma possível solução. Que valorize as relações sociais que foram estabelecidas por si, e que tenha empatia para respeitar ainda mais as que não foram. Que entenda que as diferenças sempre existirão e que o príncipe perfeito, sempre dependerá de quão princesa tu és. Que ame os animais, bem mais que os humanos. Que seja uma pessoa que encante com suas ideias inovadoras. E que utilize a mesa para escrever seus mais belos textos.
  • Bruno, Maira em uma tarde qualquer

    Bruno acordou como foi dormir, desempregado. Pegou a última colher de café e fez um chá preto fraco. Queria um cigarro, mas o cinzeiro não tinha bitucas. Precisava de dinheiro. Pensou em ligar para o César. Ele estava bem. Era gerente de alguma coisa numa multinacional há anos. Foram grandes parceiros de truco nos tempos de escola. Não se falavam desde o enterro do Muleta, dois, três anos atrás. Depois ficou com vergonha porque não sabia nem o que ia pedir. Dinheiro? Trabalho? Good times? Tudo junto? Bruno estava fodido. Morando de favor no sofá da sala do pai, roupa mal lavada e cara de desocupado. Procurou umas moedas nos potes da cozinha, depois nos da sala, e no sofá. Achou o suficiente para uma dose de qualquer coisa barata e um cigarro. Sem muitos destinos a seguir ele rumou para o Bar do Jaime. Chegando lá sentou numa mesa na calçada e ficou esperando o tempo passar na companhia solitária de um copo de conhaque. Quando parecia que o mundo inteiro estava alheio a sua existência Maira sentou ao seu lado.

    - Não vai me oferecer uma bebida?
    - Não tenho dinheiro e esta é uma dose individual. Mas você pode ficar sentada aí se quiser.
    - Então eu pago a bebida.

    Maira entrou no bar e voltou com uma garrafa de cerveja e uma dose de conhaque. Serviu dois copos com a cerveja e sentou.

    - Não consigo me imaginar trabalhando, casada, com filhos. Nasci para ser livre.
    - Dá para ver.
    - O que dá para ver?
    - Que você nasceu para ser livre.
    - Mas as pessoas não aceitam. Querem transformar você numa coisa que você não é.
    - As pessoas são foda.
    - Você nasceu para ser o que?
    - Nada. Vou no banheiro.

    Bruno se levantou e entrou no bar. Quando voltou tinha um outro cara na mesa e um mostruário hippie apoiado na parede.

    - Esse é o Alberto. Ele vende artesanatos. Perguntou se eu aceitava um colar em troca de uma cerveja e eu aceitei.
    - Tudo bem.
    - Qual o seu nome?
    - Bruno.
    - Eu também não sabia, nem tinha perguntado.
    - Tudo bem.
    - A gente estava falando do preconceito que o Alberto sofre por ter escolhido vender artesanatos na rua. As pessoas acham que ele é vagabundo.
    - Negro como eu então, o preconceito é dobrado.
    - As pessoas são foda.
    - Costumo dizer que sempre desconfie quando alguém pergunta o que você faz. Ela quer saber como ela pode se aproveitar de você.
    - Eu acredito mais no que as coisas são do que no que elas podem fazer.

    Maira morava sozinha num apartamento, no centro, que sua família lhe deixou como herança. O vizinho de baixa mora onde morou sua vô um dia, e como ela não mora no céu Maira que recebe o aluguel. Tinha feito o antigo magistério, mas nunca usou o título para nada. De repente abriu a cortina da sala e se deparou com Bruno, sentado sozinho no bar com um copo na mesa, desanimado. Ela não queria ficar sozinha sem fazer nada em casa, de longe ele parecia que também não. Por um instante ela pensou que tinham sido feitos um para o outro, então resolveu descer. No elevador ela lembrou de quantas vezes este pensamento invadiu sua cabeça, e que a esperança é uma doença. Mas ela não tinha nada a perder e já estava no meio do caminho. Depois de uns goles, e de Alberto voltar para a batalha da rua, Bruno ganhou o status de intrigante.

    - Você não gosta muito de falar, né Bruno?
    - Não.
    - Porquê?
    - A chance de falar besteira é menor.
    - Meu pai dizia que em boca fechada não entra mosca.
    - É.
    - Você é meio misterioso, tem cara de inteligente. Gosta de ler?
    - Não.
    - Eu também não. Prefiro outras coisas para viajar. Ahahahahha.
    - ….
    - Tem gente que acha que você tem que ler, ter cultura, estudar. Acho que estas coisas só deixam os outros mais chatos, metidos a besta. Ficam se achando superiores.
    - As pessoas são foda.
    - Como se saber uma conta de matemática ou ter lido todos os livros do mundo fizessem de alguém mais inteligente. Você terminou a escola?
    - Não.
    - Você por exemplo, não gosta de ler, não terminou a escola, e parece muito inteligente.
    - ….
    - Acho que se aprende mais aqui, vivendo a vida na rua, do que com um professor metido a besta numa escola que parece uma cadeia.
    - É.
    - O que você tem para fazer?
    - Nada.
    - Eu também. Acabou a cerveja. Tenho mais lá em casa, quer subir?
    - Sim.

    Os dois foram para o apartamento dela e deram uma meia foda. Bruno teve uma parte do ânimo tomado pelo conhaque e Maira desanimou com a falta de jeito dele com a coisa. Depois de tentar um pouco os dois desistiram e Bruno voltou para o sofá da casa do pai.
  • CARMOND - CAPÍTULO I

    CAPÍTULO UM

    Foi em meados de junho e o inverno era um dos mais rigorosos já vividos no vilarejo, até aquele ano. Na noite em que o jovem médico chegou à pequena e distante Carmond, além do frio, caía uma chuva torrencial.
    _ Aqui é sempre tão frio assim? Ele perguntou ao simpático motorista que o havia buscado, na estranha estação ferroviária, algumas horas atrás, e agora, o ajudava a retirar suas malas do carro.
    _ Sim, e é bom ir se acostumando, doutor! Lá pro final do mês tende a ficar pior, muito pior. Às vezes chega a nevar.
    Augusto sorriu e pensou tratar-se de uma brincadeira do homem que caminhava apressadamente à sua frente em direção à porta da pensão. A única do local.
    _ Porque está sorrindo, doutor? Acha que estou de brincadeira?
    _ Então é sério? Oh meu Deus! Isso é inacreditável, lá na capital quase nunca faz frio.
    _ Nem mesmo no inverno?
    _ Muito pouco, meu amigo.
    O motorista colocou a última mala na recepção, deserta, e tocou algo parecido com um sino.
    _ Espere só mais uns dias e verás o que é frio, meu doutor. É de trincar os dentes.
    Nesse momento, os dois ouviram passos apressados no chão de madeira que vinham em direção a eles e não demorou a surgir uma senhora baixa e rechonchuda que carregava um castiçal com velas acesas. Só então, Augusto se deu conta que todo o vilarejo estava na escuridão. Estranhou, mas, imaginou que a chuva fosse a responsável pela falta de luz elétrica.
    _ Boa noite, meus senhores!
    _ Boa noite, Xica. Demoramos, mas, chegamos.
    _ Já estava mesmo preocupada, Piu. Essa chuva toda e vocês à deriva nessas estradas perigosas.
    _É, minha amiga! Realmente o trajeto não foi fácil, penso que o doutor nunca tinha enfrentado uma chuva dessas na vida. Mas, ele teve sorte em ter esse velho aqui como motorista. Além disso, ele está estranhando muito o frio aqui da região, não é mesmo, doutor?
    _ Pois não? Augusto perguntou meio perdido, pois ficara observando o casal conversando e imaginando há quanto tempo eles se conheciam. Na maioria das vezes e em lugares pequenos como Carmond, as pessoas se conhecem de uma vida toda.
    O motorista tocou em seu ombro e repetiu parte do diálogo:
    _ Estava a dizer para Xica que o senhor não está acostumado com o frio que faz por essas bandas.
    _ Ah sim! É verdade, dona...?
    _ Francisca, mas eu prefiro que me chamem de Xica.
    _ Como quiser, dona Xica! Pois então, eu realmente não estou acostumado com tanto frio. Lá na capital a temperatura está sempre muito elevada.
    Xica e Piu trocaram um sorriso cheio de cumplicidade, como quem queria dizer: “É bom se preparar” e ela que havia deixado o castiçal sobre o balcão, voltou a pegá-lo e pediu que eles a seguissem.
    _ Não posso me demorar, Xica. Agora que o doutor está entregue, sã e salvo, preciso ir pra casa descansar pro dia de amanhã.
    _ Nada disso, Piu. Você não vai embora sem antes tomar um prato daquela sopa que você adora e que está ali quentinha esperando por vocês.
    Augusto entendeu que não seria necessário a dona da pensão insistir, Piu tomou suas malas nas mãos outra vez e foi seguindo dona Xica através do imenso corredor cheio de portas, até que ela parou diante de uma delas e entregando o castiçal para Augusto, retirou do bolso uma chave.
    _ Este é o seu quarto! É tudo muito simples, mas muito bem cuidado, doutor.
    Mesmo com a pouca claridade, Augusto percebeu que o quarto, apesar de simples, era aconchegante.
    _ Tem tudo o que eu preciso aqui! E sendo assim, não poderia ser melhor, podem acreditar!
    _ Fique tranquila, Xica. O doutor aqui não é cheio de frescuragens como aquele último que esteve no vilarejo. Não é mesmo, doutor Augusto? O motorista perguntou enquanto terminava de colocar as malas alinhadamente num canto do quarto.
    _ Não se preocupem comigo, tenham a certeza que ficarei muito bem acomodado. Só preciso tomar um banho e trocar essa roupa que está um pouco úmida.
    _ Aqui nessa cômoda tem toalhas limpas e passadas, e o banheiro é logo ali no final do corredor. Vou acender algumas velas para ajudá-lo.
    _ Por falar em acender, o que houve com a luz? É por decorrência da chuva?
    _ Não, meu doutor. A chuva não tem nada haver com isso. Todas as noites, após as oito horas, a vila fica na escuridão. Com chuva ou sem chuva.
    _ Como assim? O que há com a eletricidade daqui?
    Piu se posicionou ao lado de Xica na porta do quarto e os dois trocaram um olhar de cumplicidade que deixou ainda mais claro para Augusto o quanto aquele casal se conhecia.
    _ É uma longa história, meu jovem. Por ora, tome o seu banho e venha nos fazer companhia na cozinha. Estaremos te esperando para tomar uma sopa deliciosa, modéstia à parte, eu sempre acerto na sopa. Não é mesmo, Piu?
    _ Tenha a certeza disso, doutor Augusto. Não existe sopa melhor, nem na capital, nem no mundo inteiro.
    Augusto sorriu e os dois deixaram o quarto indo em direção à cozinha. Enquanto o barulho dos passos ia se distanciando, o médico ficou a pensar na questão da luz elétrica e inevitavelmente as histórias que seus amigos haviam lhe contato sobre a vila retornaram à sua memória com força total.
    Não! Pensou ele. Todas aquelas histórias eram bobagens dos meus amigos, que não queriam que eu viesse à Carmond.
    E foi tentando afastar esses pensamentos que Augusto seguiu para o banheiro do final do corredor.
  • CARMOND - CAPÍTULO III

    CAPÍTULO TRÊS
    O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
    A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
    Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
    _ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
    _ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
    _ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
    Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
    _ Demoraremos muito para chegarmos?
    O homem sorriu meio desanimado.
    _ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
    _ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
    Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
    _ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
    Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
    _ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
    _ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
    Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
    _ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
    _ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
    Sorriram os dois.
    _ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
    Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
    _ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
    _ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
    _ Por exemplo?
    _ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
    _ E porque isso acontece?
    _ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
    Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
    _ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
    Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
    _ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
    _ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
    Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
    _ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
    Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
    _ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
    _ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
    E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
  • Como o Tempo Passa

    A praça do bairro mudou
    O jardim não é o mesmo
    As flores não tem mais cor
    Os pássaros vivem ao relento

    Como o tempo passa

    Mudou tudo até mesmo a escola
    São poucas as lembranças
    Agora as ruas tem calçadas
    E diferentes crianças

    Como o tempo passa

    O velhinho do pão nos deixou
    As fofocas sem a zeze não são as mesmas
    Tudo é tão comum para quem chegou
    Mas quem retornou vê toda diferença

    Como o tempo passa

    Parece que foi ontem que me mudei
    Que tive medo de estar perto das pessoas
    Na verdade foram as melhores que encontrei
    Vivemos tanta coisa boa

    Como o tempo passa

    Daqui da janela volto no tempo
    Tantas histórias, tanta vida
    Cabelos brancos ao me olhar no espelho
    Me sinto a vovó Bia

    Como o tempo passa

    É ele passa! Passa tão rápido quem nem notamos.
    Quando percebemos já estamos revivendo um passado distante
    As coisas boas sempre vá aproveitando e guardando
    Pois a vida é feita de escolhas e para viver só temos uma chance!
  • De Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira) — Crônicas do Parque

    Acordou exausto às quatro horas da manhã com o toque de uma suave música de flauta chinesa, em que configurara no aplicativo despertador do seu smartphone. Levantou-se de súbito sentando na cama com os olhos pesados de sono, em que o seu corpo estava a lhe implorar por mais algumas horas de descanso. Aquele momento era-lhe torturante, pronunciou mentalmente algumas palavras de conforto “Seja forte, vamos! Levante-se com o pé direito imediatamente’’. Assim, levantou-se indo caminhando a passos tontos em direção ao banheiro. Fora com a mão ao interruptor, ligou a luz, e seus olhos recebeu um choque luminoso profundo. Deu alguns passos curtos até o lavatório, ligou a torneira ajustando a água para que ficasse morna, juntou as mãos em forma de cuia e banhou o seu rosto, confortando sua alma. Olhou para o espelho, e olho a olho se confrontaram numa vermelhidão sangrenta, ‘’Mas um dia!’’, exclamou para si mesmo. Rapidamente fora até a cozinha, agora com mais energia, e colocará a água do café na chaleira para esquentar, ligou a máquina de moer grãos e foi à sala vestir-se com as roupas do trabalho. Despiu-se das roupas de dormir jogando-as de qualquer forma no sofá, restando no corpo apenas a cueca. Vestiu a calça, apertou o sinto, colocou a camisa, e por último uma toca para cobrir sua longa cabeleira de tranças naturais. Ao término dessa empreitada, a chaleira começou a apitar. Regressara a cozinha, pegara uma xícara e uma colherzinha, e fora a máquina de moer grãos. Colocou duas colheres de café colombiano que comprara na feira de Ramilah, em uma loja de tempero dos árabes, e pegando a chaleira que se encontrava apitando no fogão, despejou lentamente a água fervendo sobre o café moído que se encontrava deitado na xicara, em que prazerosamente inalava o vapor do café que subia envolvendo o seu rosto. Somente naquele momento de pura nostalgia, em que se entregava aquela sensação prazerosamente odorífica, que a angustia da sua correria matinal terminava. Após aqueles segundos de êxtase profundo, voltava a realidade, jogando três folhas secas de sálvia na xícara, misturando com a colherzinha o seu café. Assim, colocou o seu relógio digital waterproof no pulso, e lhe restava apenas trinta minutos para que a vã buzinasse a porta de sua casa para o levar ao seu ofício. Foi ao seu quarto, retirou o seu smartphone do carregador vistoriando para desligar o WI-FI, o Bluetooth e GPS. Fez um Task Killer em um aplicativo de segurança, para maximizar o rendimento da bateria, e o colocou no bolso. Retirou também rapidamente o carregador, enrolando o cabo no adaptador da tomada, e o colocou em um dos bolsos laterais de sua calça de trabalho. Deu um beijo rápido em sua amada esposa que se encontrava dormindo na cama, onde ela sussurrou sonolenta desejando-lhe um bom dia, e dizendo que o amava muito, e que também havia um delicioso bolo no forninho. Fora também a barriga dela e deu outro beijo, pois, esta, se encontrava gravida de cinco meses. Saiu rapidamente onde pegou o seu sapato de trabalho com suas meias no corredor, indo de imediato ao quarto das crianças. Foi a cama de sua filhinha de três anos e meio, deu-lhe um beijo desejando um bom dia, e depois a cama do seu filho de seis anos, que ao lhe dar um beijo, acordou de súbito, dizendo: “Papai eu te amo, fica aqui comigo”. Então, ele lhe disse em resposta: “Tenho que ir trabalhar meu príncipe, mas quando chegar o Papai brinca com você de pirata, Ok! Tenha um bom dia na escolinha”. Rapidamente saíra do quarto das crianças, e foi até a cozinha com uma das mãos segurando os seus sapatos e meias. Com a outra mão pegou a sua xícara de café, e foi até o lado de fora na varanda da sua casa, em que jogou os sapatos e meias no chão, e assentou a xícara numa pequena mesa. Regressa para dentro da casa, olha para o relógio em seu pulso, e apenas lhe restava mais quinze minutos. Fora até o forno e retirou apressado a forma com o bolo de Pereg e chocolate amargo, com cobertura de calda de chocolate branco, que sua esposa lhe fizera na noite anterior. Pegou a faca cortou duas fartas medias fatias, colocou em um pires, pôs uma colherzinha, devolveu a forma com o bolo para o forno, e correu para a varanda. Assentou o pires na mesinha, e apressadamente como de costume colocou suas meias e sapatos, em quanto dava goladas e colheradas no seu café e bolo. Depois de se calçar, enquanto ainda engolia e mastigava, lembrou-se que se esquecerá de molhar as plantas a noite. E olhando para o relógio, viu que apenas lhe restava dois minutos, até o pontual motorista chegar a Rua Rashi 8, no bairro de Oshiot, na cidade de Rehovot. Levantou-se sem pestanejar, pegou o regador, e enchendo de água às pressas molhava as suas plantinhas rezando para que Ohad se atrasasse pelo menos cinco minutos. E assim se deu, quando recebeu uma mensagem de Ohad pelo WhatsApp que iria se atrasar uns dez minutos, devido o caminhão do lixo estar retirando algumas podas de árvore no Tzomet (giratória), que ligava a rua Ya’akobi a Avenida Hertzl. Aliviado, molhara suas plantinhas, terminara seu café, e fizera sua oração meditativa para boa conduta do seu dia de Yom Sheni (segunda-feira) e jornada de trabalho no Parque de Kfar Saba. E este ciclo de bem e mal se repetia de Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira).

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